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| Melhor
caminho é Grande ABC legal* |
VERA GUAZZELLI**
O
assunto metropolização está mais uma vez
nas páginas da revista LIVRE MERCADO. Quem fala sobre o
tema de vital importância para o Grande ABC, mas que ainda
é tratado sob o olhar míope do individualismo e
da pontualidade pela maioria dos políticos, é o
assessor de Planejamento Regional da Secretaria de Estado de Economia
e Planejamento, Mauricio Hoffmann. O mesmo especialista que em
2000 levantou a possibilidade de o Grande ABC tornar-se espécie
de submetrópole legalizada da Região Metropolitana
de São Paulo garante que as discussões vão
se intensificar a partir do próximo ano. Em 2004, a urgente
reorganização da Região Metropolitana de
São Paulo deve finalmente chegar à pauta dos principais
gabinetes públicos.
A
novidade sinaliza um amadurecimento do governo estadual em relação
às questões que envolvem regionalidade e metropolização
e pode levar à formalização jurídico-institucional
do Grande ABC. Esse, aliás, é o caminho que Mauricio
Hoffmann considera mais eficaz para estabelecer diretrizes de
longo prazo e, principalmente, canalizar o voluntarismo das instâncias
regionais para mecanismos efetivos de gestão. A Região
Metropolitana da Baixada Santista ganhou programa específico
no Plano Plurianual 2004/2007 -- principal instrumento de planejamento
do governo estadual -- justamente por estar legalmente constituída
e com todos os mecanismos institucionais exigidos pela legislação,
ao contrário da RM de Campinas.
Comedido
como de costume, Mauricio Hoffmann falou também da importância
de o PPA 2004/2007 ter lançado um olhar estratégico
sobre a organização territorial do Estado, em vez
de privilegiar apenas políticas públicas setoriais.
Sobre esse aspecto, lembrou a importância da representação
política qualificada diante da escassez de recursos. O
recado foi claro: o encaminhamento das reivindicações
regionais tem de ser feito com perspectiva de solidariedade política
e, principalmente, com competência.
LM
-- O Plano Plurianual 2004/2007 -- principal instrumento
de planejamento do governo estadual -- contempla o desenvolvimento
regional com quatro programas específicos, dois para as
regiões metropolitanas legalmente constituídas e
mais dois para outras áreas do Estado. O fato sinaliza
uma mudança de postura em relação às
questões que envolvem regionalidade e metropolização?
Mauricio Hoffmann -- Não se trata de mudança de
postura, pois essas questões há muito fazem parte
das preocupações do governo do Estado. Com o amadurecimento
do processo de planejamento regional, com base na institucionalização
de órgãos de gestão e planejamento e diretrizes
estratégicas do governo, as sinalizações
das ações ganharam maior consistência, contorno
e visibilidade. O governo Alckmin concentrou na Secretaria de
Economia e Planejamento todos os instrumentos de gestão
metropolitana e busca com isso racionalizar e potencializar as
ações de planejamento urbano-regional.
LM
-- A recente criação da Coordenadoria de Planejamento
Metropolitano reflete o aumento da preocupação do
Estado com as áreas metropolitanas? Os papéis da
Coordenadoria e da Emplasa (Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano)
serão complementares?
Mauricio Hoffmann -- A Coordenadoria de Planejamento
Metropolitano está funcionalmente subordinada ao gabinete
do secretário de Planejamento e oficiosamente à
Assessoria de Planejamento Regional. A preocupação
maior, no momento, está na estruturação física,
de modo a tornar a CPM operacionalmente apta a exercer o efetivo
papel de coordenar os assuntos de caráter metropolitano.
A CPM e a Emplasa atuarão de forma interativa, mas com
funções distintas. A CPM deverá manter atualizadas
as preocupações da administração direta
com a problemática metropolitana, dando maior dinamismo
ao relacionamento com os organismos que tratam do assunto. Já
a Emplasa é o braço operacional da Secretaria de
Economia e Planejamento, responsável pela formulação,
acompanhamento e avaliação da gestão metropolitana.
Naturalmente, todas essas ações refletem o aumento
da preocupação do Estado com as áreas metropolitanas,
tanto no que se refere à organização territorial
quanto à potencialização da economia regional
para melhorar a estruturação das políticas
públicas.
LM
-- Dos quatro programas específicos do Plano Plurianual,
dois se referem às áreas metropolitanas legalmente
constituídas e um é específico para a Baixada
Santista. Quais os critérios utilizados para essa divisão?
Mauricio Hoffmann -- A Região Metropolitana
da Baixada Santista já tem todos os mecanismos institucionais
-- Conselho de Desenvolvimento, Agência de Desenvolvimento
e Fundo Metropolitano -- em plena operação. A quantidade
menor de municípios participantes facilitou a operacionalização
e permitiu a estruturação do planejamento estratégico.
A Região Metropolitana de Campinas, embora já constituída,
só recentemente teve o Conselho de Desenvolvimento efetivamente
instalado. Contudo, os demais mecanismos institucionais estão
em fase de instalação e estruturação.
Acredito que esse processo deva amadurecer rapidamente, dinamizando
a implementação do planejamento estratégico.
Com isso, como a Baixada Santista, a Região Metropolitana
de Campinas deverá ser contemplada com programa específico
por ocasião da elaboração do próximo
projeto de lei de diretrizes orçamentárias. Já
a Grande São Paulo, cuja constituição é
mais antiga e ainda está sob a égide de lei federal,
necessita de reorganização e atualização
da estrutura institucional para adquirir modelo semelhante ao
das regiões metropolitanas da Baixada Santista e de Campinas.
LM
-- Essa reorganização privilegiaria apenas questões
territoriais ou o enfoque será mais estratégico?
Mauricio Hoffmann -- Sob o ponto de vista legal,
a reorganização da RMSP busca atender aos preceitos
constitucionais vigentes e ao que preconiza a lei complementar
760, que trata da organização territorial do Estado.
Sob o aspecto estratégico, a reorganização
pretende racionalizar a ação do Estado e dos municípios
no espaço territorial metropolitano. Nesse contexto, pela
importância da Região Metropolitana de São
Paulo e intensidade dos problemas presentes, foi contemplada no
Plano Plurianual com ações nos mais variados setores
de governo. Aliás, há um capítulo que aprofunda
as análises sobre a metrópole e sinaliza o esforço
para romper a visão setorial que orienta as políticas
públicas.
LM
-- O fato de a Baixada Santista ter programa específico
significa mais garantias de receber recursos?
Mauricio Hoffmann -- Os recursos sempre dependerão
das prioridades de governo e, naturalmente, da disponibilidade
orçamentária. O fato de a Baixada Santista ter programa
específico significa que a região tem planejamento
estratégico mais avançado, o que sem dúvida
conta pontos a favor. No fundo, a regra básica será
sempre a de considerar a prioridade regional associada às
prioridades do governo do Estado, considerando-se as restrições
orçamentárias. Vale lembrar, porém, que independente
de terem sido agrupadas em programa específico, as ações
de governo no espaço metropolitano da Grande São
Paulo e de Campinas estão garantidas em outros programas.
LM
– As audiências públicas foram um
dos mecanismos utilizados para a elaboração do PPA.
Até que ponto as demandas da sociedade civil influíram
no Plano Plurianual do Estado e como o senhor avalia o grau de
participação do Grande ABC nesses encontros?
Mauricio Hoffmann -- O que o governo espera com
as audiências é que a sociedade, conhecedora das
suas necessidades, possa expressar carências e principalmente
a forma de entender os problemas regionais. Deseja-se também
colher subsídios para estruturar as ações
estratégicas em interação com o conhecimento
local-regional. Em outras palavras, pretende-se que o Plano Plurianual
conte com o máximo de participação da comunidade
e seja significativamente caracterizado como um planejamento de
baixo para cima. O Grande ABC, por possuir organismos como a Câmara
Regional e o Consórcio de Prefeitos, pode naturalmente
utilizar outros canais que não apenas a audiência
pública. É usual receber solicitações
estruturadas documentalmente, cujo conteúdo, sempre que
possível e viável, é incorporado em alguma
medida no PPA.
LM
-- Sob esse aspecto, o Grande ABC estaria correto quando insiste
em negociar com o governo estadual em um contexto mais informal,
por meio das instâncias voluntárias? Ou o caminho
mais seguro e eficiente seria buscar a formalização
jurídico-institucional do ABC seguindo os exemplos da Grande
Campinas e da Baixada Santista?
Mauricio Hoffmann -- Em primeiro lugar, não
podemos deixar de reconhecer a importância desses organismos
informais no processo de discussão e de planejamento estratégico
do Grande ABC, como bem demonstrado pelas contribuições
em estudos, pesquisas e proposições para o desenvolvimento
da região. A informalidade se faz presente exatamente pelo
fato de inexistir um mecanismo oficial específico que canalize
de forma sistemática e estruturada todas as discussões
sobre os problemas comuns existentes e carentes de solução.
Um órgão que possibilite a interação
efetiva entre os governos federal, estadual e municipal, os diversos
setores dos Poder Executivo, o Poder Legislativo, a iniciativa
privada e a sociedade civil concretizaria o canal adequado ao
atendimento desses propósitos.
LM
-- Então o senhor acredita que a metropolização
de direito é condição indispensável
para a garantia de recursos estáveis e estabelecimento
de diretrizes de longo prazo que transcendam interesses dos prefeitos
da vez?
Mauricio Hoffmann -- Considero, sim, que a formalização
jurídico-institucional, nos moldes das regiões metropolitanas
da Baixada Santista e de Campinas, seria o caminho mais adequado
ao estabelecimento de diretrizes de longo prazo, canalizando o
voluntarismo e os contatos informais para os novos mecanismos
de gestão.
LM
-- Em 2000, o senhor acreditava que o Grande ABC pudesse tornar-se
uma submetrópole dentro da Grande São Paulo. Esse
propósito continua? Já existe alguma sugestão
para formalizar o mecanismo operacional da submetrópole
Grande ABC?
Mauricio Hoffmann -- Efetivamente já houve
alguma elaboração a esse respeito, não exatamente
com essa nomenclatura. Faltou, por circunstâncias diversas,
a oportunidade de discussão mais objetiva da questão.
Acredito que a tendência seja a de acelerar a discussão
em torno de alguns pontos iniciais já conhecidos e tomar
as regiões metropolitanas da Baixada Santista e de Campinas
como modelos para as subdivisões regionais. Obviamente
com ajustes requeridos pelos grandiosos desafios de planejamento
e gestão.
LM
-- Há cerca de três anos o senhor também afirmou
à LIVRE MERCADO que estudos elaborados com a Fipe/USP e
a Unicamp apontaram a necessidade de readequação
da Grande São Paulo. Notícias recentes dão
conta de que os debates começam já em 2004. Está
prevista a participação da sociedade civil também
nesse processo? A organização da Conferência
Nacional das Cidades, que exigiu mobilização de
quase todos os municípios e destacou temas prevalecentemente
metropolitanos, pode agilizar esse processo?
Mauricio Hoffmann -- Sem dúvida alguma.
O próprio Plano Plurianual do Estado testemunha essa necessidade
no capítulo que aprofunda as análises sobre a Região
Metropolitana de São Paulo. O processo está em curso,
embora com alguma intermitência devido à incorporação
de novos instrumentos institucionais e produtos emanados da discussão
da Conferência Nacional das Cidades e de outros fóruns
pertinentes. A grande complexidade da RMSP, categorizada como
metrópole global, é por si só o indicador
maior da necessidade de ampla discussão que possa resultar
na criação de mecanismos eficientes e eficazes de
planejamento.
LM
-- Como atingir essa excelência na gestão metropolitana
da Grande São Paulo?
Mauricio Hoffmann -- O primeiro passo, e também
o mais objetivo, é estabelecer um documento básico
que possa servir de ponto de partida para discussão com
toda a sociedade. Os problemas requerem velocidade de concepção
compatível com o nível de intensidade e gravidade
desses problemas. Vale lembrar, como exemplo das dificuldades
de formulação, as eternas discussões de planos
diretores municipais. É isso que se quer minimizar.
LM
-- Dentro do formato atual de metropolização, como
o senhor avalia a importância da representatividade política
em contraposição à falta de recursos para
atender todas as demandas?
Mauricio Hoffmann -- É óbvio que
quanto mais forte a representatividade política, maior
será a possibilidade de pressões, o que é
legítimo dentro do processo democrático. Isso não
é novidade, mas a escassez de recursos transcende a representatividade
política. A interlocução com a representação
política sempre foi e será necessária, já
que por definição os parlamentares são os
representantes mais próximos da população.
É necessário, entretanto, que o encaminhamento de
reivindicações regionais seja feito de forma competente
e com uma perspectiva de solidariedade. O perfeito entendimento
entre a escassez de recursos e prioridades governamentais é
cada vez mais necessário. Por mais desejável e necessária
a solução de determinados problemas, nem sempre
é possível viabilizar o atendimento dos pedidos.
LM
-- Especialistas como Marcos Mendes, consultor do Senado, afirmam
que o atual sistema de partilha de impostos carrega forte viés
antimetropolitano. O FPM (Fundo de Participação
dos Municípios) privilegia micro e pequenas cidades em
detrimento dos grandes centros urbanos que concentram problemas
sociais e fortes demandas por serviços públicos.
Além disso, o critério de repasse do ICMS (Imposto
sobre Circulação de Mercadorias e Serviços)
fortemente ancorado no Valor Adicionado em detrimento da população
desfavorece municípios populosos da Grande São Paulo
que perderam indústrias para o Interior do Estado nos últimos
anos. O que é possível fazer para corrigir essas
distorções numa eventual redefinição
do cenário metropolitano?
Mauricio Hoffmann -- O assunto é complexo
e politicamente delicado, já que envolve milhares de municípios
ditos favorecidos. Veja como é complicado: no rateio do
FPM, queixa-se sobre o critério que considera a população
como base; no ICMS, reclama-se que a população seja
secundariamente considerada. Com relação ao FPM,
o posicionamento sobre o que se chama de efeito perverso na distribuição
dos recursos fiscais foi analisado no estudo Descentralização
Política, Federalismo Fiscal e Criação de
Municípios: O que é Mau para o Econômico Nem
Sempre é Bom para o Social, dos economistas Gustavo Maia
Gomes e Maria Cristina Mac Dowell, do IPEA (Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada). Um dos pontos criticados nesse estudo
é a utilização do mesmo coeficiente de rateio
de recursos para 2.672 municípios com população
inferior a 10.188 habitantes, o que significa quase 50% das cidades
brasileiras.
Com respeito ao ICMS, é exigência constitucional
que o Valor Adicionado tenha maior peso de pelo menos 75% na formação
dos índices de rateio. Se a industrialização
no Interior pode implicar na reprodução de problemas
urbanos e sociais semelhantes aos do Grande ABC, não vejo
razão, em princípio, para não manter os critérios
de distribuição. Por isso, um posicionamento sobre
a adequação ou não dos critérios distributivos
exigiria aprofundamento de estudos que projetasse principalmente
os impactos sobre eventuais alterações.
LM
-- LIVRE MERCADO defende a transformação gerencial
da Grande São Paulo em um Estado independente -- proposta
também liderada pelo Instituto Fernand Braudel de Economia
Mundial -- com a criação de um fundo específico
formado por parte do ICMS e outros tributos destinados a financiar
as principais demandas da metrópole. O senhor enxerga viabilidade
técnica na proposta?
Mauricio Hoffmann -- Não. Insisto que
o melhor caminho seja o de instituir um modelo de gestão
e planejamento análogo ao das regiões metropolitanas
da Baixada Santista e de Campinas. Não vislumbro, no meu
entender e sensibilidade, qualquer viabilidade política
de que tal aspiração separatista possa ser concretizada.
Iniciativas semelhantes em relação à subdivisão
territorial do Estado de São Paulo não prosperaram.
Temo ainda que iniciativas dessa natureza possam deflagrar a pulverização
do território paulista em mini-Estados.
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Matéria publicada originalmente na edição
de novembro de 2003 na revista LIVRE MERCADO.
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Vera Guazzelli é jornalista, uma das fundadoras e conselheira
do IEME.
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