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| Caos
na metrópole não pode esperar |
ANDRÉ MARCEL DE LIMA
As regiões metropolitanas brasileiras vivem verdadeiro
caos político-administrativo institucional e já
não podem mais esperar por intervenções emergenciais
que estabeleçam um mínimo de sustentabilidade socioeconômica.
A afirmação em caráter de alerta sintetiza
o ambiente das conferências Regiões Metropolitanas:
Marco Regulatório e Limites E Perspectivas Para o Desenvolvimento
das Cidades e Regiões Metropolitanas, promovidas pela Urbis
2004 — Feira e Congresso Internacional de Cidades.
O evento, que reuniu especialistas brasileiros e estrangeiros
em junho em São Paulo, foi embalado pela linguagem comum
da governança metropolitana como um dos principais desafios
do terceiro milênio num mundo em que a exclusão social
avança de forma persistente nas áreas urbanizadas
e mais densamente povoadas. Mas é certo que a temperatura
do caldeirão num país sem crescimento sustentado
como o Brasil é ainda mais elevada do que a média
internacional.
Um dos maiores críticos da letargia institucional que imobiliza
a gestão metropolitana no País é Rui Falcão,
ex-secretário municipal de São Paulo. Sem meias
palavras ou receio de eventuais indisposições políticas,
ele sustenta que a Região Metropolitana de São Paulo
existe apenas virtualmente, já que os 39 municípios
jamais desenvolveram ações integradas voltadas ao
bem comum. “Não existe sinergia, cooperação
nem trabalhos conjuntos para resolver as deseconomias que afetam
a região” — afirmou, referindo-se provavelmente
ao encalacramento logístico e aos obscenos índices
de criminalidade, entre outras questões que bloqueiam a
recuperação econômica do transatlântico
de 18 milhões de habitantes.
Para Rui Falcão, a RMSP chegou a um quadro tétrico
em razão da combinação nefasta de fenômenos
regionais e nacionais. Explosão demográfica, paralisia
econômica, encarecimento do custo de vida e ausência
de programas de distribuição de renda são
alguns dos fatores que explicariam a realidade excludente da região
mais rica e populosa do País. “Além disso,
os processos de desestatização neoliberal e enxugamento
industrial dos anos 90 retiraram o poder intervencionista do Estado
e amainaram a força de mobilização dos trabalhadores,
o que contribuiu para piorar o quadro” — afirmou.
Por tudo isso, Falcão considera que a RMSP necessita urgentemente
de um novo desenho jurídico-institucional. Ele propõe
a criação de uma instância metropolitana que
reúna membros da União e do Estado, além
de representantes dos municípios na proporção
das populações e dos problemas a serem enfrentados.
Isto é, as cidades mais populosas e problemáticas
teriam direito a quantidade maior de representantes no parlamento
metropolitano. E — o que é ainda mais importante
— que o novo ente federativo disponha de recursos estáveis
para lidar com questões geneticamente supramunicipais como
desemprego, transporte público, saneamento básico,
criminalidade e deposição de resíduos.
A criação de um ente federativo metropolitano tornou-se
inadiável sobretudo porque os consórcios municipais
que trafegam na marginalidade constitucional não funcionam
a contento. “Os consórcios são medidas alvissareiras
mas ainda insuficientes, daí a necessidade de adotar um
novo desenho jurídico-institucional” — afirmou
o jornalista e político petista, que cita exemplo sintomático
da falta de visão conjunta. “Foram necessários
nada menos que dois anos para que São Caetano e São
Paulo firmassem convênio para construção de
uma ponte na divisa”.
Fusão municipal — O prefeito de
Belo Horizonte, Fernando Pimentel, é outro franco atirador
contra a metropolização virtual implantada na década
de 60 pelo regime militar. Economista, mestre em Ciência
Política pela Universidade de Minas Gerais e com experiência
de oito anos à frente da Secretaria de Finanças
antes de assumir o leme da terceira maior cidade brasileira, Pimentel
também bateu na tecla de um novo arranjo constitucional
para as metrópoles brasileiras. “É preciso
criar uma nova instância entre Estados e municípios
como os condados norte-americanos ou o great-council (algo como
conselho-maior) de Londres” — defendeu.
Mais polêmica é a proposta de remembramento dos municípios
brasileiros, em contraposição à multiplicação
de cidades na esteira da Constituição de 1988. Idéia
semelhante foi defendida na newsletter Capital Social pelo jornalista
Daniel Lima, segundo o qual a ramificação da antiga
Santo André da Borda do Campo nos atuais sete municípios
do Grande ABC trouxe mais fragmentação do que eficiência
gerencial. As cidades da região somam 2,5 milhões
de habitantes, enquanto Belo Horizonte de uma única Prefeitura
e Câmara de Vereadores chega bem perto com população
de 2,2 milhões. Já a Região Metropolitana
de Belo Horizonte totaliza 4,3 milhões de habitantes com
34 municípios.
Antes de sugerir soluções, Pimentel deu verdadeira
aula sobre condições institucionais que considera
desfavoráveis à governança metropolitana
e que estão na raiz do que ele caracteriza polidamente
como impasse federativo. O prefeito explica que o Brasil testemunhou
maciça onda de municipalização dos serviços
públicos a partir da Constituição de 88.
Mas enquanto os municípios assumiram novas atribuições,
a União manteve o domínio esmagador dos recursos
governamentais. Trata-se, na visão de Pimentel, de estratégia
calculada para garantir o direito dos credores da dívida
pública. “Aos municípios é constitucionalmente
vetado o direito de emitir títulos para se capitalizar,
por mais que as finanças estejam em ordem. Assim, a função
de investir fica restrita à União” —
reclama o prefeito.
Essa dicotomia de recursos e atribuições entre municípios
e governo central é agravada pelo fato de o papel dos governos
estaduais não ter ficado bem definido. “Os governos
estaduais sofrem de paralisia. Não dispõem de recursos
para investimentos nem de força de articulação”
— ressaltou Pimentel, ao apontar que o papel de orquestração
das regiões metropolitanas foi transferido formalmente
da União para os Estados na Constituição
de 1988.
“Nosso desenho federativo está estagnado” —
desabafou, lembrando que na assembléia metropolitana de
Belo Horizonte o voto do prefeito da menor cidade da região,
com apenas quatro mil habitantes, tem o mesmo peso que o dele,
à frente de um Município maior do que alguns países.
Exemplo sintomático — A prefeita Marta Suplicy deu
a entender que a administração da maior cidade da
América do Sul toma tempo e energia excessivos, já
que preferiu concentrar o discurso nas especificidades da Capital
paulista em vez de imprimir abordagem metropolitana à exposição
na Urbis. Apesar de não ter trafegado na principal via
de interesse da conferência, Marta enriqueceu o debate de
forma indireta ao relacionar os obstáculos municipais que
deitam raízes metropolitanas.
Ao ressaltar as dificuldades no comando da cidade de 10,4 milhões
de habitantes, a prefeita afirmou que a receita anual per capita
paulistana atinge US$ 380, enquanto Nova York dispõe de
quantia 20 vezes maior e, para não ir muito longe, a Grande
Buenos Aires arrecada o mesmo valor absoluto com população
três vezes menor. A reclamação da prefeita
serve como valioso argumento à criação de
um fundo de recursos para cidades metropolitanas, em contraposição
ao FPM (Fundo de Participação dos Municípios)
criado para beneficiar as pequenas localidades brasileiras. Pena
que a proposta de Marcos Mendes, consultor do Senado Federal,
não tenha sido levada a sério com a devida mobilização
de prefeitos metropolitanos que, em muitos caos, percebem os efeitos
no front administrativo mas não são capazes de identificar
as causas além das fronteiras do gabinete.
Marta Suplicy exibiu outras vulnerabilidades que serviriam como
preâmbulo a um documento propositivo em prol de tratamento
diferenciado às regiões metropolitanas brasileiras:
São Paulo tem 2,7 milhões de habitantes vivendo
em favelas, destina 32% do orçamento à educação
e tem dívidas que comprometem 13% da arrecadação
nos próximos 30 anos. A prefeita justificou a criação
das polêmicas taxas de iluminação pública
e lixo com a mais cartesiana lógica da necessidade inapelável.
“Sem recursos adicionais, não é possível
levar iluminação à periferia nem investir
na ampliação da capacidade de deposição
de lixo num contexto em que a capacidade atual de aterramento
se esgotará nos próximos dois anos” —
afirmou.
Periferia paulistana que, segundo a prefeita, cresceu e continua
crescendo a bordo da migração de outros Estados.
Em um bate-bola descontraído com a prefeita de Maceió
(AL), Kátia Born, que coordenou a mesa expositora, Marta
Suplicy contou que em recente visita às obras de expansão
do Aeroporto de Congonhas, acompanhada pelo presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, constatou que a maioria da mão-de-obra é
formada por retirantes nordestinos. “O Lula cumprimentava
cada um dos operários e perguntava de onde vinham. Quase
todos deixaram o Nordeste, principalmente a Bahia” —
disse a prefeita, tateando um dos principais fatores de desequilíbrio
na área de influência de São Paulo: explosão
demográfica em busca de oportunidades de trabalho que se
tornaram rarefeitas com o enxugamento industrial dos anos 90.
Concentração populacional — Diferentemente
da prefeita paulistana, o ministro das Cidades, Olívio
Dutra, está familiarizado com a metropolização
a ponto de trazer na memória dados gerais que esclarecem
mais a questão. O ex-prefeito de Porto Alegre e ex-governador
do Rio Grande do Sul, além de fundador da CUT (Central
Única dos Trabalhadores), mostrou que 40% da população
brasileira está concentrada em menos de 10% dos municípios
metropolitanos e que 90% das favelas brasileiras estão
enraizadas em 26 regiões formalmente metropolitanas no
entorno das Capitais.
Ciente do tamanho dos desafios, Olívio Dutra reiterou as
intenções do governo Lula de estabelecer ações
coordenadas que configurem uma divisão clara em relação
aos mais de 40 anos de tecnocracia, burocracia e omissão
governamental na área. “O governo trabalha com duas
ações: centralização de investimentos
em habitação e saneamento nas regiões metropolitanas
e fortalecimento dos organismos de gestão” —
considerou, sem se pronunciar sobre a hipótese de criação
de um quarto ente federativo.
Mais grave do que a eventual insensibilidade do governo central
sobre a necessidade de viabilizar uma instância de poder
metropolitano é a falta de mobilização dos
agentes socioeconômicos das regiões diretamente afetadas
pela falta de planejamento. Mas se serve como consolo, a dificuldade
em articular ações que extrapolem jurisdições
municipais não é triste privilégio brasileiro.
Em outros países também é quase impossível
aglutinar prefeitos e atores sociais de cidades distintas em torno
de iniciativas comuns. Essa constatação ficou clara
na exposição de Oscar Madoery, secretário
municipal da Produção de Rosário, Argentina.
Com 907 mil habitantes, Rosário é uma cidade portuária
e ocupa o centro de uma região destacada principalmente
pela produção de cereais para exportação.
Oscar Madoery relatou que há 40 anos a região tenta
conquistar identidade constitucional junto ao governo argentino,
mas, diante das dificuldades práticas conhecidas dos brasileiros,
resolveu redirecionar a artilharia com a elaboração
de um plano estratégico metropolitano cuja meta principal
é a melhoria do sistema viário para transporte de
cargas no interior das cidades.
A histórica ambição de tornar-se um ente
federado deu lugar a um plano de conteúdo pragmático
empunhado por atores socioeconômicos locais como universidades,
sindicatos e associações empresariais norteados
pela busca de consenso. Mas a ausência de resultados palpáveis
mostra que lá, como no Grande ABC do Consórcio de
Prefeitos, a articulação regional tem produzido
mais calor do que luz para clarificar o caminho da regionalidade
produtiva.
Pelo menos um bom exemplo de governança metropolitana foi
apresentado por Jeanine Haddad, conselheira regional da região
administrativa de Ille de France, onde está situada Paris.
A instância administrativa de Ille de France abrange 1.281
municípios que somam 11,5 milhões de habitantes,
equivalentes a 19% da população e responsáveis
por 22% do PIB (Produto Interno Bruto) francês. Com um parlamento
de 209 conselheiros eleitos por votação direta,
além de 15 vice-presidentes regionais, a instância
administrativa tem leque variado de atribuições
que envolve construção de escolas, vias públicas,
transporte coletivo, melhoria da qualidade de vida e preservação
do patrimônio histórico, além de ações
voltadas ao desenvolvimento econômico e ambiental.
Pelas descrições de Jeanine Haddad, é possível
afirmar que apenas os desinformados em assuntos federativos são
capazes de comparar o Brasil à França no tocante
a existência de milhares de municípios nos dois países,
como se o Brasil fosse um supra-sumo em matéria de descentralização
administrativa. Na França, o que se chama de municípios
são na realidade distritos de atribuições
e estruturas limitadas, mas submetidos a uma instância planejadora
maior, enquanto no Brasil mantêm-se câmaras de vereadores
e prefeituras em regiões tão desabitadas e sem demanda
em escala que não acolhem uma agência bancária
ou livraria.
*
Matéria publicada originalmente na edição
de julho de 2004 na revista LIVRE MERCADO.
** André Marcel de Lima é jornalista especializado
em regionalidade e membro-fundador do IEME |