São Paulo perdeu 34,7 mil indústrias em cinco anos

MARCELO MOREIRA,
do jornal Gazeta Mercantil


São Paulo, 8 de Junho de 2004 - Desapareceram do mapa de São Paulo nos últimos cinco anos - entre dezembro de 1998 e dezembro de 2003 - nada menos que 34.787 indústrias de variados tamanhos, ou 19,44% do efetivo. Este é o tamanho do buraco de arrecadação e de produtividade em terras paulistas, fato verificado principalmente na Grande São Paulo desde os anos 90. Os dados foram divulgados pelo Instituto de Estudos Metropolitanos, (Ieme), com base em dados do Ministério da Fazenda. O Ieme mede, entre outros vetores, a competitividade das 75 principais cidades, com base em 15 variáveis criminais, econômicas e financeiras.

A região mais castigada foi a do ABC, que perdeu 1.665 indústrias nos 60 meses encerrados em dezembro de 2003. "Tínhamos 9.489 empresas do setor de produção em 1998. Sobraram 7.824, conforme o CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica) - uma redução de 17,5%", afirma Daniel Lima, representante do instituto.

A análise preparada por Daniel Lima e Marcos Pazzini, coordenadores de pesquisa, mostra que o conjunto formado pelas maiores áreas industriais do estado - os sete municípios do ABC, São Paulo, Osasco, Guarulhos, Campinas, Sorocaba e São José dos Campos - perdeu 21.336 empresas industriais do total eliminado de 34.787 do estado entre 1998 e 2003, ou seja, 61,33% do universo paulista.

O restante do estado viu desaparecer 13.451 indústrias. De 178.914 indústrias que constavam no Ministério da Fazenda em dezembro de 1998, restaram 144.127 no Estado de São Paulo cinco anos depois. Uma quebra de 19,44%.

O caso paulista de mortandade industrial, quando confrontado com os números de todo o território nacional, é claramente um definidor de problemas de São Paulo. Em 1998 o Brasil contava com 558.757 indústrias e a participação do Estado de São Paulo era de 32,02%. Em dezembro de 2003, o País passou a registrar legalmente 584.799 indústrias e a participação relativa de São Paulo foi reduzida a 24,64%. Com a inclusão dos números negativos dos paulistas, a indústria nacional avançou apenas 4,66% em unidades. Retirando-se os paulistas, cuja queda de 19,44% compromete os números gerais, o ganho do País atinge 16%. São Paulo de fora, o Brasil contava com 379.843 unidades industriais em dezembro de 1998, contra 440.672 em dezembro passado. Ou seja: enquanto os paulistas perderam 34.787 indústrias, o restante do Brasil ganhou outras 60.829.

A situação do ABC não é pior que a média do estado, porque perdeu 17,54% de unidades, contra 24,45% da Capital, 18,76% de Campinas e 19,42% de Sorocaba, os municípios que mais ultrapassaram o desempenho da região. O problema é que os sete municípios do ABC tiveram perdas que se sobrepuseram-se às demais, conforme o Ieme, sobre o valor adicionado do ICMS, que é a medida de transformação do produto industrial. Boa parte dos demais municípios conseguiu elevar a participação relativa no valor adicionado, ou perderam menos que o ABC.

De acordo com Lima, esse quadro é conseqüência da desenfreada abertura econômica promovida pelos governos Fernando Collor (1990-1992) e Itamar Franco (1992-1994), e intensificada de forma predatória em relação à indústria nacional nos dois governos Fernando Henrique Cardoso (1994-2002). Por conta disso, a globalização da economia teve um efeito devastador nas sete cidades do ABC - foram mais 100 mil empregos com carreira assinada ceifados nos anos 90, sem falar nos quase 200 mil empregos industriais eliminados.

"Os desempregados se tornaram empreendedores. A maioria, pelo baixo custo de virar patrão, preferiu o setor de comércio e serviços. O número dos que aderiram ao negócio de pequeno porte industrial foi expressivo. Num primeiro instante, inflaram estatísticas de empreendedorismo. Na seqüência, com a desvalorização do real, promovida por FHC no começo de 1999, os pequenos negócios industriais foram engolfados pelos efeitos da competitividade que prevaleceu e prevalece entre os grandes conglomerados industriais", diz Daniel Lima. Por conta desses fatores, a guerra fiscal também ajudou, e muito, na definição do número absoluto de empresas em dezembro de 2003. Foi aí que a política industrial agressiva de estados como Bahia, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul superaram as iniciativas paulistas de atrair e manter investimentos.