Grande ABC expõe só ações sociais

VERA GUAZZELLI

A participação do Grande ABC na Urbis 2004 não teve contundência suficiente para enriquecer o debate sobre o enfrentamento dos problemas metropolitanos. Apesar de a região estar diretamente conectada à imprescindível abordagem de reconstrução econômica dos centros urbanos — tema principal do encontro —, nenhum representante local esteve entre os palestrantes que discutiram o assunto. A participação ficou restrita às presenças do prefeito de Diadema, José de Filippi Júnior, e do secretário de Desenvolvimento e Ação Regional de Santo André, Jeroen Klink, em painéis com enfoque mais social. Filippi foi mediador de painel sobre criminalidade e aproveitou para falar dos efeitos positivos da Lei Seca na cidade, enquanto Jeroen Klink discutiu idéias relacionadas ao melhor aproveitamento do tempo nos centros urbanos.

A própria amostragem regional na feira destinada a divulgar o trabalho das prefeituras sinalizou a fragilidade dos governos locais nos debates econômicos. Enquanto a maior parte dos municípios brasileiros e estrangeiros procurou ressaltar as qualidades urbanas e os atrativos para seduzir empreendimentos, o Grande ABC privilegiou a exposição de programas para enfrentar a exclusão social. Diadema e Santo André foram as únicas a montar estandes na Urbis. A primeira ocupou 25 metros quadrados para expor 14 programas sociais e a segunda destacou, por meio de maquete, o início das obras da Epac (Escola Parque e Ciência), no Parque Central. Os 200 metros quadrados do estande de Santo André comportaram ainda a apresentação de um grupo de chorinho.

A Agência de Desenvolvimento Econômico também marcou presença na Urbis para fortalecer o marketing regional. A entidade, porém, montou estande literalmente para inglês ver ao traduzir para a língua estrangeira um vídeo com depoimentos — positivos, é claro — sobre o trabalho da entidade. Um dos destaques foram os ainda incipientes APLs (Arranjos Produtivos Locais). Recentemente a Agência e o Sebrae firmaram convênio de R$ 1,8 milhão para estimular ações de competitividade e cooperação entre 60 micro e pequenas empresas dos setores plástico, autopeças e ferramentaria. A Agência, aliás, só foi lembrada nos debates principais quando a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, citou entidades voluntariosas do Grande ABC durante o painel Limites e Perspectivas Para o Desenvolvimento das Cidades e Regiões Metropolitanas. A região esteve representada ainda pela ONG Instituto Acqua e por grupo de cinco artesãos da Associação dos Empreendedores Populares de Santo André. Eles ocuparam a rua da Feira de Economia Solidária, espaço da Urbis reservado à comercialização de artesanato.

Duas em uma — A terceira edição da Urbis integrou a programação oficial da 11ª Unctad (sigla em inglês da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento), o que reforçou a presença internacional no evento criado pela Prefeitura de São Paulo para debater a gestão dos municípios. Durante a mesma semana em que líderes mundiais procuravam formas mais justas de comércio entre nações ricas e pobres, representantes de Paris, Montreal, Boston, Pequim, Buenos Aires, Bangcoc, Calcutá e Cidade do México, entre outros municípios, puderam trazer à luz a importante questão da gestão de áreas metropolitanas no combate à pobreza. Como a maioria dos pobres vive hoje em áreas urbanas, a urgência da questão foi sintetizada pelo embaixador do país africano Benin, Samuel Amehou. “O desenvolvimento econômico é questão de vida ou morte” — disparou. A África ainda é considerada um continente rural, mas estudos da ONU apontam que até 2030 a maioria da população também vai estar morando nas áreas urbanas.


* Matéria publicada na edição de julho de 2004 na revista LIVRE MERCADO.
** Vera Guazzelli é jornalista, uma das fundadoras e conselheira do IEME.