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| Transporte
só agora na pauta |
WALTER VENTURINI
A Região Metropolitana de São Paulo começa
a discutir a integração do transporte público.
Alguns acenos de que o maior conglomerado urbano do País
pode começar a planejar e operar o deslocamento diário
de milhões de usuários pelos 39 municípios
começaram a ser dados na Urbis 2004 (Feira e Congresso
Internacional de Cidades), realizada no mês passado na Capital.
Um desses acenos está na possibilidade de todo o sistema
de trens, ônibus, trólebus e metrô utilizar
bilhete único, proporcionando, por exemplo, que um trabalhador
ou estudante possa ir do Jardim Zaíra, em Mauá,
até a Avenida Luiz Carlos Berrini, o novo coração
administrativo da metrópole, com apenas uma passagem. O
lado triste da história é que até agora pouco
se fez para integrar o maior pólo econômico do Brasil,
conforme discutiu o painel Transporte Metropolitano.
“Existe muito pouca coisa escrita sobre a questão
regional, principalmente sobre transporte público”
— avalia Carlos Maranhão, secretário de Transportes
da Prefeitura de Goiânia, que vive experiência recente
de gestão integrada com 15 municípios vizinhos e
o governo do Estado de Goiás. A política integrada
de transporte metropolitano pode ser algo novo no Brasil, mas
já está mais do que na hora de as administrações
públicas desatarem esse nó político e gerencial.
“São Paulo precisa de um bom sistema de transporte
público para manter a posição de pólo
econômico mundial. Foi o que fez Cingapura, que se dedicou
a essa questão e conseguiu vencer a disputa com Jacarta,
na Indonésia, e Bangkok, na Tailândia, para se apresentar
como base do crescimento econômico de uma importante região
da Ásia” — lembra Rogério Belda, assessor
da Secretaria Estadual de Transportes Metropolitanos, que anunciou
os planos de todo o sistema público metropolitano ser integrado.
“Essa possibilidade está bem mais próxima,
mas ainda existem aspectos específicos a ser resolvidos.
Por outro lado, o fato de a Prefeitura de São Paulo ter
implantado um modelo eficiente vai facilitar o encontro de soluções
combinadas” — disse Belda a respeito da integração
das linhas paulistanas de ônibus que tem no Bilhete Único
a face mais conhecida.
Metropass — O governo do Estado também começa
a viabilizar sua versão integrada de bilhetagem eletrônica,
o Metropass, que deve ser implantada em 2005, unificando inicialmente
a política tarifária do Metrô da Capital e
dos trens da CPTM que trafegam pela Região Metropolitana.
Mas a aproximação dos sistemas, tanto no aspecto
operacional como no tarifário, deveria ser mais rápida
na opinião de Marcos Bicalho, secretário de Transportes
de Campinas, que também começa a integrar o transporte
público com municípios vizinhos. “Não
vejo sentido lançar dois sistemas integrados como o Bilhete
Único e o Metropass” — afirma Bicalho, que
já trabalhou nas prefeituras de Santo André e Diadema.
Para o secretário de Transportes da Prefeitura de São
Paulo, Gerson Bittencourt, não há problema em unificar
os dois sistemas, num ensaio do que seria uma operação
totalmente integrada em toda a Região Metropolitana. “Estamos
propondo a integração das nossas linhas de transportes
com o Metrô, trens e ônibus intermunicipais, mas não
aceitaremos a sobreposição de linhas. Há
hoje 364 linhas intermunicipais, que poderiam perfeitamente ser
reduzidas para algo em torno de 120 linhas troncalizadas”
— citou Bittencourt, ao se referir a outra experiência
da Prefeitura da Capital, as linhas-tronco, que compatibillizam
roteiros centrais, de grande circulação de passageiros,
associados a itinerários locais, de menor porte.
Toda a discussão feita na Urbis passa pela integração
gerencial do sistema de transporte público. Na Grande São
Paulo essa integração é praticamente inexistente
e está teoricamente sob responsabilidade do governo do
Estado. As linhas intermunicipais, de acordo com Bittencourt,
são monitoradas por apenas 15 fiscais, enquanto a Prefeitura
da Capital mantém estrutura de 500 homens para acompanhar
seu sistema. Na Região Metropolitana de Campinas, o transporte
público é discutido por um Conselho de Desenvolvimento
de caráter deliberativo. Metade do conselho é integrado
por representantes do governo do Estado e a outra parte por conselheiros
dos 19 municípios. “O transporte é a única
questão tratada no âmbito da região metropolitana,
onde os vínculos entre municípios ainda são
frágeis e existe pouca participação do Estado”
— explica Marcos Bicalho.
Em Capitais como Recife e Belo Horizonte também são
os governos estaduais que gerenciam o transporte metropolitano.
Curitiba é experiência à parte, pois a Prefeitura
da Capital paranaense é responsável pela operação
do sistema também nos municípios vizinhos. A inovação
apresentada na Urbis 2004 ficou por conta de Goiânia, onde
foi criada uma Câmara Deliberativa de Transportes em que
a Prefeitura tem metade dos representantes, o governo do Estado
fica com 25% e os outros 15 municípios com as cadeiras
restantes do órgão. A mesma proporção
participativa está contemplada na CMTC (Companhia Metropolitana
de Transportes Coletivos), responsável pela operação
do sistema. “Foi um grande avanço porque reduziu
a participação do Estado, que não dava conta
da administração do cotidiano” — avalia
o secretário goianiense Carlos Maranhão.
* Matéria publicada na edição de julho de
2004 na revista LIVRE MERCADO.
** Walter Venturini é jornalista.
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