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| Santo
André no eixo global |
ANDRÉ MARCEL DE LIMA Enquanto
a Capital paulista fervilhava no mês passado com a Urbis
e a Unctad, Santo André também marcava presença
no calendário internacional com promoção
de debate acalorado sobre complementação produtiva
entre países do Mercosul no âmbito da Rede Mercocidades.
O saldo do evento sediado na Rhodia pode ser sintetizado em duas
constatações tão conflitantes quanto verdadeiras:
mais de uma década após o lançamento, o Mercosul
não passa de um arremedo da integração necessária
para vencer os desafios da exclusão social num mundo cada
vez mais esquadrinhado em blocos geográficos e comerciais.
A outra evidência: sem a consolidação de relações
produtivas que ultrapassem os interesses comerciais de curta duração,
os principais centros urbanos de Brasil, Argentina, Paraguai e
Uruguai dificilmente deixarão a condição
periférica na órbita de players mundiais mais robustos
e desenvolvidos. A complementação produtiva é
um conceito sofisticado e de viabilidade reconhecidamente complexa.
Trata-se basicamente de estimular a mercosulização
de cadeias industriais para que empregos, renda e impostos inerentes
a cada etapa fiquem enraizados nos países, numa espécie
de contra-ofensiva à globalização ceifadora
de milhares de empregos na América Latina durante os anos
90.
Além disso, a idéia de complementação
produtiva pressupõe a reorganização espacial
de cadeias completas, com a transferência de determinadas
etapas de um país para outro de acordo com a lógica
da competitividade regional, bem como o desenvolvimento de tecnologias
locais com vistas ao desejado reequilíbrio de forças
entre os países subdesenvolvidos do sul e os desenvolvidos
do hemisfério norte. “Os institutos de tecnologia
podem atuar em conjunto no desenvolvimento de tecnologias mercosulinas”
— sugeriu Michel Alabi, representante da Câmara de
Comércio Brasil-Árabe.
O amálgama da desejada revolução subcontinental
seria o forte sentimento de coletividade entre os povos da região.
“O conceito chave do trabalho é a identidade regional,
os valores comuns e o sentido de pertencer à mesma comunidade”
— idealizou Marcela Petrantonio, representante da Universidade
de Mar del Plata.
Quase impossível — São muitos os entraves
de ordem prática. A começar pelo fato observado
por Gustavo Bittencourt, professor da Universidade da República
do Uruguai, de as principais cadeias produtivas serem dominadas
por gigantes multinacionais majoritariamente alheias às
comunidades nas quais estão inseridas e marcadas por baixo
grau de repasse de tecnologias a fornecedores de pequeno e médio
portes.
Um caso clássico não citado pelo expositor é
o da mortalidade ou aquisição em massa pelo capital
internacional de pequenas e médias autopeças familiares
do Grande ABC, que não suportaram o assédio de competidores
transnacionais após a abertura das fronteiras no panorama
do global-sourcing (suprimento global). A complementação
produtiva entre montadoras e sistemistas globais trouxe mais danos
do que frutos socioeconômicos à região, porque
foi seguida de compactação radical, responsável
em grande medida pelo saldo negativo superior a 100 mil empregos
industriais só na última década.
A lacuna tecnológica é outro calcanhar-de-aquiles
na efetivação do plano idealizado pelos agentes
reunidos no auditório da Rhodia. Como foi brilhantemente
observado pelo brasilianista norte-americano Marshall Eakin em
recente entrevista à Folha de São Paulo, a industrialização
do Brasil não foi acompanhada pela evolução
tecnológica que marcou a adaptação gradual
das sociedades dos países desenvolvidos. O mercado brasileiro
fechado congelou o instinto de inovação, que foi
rompido a fórceps — e por agentes externos —
pela tardia abertura econômica do final de século.
A análise cai como luva aos vizinhos do Brasil igualmente
afetados por décadas de enclausuramento e ganha contornos
concretos na constatação de Michel Alabi, representante
da Câmara Brasil-Árabe. “A força dos
países do Mercosul perante o mundo está concentrada
no agronegócio e na pecuária. O grande desafio é
estimular exportações de produtos de maior valor
agregado” — recomendou.
O professor uruguaio Gustavo Bittencourt ofereceu argumento contrário
para atestar a capacidade de empresas genuinamente mercosulinas
de disputar mercados altamente sofisticados em pé de igualdade
com concorrentes internacionais. “As universidades uruguaias
são muito fortes no setor farmacêutico. Por isso
temos empresas nacionais que vendem medicamentos a preços
muito mais baixos que os fabricados por conglomerados multinacionais”
— afirmou Bittencourt. Ele deixou claro, entretanto, que
o desejado entrosamento industrial intra-continental está
em fase anterior à intra-uterina. “Na política
industrial brasileira simplesmente não consta a palavra
Mercosul” — observou.
Vista sob perspectiva histórica, a complementação
de cadeias industriais entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai
torna-se ainda mais desafiadora, já que nem o estágio
inicial da boa vizinhança comercial foi executado a contento.
“O que se observa na experiência de 13 anos desde
que o Mercosul foi lançado é um ideal de cooperação
que não se completa. Medidas governamentais tomadas unilateralmente
e sem consulta aos demais países atrapalham demais o processo
de integração” — ressaltou Jefferson
Conceição, economista do Dieese (Departamento Intersindical
de Estudos e Estatísticas Socioeconômicas), ligado
à CUT (Central Única dos Trabalhadores).
Entre as medidas unilaterais, Jefferson cita a adoção
do câmbio flutuante pelo governo brasileiro em janeiro de
1999 e o regime automotivo argentino desfavorável ao Brasil.
Ele considera que a leva de governantes das últimas eleições
presidenciais de Brasil, Argentina e Paraguai representou novo
sopro de esperança aos ideais integracionistas, mas ainda
é necessário converter idéias em realidade.
“A retórica dos governos mudou nitidamente com uma
espécie de relançamento do Mercosul, mas por enquanto
não saímos disso — da retórica —,
com poucos avanços concretos em termos de constituição
efetiva de um novo estágio” — observa.
Sobre a conceituação da professora argentina Marcela
Petrantonio, de que o desenvolvimento conjunto precisa contar
com plataforma de valores comuns e senso de pertencimento a uma
comunidade continental, Jefferson Conceição é
agudamente realista. “O Mercosul não faz parte do
cotidiano dos povos dos países envolvidos, especialmente
no caso brasileiro. Foi uma integração marcadamente
de caráter comercial e conduzida em grande parte por empresas
multinacionais” — sustentou.
A Rede Mercocidades (ou Mercociudades) envolve universidades,
sindicatos, associações empresariais e cidades brasileiras,
argentinas, uruguaias, paraguaias, colombianas e chilenas. A unidade
Desenvolvimento Econômico Local coordenada por Santo André
promoveu a discussão e o lançamento da segunda edição
da revista Diálogo Econômico Local, com mais de 50
páginas dedicadas ao assunto.
Condomínios e convenções —
Posteriormente ao evento, Santo André anunciou duas iniciativas
que podem contribuir concretamente para gerar empregos e recursos:
o lançamento de um condomínio industrial com oito
módulos de mil metros quadrados, com conclusão prevista
para nove meses, e a intenção de transformar a Garagem
Municipal em um centro para feiras e convenções.
Os dois projetos na Avenida dos Estados — coluna vertebral
do Eixo Tamanduatehy — ainda dependem do interesse de investidores
para se tornarem realidade num futuro próximo.
* Matéria publicada na edição
de julho de 2004 na revista LIVRE MERCADO.
** André Marcel de Lima é jornalista especializado
em regionalidade e membro-fundador do IEME.
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