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| Um
Big Brother contra o crime* |
VERA GUAZZELLI**
O operador clica o mouse e estranha o comportamento do rapaz parado
na esquina perto da praia, faz a aproximação da
imagem, confirma a suspeita e aciona a polícia. É
menos um carro roubado e outro ponto positivo nas estatísticas
que apontam a drástica diminuição dos índices
de criminalidade na Praia Grande nos últimos 12 meses.
O quadro seria perfeito para roteiro de filme policial americano,
mas fora da ficção recheia com números insuspeitos
o cotidiano de uma das cidades mais visitadas do Brasil. Entre
janeiro e dezembro de 2003, Praia Grande derrubou em 81% os homicídios,
em 65,8% os roubos diversos e em 67,3% os roubos e furtos de veículos
por grupo de 100 mil moradores em relação ao ano
anterior.
Os
índices foram ranqueados pelo IEME (Instituto de Estudos
Metropolitanos) a partir de dados da Secretaria de Segurança
Pública e coroam a conjugação de três
fatores fortalecidos pela integração entre Prefeitura
e as Polícias Civil e Militar. Depois de amargar o último
lugar em 2002 no Índice de Criminalidade apurado pelo IEME
entre os 55 municípios mais importantes do Estado, Praia
Grande reagiu e chegou à 8ª colocação
em 2003 porque incluiu tecnologia, inteligência e vontade
política ao arsenal de ações contra a marginalidade.
A
virada de Praia Grande no jogo contra o crime começou efetivamente
há três anos, quando a Prefeitura decidiu investir
R$ 5,5 milhões de recursos próprios para construir
uma estrada virtual com 200 quilômetros -- distância
de ida e volta de São Paulo a Campinas -- de cabos para
fibras óticas capazes de transmitir informações
em tempo real. Essa obra de infra-estrutura transformou o Município
numa espécie de Big Brother gigante interligado a uma central
de vídeo-monitoramento que recebe imagens de 348 câmeras
espalhadas pela cidade -- 300 estão em escolas e postos
de saúde e 48 em pontos nevrálgicos das vias públicas
com histórico de ocorrências criminais.
"Embora
a segurança pública seja atribuição
do governo do Estado, arregaçamos as mangas pois era preciso
reverter a situação que só trazia reflexos
negativos para a economia local" -- é enfático
o prefeito Alberto Mourão, do PSDB. Mourão dirige
a cidade pela segunda vez. Foi prefeito na temporada 1992-1996,
quando a reeleição ainda não havia sido aprovada,
e é o principal catalisador do atual processo que se auto-alimenta
da interatividade. Além do vídeo-monitoramento,
a Prefeitura acoplou vários setores da administração
pública às Polícias Civil e Militar e aos
órgãos de representação popular como
os conselhos de segurança e tutelar em grupo denominado
Força-Tarefa. Esse batalhão vai junto para as ruas
e cada participante utiliza o respectivo poder de fiscalização
ou de polícia nas blitzes e averiguações.
Se a polícia descobre que determinado bar funciona como
ponta de venda de drogas mas não tem provas para prender
os suspeitos, os fiscais da Prefeitura ou da Vigilância
Sanitária podem lacrar o estabelecimento caso existam irregularidades
administrativas ou problemas com a higiene.
Os
integrantes da Força-Tarefa se reúnem uma vez por
mês para analisar os trabalhos e definir as próximas
ações. A periodicidade é fundamental à
manutenção da estratégia porque deixa pouca
flexibilidade para a migração dos criminosos. A
Prefeitura garante que desde o início das operações
de vídeo-monitoramento e da Força-Tarefa o número
de ocorrências diminuiu em todos os pontos rastreados e
não houve registros em novas áreas. "É
uma convergência de esforços que elimina a burocracia
entre os órgãos e agiliza as ações"
-- comemora o major Alaôr José Gasparotto, do 45º
Batalhão da PM de Praia Grande. "Essa convergência
vai além da ação policial porque funciona
também como medida preventiva" -- reforça o
delegado responsável pelos 2º e 3º Distritos
Policiais, Carlos Battista. "A integração é
o grande salto" -- engrossa o coro o secretário de
Planejamento Estratégico, Alberto Rodrigues.
A
integração entre polícias e Prefeitura, no
entanto, não é pioneira e já deu resultados
em cidades como Mauá e Diadema, que também conseguiram
diminuir os índices de criminalidade com a união
de forças. A diferença é que Praia Grande
não conta com a chamada lei fecha-bar, um dos principais
aliados das cidades do Grande ABC na inglória guerra contra
a bandidagem. Na categoria de cidade turística, ficaria
praticamente inviável à Praia Grande fixar o horário
das 23h para fechamento dos estabelecimentos que vendem bebidas
alcoólicas. A vida noturna dos 215 mil moradores impulsionada
pelos 600 mil visitantes que lotam a cidade no verão e
em finais de semana é imprescindível para a economia
local.
Por
isso, Praia Grande tem se valido daquilo que o secretário
Alberto Rodrigues atribui à perspicácia e inteligência
dos administradores que estão à frente dos órgãos
públicos. Na visão do executivo público,
não basta apenas ter tecnologia e disposição,
já que é preciso tirar o máximo proveito
da conjugação desses dois fatores. De nada adiantaria
dispor de central de monitoramento de Primeiro Mundo, cuja imagem
de uma invasão escolar se sobrepõe imediatamente
à tela, se os operadores não forem treinados para
ser ágeis na tomada de decisões e acionamento dos
órgãos competentes. Além dos funcionários
da Prefeitura, há sempre um policial civil na central de
monitoramento para auxiliar na vigilância digital.
Também
pouco resolveria acompanhar as cenas em tempo real se as imagens
não pudessem ser guardadas em arquivo para servirem de
prova nas investigações. Recentemente um traficante
foi preso em flagrante porque a câmera mostrou o local exato
em que escondeu a droga, minutos antes da batida policial. "As
imagens gravadas agilizam a investigação porque
funcionam como ferramenta de prova inquestionável"
-- entende o delegado Carlos Battista.
Ainda
dentro da lógica de tirar o máximo proveito dos
recursos tecnológicos disponíveis, a Prefeitura
produz mapeamento mensal das ocorrências criminais. Como
todo o território do Município está interligado
por fibra ótica, as informações transitam
em tempo real entre a administração pública
e as polícias e servem para subsidiar o trabalho que relaciona
as ocorrências registradas em cada rua da cidade. O estudo
é o principal instrumento de que a Prefeitura dispõe
para constatar erros e acertos do trabalho e serve também
para subsidiar as decisões do grupo que compõe a
Força-Tarefa, principalmente a de trocar ou incluir novos
pontos de vigilância eletrônica.
A
instalação de 48 câmeras nas ruas da Praia
Grande foi determinada pelo mapeamento da criminalidade. Como
os bandidos migram rapidamente diante da repressão, a Prefeitura
tomou o cuidado de deixar pontos a cada 50 metros da estrada de
fibra ótica preparados para plugar novas câmeras.
Assim, qualquer mudança pode ser feita numa operação
simples que não demanda mais que uma hora de serviço.
As câmeras instaladas na Praia Grande têm rotação
de 360 graus, aproximam em até 220 vezes a imagem e estão
a uma altura que dificulta atos de vandalismo. O secretário
Alberto Rodrigues garante que ainda não foi registrado
nenhum caso de destruição dos equipamentos.
A
Prefeitura pretende ainda qualificar as informações
sobre o crime. A próxima etapa desse trabalho de inteligência
consiste em traçar o perfil das vítimas de homicídio
e comprovar por meio da estatística o que já se
sabe empiricamente: a maioria tem antecedentes criminais. A intenção
é tentar dimensionar a extensão do crime para adotar
medidas mais efetivas nos ambientes propícios à
proliferação de marginais. "Não adianta
só prender o ladrão de alumínio. É
preciso também ir atrás do receptor e dos desmanches"
-- exemplifica o major Alaôr Gasparotto, que já tem
um cadastro com 1.121 nomes de adolescentes que cometeram infrações
entre 2002 e 2003. Entre as principais informações
em fase de tabulação constam a quantidade de reincidências
e a procedência desses menores. "Se houver muitos infratores
de um único bairro, é sinal de que é preciso
desenvolver algum trabalho social e preventivo nessa comunidade"
-- explica Gasparotto.
A
tecnologia que Praia Grande tem utilizado para diminuir os índices
de criminalidade vai além do fator segurança. O
investimento é mais uma etapa do trabalho iniciado na primeira
gestão de Alberto Mourão para mudar totalmente a
imagem da cidade conhecida até então pela sujeira
das praias e frequentada basicamente pelo turista de um dia --
o conhecido farofeiro. As transformações começaram
pela urbanização dos 22,5 quilômetros de orla,
obra que acaba de ser concluída e consumiu R$ 30 milhões,
além da construção de dois emissários
submarinos que tiraram o esgoto de mais da metade das praias.
O terceiro emissário já foi prometido e começa
a ser construído ainda este ano. "São mudanças
que trazem desenvolvimento porque os investidores não procuram
apenas incentivos fiscais. Eles querem sobretudo infra-estrutura
e qualidade de vida" -- enfatiza o prefeito Alberto Mourão.
Com
picos de 1,3 milhão de visitantes na alta temporada, Praia
Grande sofre do mesmo mal de outras cidades instaladas em regiões
metropolitanas onde a demanda por serviços e investimentos
públicos é sempre maior que os recursos disponíveis
nos caixas das prefeituras. Por isso, a decisão de iniciar
a transformação pela orla da praia, para depois
chegar às áreas periféricas, tem se mostrado
acertada.
A
orla urbanizada atraiu o turista qualificado e trouxe de volta
os proprietários de casas de veraneio que haviam deixado
de frequentar a cidade em função da pouca infra-estrutura.
Em 1993, a inadimplência com IPTU (Imposto Territorial e
Predial Urbano) ultrapassava 70%. Hoje caiu para 15%, o que possibilitou
acréscimo de arrecadação sem que fosse necessário
elevar a alíquota do imposto. As mudanças também
impulsionaram a construção civil, um dos principais
empregadores da cidade, e atraíram grandes redes de material
de construção.
Sem
atividade industrial significativa que gere ICMS, o IPTU e o ISS,
a exemplo de outras cidades litorâneas, são os principais
componentes da receita do Município. Os números
utilizados pelo IEME (Instituto de Estudos Metropolitanos) para
composição de seus índices econômicos
apontam que Praia Grande arrecadou R$ 61 milhões com IPTU
em 2002. O valor é três vezes superior aos R$ 21
milhões recolhidos por Mauá, uma das cidades do
Grande ABC que também conseguiu reduzir a criminalidade.
Já o orçamento de Praia Grande para 2004 é
de R$ 281 milhões, apenas R$ 24 milhões a menos
que a previsão da mesma Mauá, cidade com quase o
dobro da população e uma cadeia petro-plástica
que responde por 60% da arrecadação do ICMS.
Os
avanços de Praia Grande também podem ser creditados
a projeto de continuidade administrativa meticulosamente articulado
pelo grupo político do atual prefeito. Alberto Mourão
chegou pela primeira vez à Prefeitura em 1993, elegeu o
sucessor Ricardo Yamauti para a gestão 1996/2000, voltou
à Prefeitura e agora concorre à reeleição
para consolidar um trabalho que ele mesmo admite ter sido formatado
para 16 anos. "Quando o compromisso é com a cidade,
independente dos nomes, o risco de retrocesso é sempre
menor. Se a prioridade for para o coletivo, fica difícil
andar para trás" -- analisa o prefeito, que também
acredita na força da regionalidade e propõe a criação
de uma Força-Tarefa entre as nove cidades da Baixada Santista
tendo como referência o trabalho desenvolvido em Praia Grande.
*
Matéria publicada originalmente na revista LIVRE MERCADO,
edição de maio de 2004.
** Vera Guazzelli é jornalista e uma das fundadoras do
IEME.
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