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| Quem,
afinal, paga a conta? |
VERA GUAZZELLI
A
constatação de que toda unanimidade é burra
esteve totalmente fora de contexto no primeiro dia da Urbis 2004,
feira internacional de cidades recém-encerrada no Expo
Center Norte, em São Paulo. O consenso geral de que o combate
à pobreza no mundo está diretamente vinculado ao
desenvolvimento econômico das áreas metropolitanas
foi insuficiente para responder à principal inquietação
sobre o tema. Apesar da diversidade dos debates e da seletividade
dos participantes, não foi possível sair do encontro
com uma fórmula que indique o caminho mais curto e sustentável
para assegurar emprego e renda e garantir alguma perspectiva de
mobilidade social a um bilhão de pobres que viverão
nas cidades até o ano 2020.
Pelo contrário. A mensagem de Abdalla Abbas, representante
da UN Habitat, braço das Nações Unidas para
Assentamentos Humanos, foi mais um indicativo de que sobram diagnósticos
e faltam ações. Depois de expor o fenômeno
da urbanização nos últimos 40 anos e afirmar
que 17 das maiores cidades do mundo terão mais de mais
de 10 milhões de moradores cada até 2010, Abdalla
Abbas passou a bola para os companheiros de Urbis. “Quais
serão as fontes de financiamento para o desenvolvimento
econômico das metrópoles? Espero que os congressistas
possam chegar a alguma conclusão” — simplificou
sem a menor cerimônia na abertura dos painéis Globalização
e o Papel das Regiões Metropolitanas e Megacidades e Desenvolvimento
Regional.
A platéia, é claro, não deixou de expressar
compreensível semblante de surpresa até que o americano
Michael Cohen, diretor do programa de graduação
em Assuntos Internacionais da New School University, de Nova York,
aproveitou o momento para formular uma das poucas propostas do
dia. Cohen não respondeu à pergunta de Abdalla Abbas,
mas aconselhou os governos municipais a investir dinheiro público
no desenvolvimento econômico para tirar as cidades da crise,
exatamente a receita do economista inglês John Maynard Keynes
que ajudou na recuperação dos Estados Unidos após
a grande depressão de 1929. “O gasto público
precisa ser direcionado à manutenção do nível
de emprego de uma localidade” — foi enfático
Michael Cohen.
O norte-americano instigou os chefes do Executivo a colocarem
o orçamento das cidades mais a serviço da recuperação
do que da austeridade fiscal e dos programas sociais. No entanto,
ele não entrou na complicada seara das contas públicas
composta pelo alto grau de endividamento e pela exigência
legal de aplicação de percentuais fixos em setores
como educação e saúde. Essas variáveis
limitam a capacidade de investimento da maioria dos municípios
brasileiros a minguados 5% a 7% do orçamento. Também
sequer recebeu alguma pergunta sobre a viabilidade da proposta
neokeynesiana em tempos de PPPs, as Parcerias Público-Privadas
que os governos tentam formatar para colocar dinheiro da iniciativa
privada justamente onde Michael Cohen aconselha a investir cada
vez mais verba pública.
De qualquer forma, os prefeitos especializados em utilizar o endividamento
municipal como justificativa para a paralisia das administrações
aplaudiram a idéia. A alegria, porém, durou até
que a falta de conexão das prefeituras com setores produtivos
foi apontada pelo mesmo norte-americano como um dos pontos que
mais comprometem as economias locais. Mais uma vez Cohen cutucou
os prefeitos ao alegar que o desdobramento dessa negligência
se reflete principalmente na ausência de leis que orientem
a produção e desburocratizem a economia formal.
O Brasil está entre os seis países do mundo mais
complicados para se abrir uma empresa e parte desse calvário
é enfrentado justamente nos balcões das prefeituras,
onde um simples alvará de funcionamento demora até
90 dias para ser expedido. A deficiência de infra-estrutura
também foi colocada nesse contexto. “Serviços
básicos precários aumentam em até 10% o custo
das empresas” — garantiu a conselheira regional para
Moradia Urbana do Banco Mundial, Mila Freire.
Mais pobreza — Estudos do Banco Mundial apontam que as áreas
urbanas abrigam 30% da pobreza e que esse número vai chegar
a 50% dentro de 20 anos se não forem estruturadas políticas
efetivas para inserir as metrópoles no desenvolvimento
global. A estimativa é uma ducha de água fria no
desafio assumido pela Organização das Nações
Unidas de reduzir a pobreza pela metade até o final do
milênio, mas está subsidiada no fator que impulsiona
a migração do campo para as grandes cidades. Tanto
nas nações ricas quanto pobres as megacidades e
seu entorno concentram a produção de riquezas, o
que transforma esses locais em pólo de atração
natural para moradores de toda parte.
Se as regiões metropolitanas de Nova York, Los Angeles,
Filadélfia, Boston e Chicago, todas nos Estados Unidos,
fossem um único país, seriam a quarta economia do
planeta. Juntas, essas megacidades geram 45% de todos os empregos
americanos. A pujança numérica, e apenas numérica,
não é muito diferente de São Paulo, metrópole
que responde por 15% do PIB brasileiro. Xangai, na China, contribui
com 12% da riqueza do país e em Bangcoc, na Tailândia,
o percentual chega a 40%. O problema é que a inexistência
de políticas de gestão metropolitana só contribui
para aumentar os cinturões de pobreza dos países
e continentes de Terceiro Mundo.
Há ainda outro agravante. A volatilidade dos investimentos
privados, regida principalmente pela ineficiência dos governos
centrais, torna essas áreas cada vez mais vulneráveis.
“O fluxo de capitais tem se deslocado a uma velocidade de
30% ao ano na última década, o que transforma rapidamente
as economias principalmente nos países emergentes”
— alerta Mila Freire, do Banco Mundial. “As equipes
econômicas têm de compreender que as cidades são
altamente sensíveis às políticas macro e
precisam avaliar melhor o impacto das decisões na vida
da população local. A desindustrialização
sempre leva embora os melhores empregos e deixa um rastro de economia
informal no lugar” — emenda sem retoques Michael Cohen.
As duas declarações colocam na berlinda governos
que ainda não conseguiram conectar os gabinetes do poder
central ao desenvolvimento local e remetem à situação
vivida pelo Grande ABC, especialmente nos oito anos do governo
Fernando Henrique Cardoso. A abertura econômica sem contrapartidas
do governo FHC atingiu em cheio a indústria automotiva,
o que teve reflexos desastrosos na economia da região altamente
dependente do setor. O Grande ABC perdeu 39% de Valor Adicionado
— o principal indicador de riqueza industrial — e
entre outras consequências assistiu as autopeças
locais serem desnacionalizadas até a medula. O preço
dessa fatura está expresso na perda de 100 mil empregos
industriais nos anos 90 e no índice de 22% de desemprego
atual.
Mesmo que a resposta à pergunta inicial feita pelo representante
da UN Habitat, Abdalla Abbas, fique para uma próxima vez,
a exposição dos convidados internacionais serviu
de consolo para quem imagina que o caos metropolitano é
privilégio de quem vive na Grande São Paulo ou ao
redor das principais Capitais brasileiras. A secretária
de Desenvolvimento Urbano e Habitação da Cidade
do México, Laura Castillo, afirmou que somente nos últimos
três anos foi formatado programa para tentar ordenar o território
da cidade de 18 milhões de habitantes, a mais populosa
do planeta.
Em Calcutá, na Índia, o grande desafio é
direcionar recursos à construção de redes
de esgoto em pleno século XXI. Calcutá hospeda 11
milhões de moradores, 60% dos quais vivem abaixo da linha
da pobreza. Já no Canadá, o planejamento urbano
e políticas como as BIAs (Business Improvement Areas),
formatadas para desenvolver o comércio de rua por meio
do aumento de impostos durante determinado período, são
referências para o mundo. Diante de tanta diversidade, o
subsecretário do Ministério Provincial dos Negócios
Municipais do Canadá, Bryant McDonough, concluiu que não
há como estabelecer modelo único de gestão
metropolitana para o mundo.
Apesar da obviedade, a declaração do canadense acabou
representada por cena involuntária protagonizada pelo vice-presidente
do Comitê Permanente do Povo de Pequim, Fan Yuanmou. Convidado
a falar sobre o crescimento da China, Fan discursou em mandarim
e precisou da ajuda de um intérprete que pronunciava muitas
palavras em português utilizando a fonética e entonação
da língua inglesa. Como havia vários congressistas
de outros países, foi necessário traduzir o português
quase incompreensível para o inglês e o espanhol.
Formou-se, então, uma torre de babel momentânea capaz
de simbolizar a dificuldade de os homens públicos encontrarem
o caminho de integração imprescindível para
gerir as problemáticas áreas metropolitanas.
* Matéria publicada na edição de julho de
2004 na revista LIVRE MERCADO.
** Vera Guazzelli é jornalista, uma das fundadoras e conselheira
do IEME
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