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| ICMS
distorce e eterniza caos* |
DANIEL
LIMA**
Um
aprofundamento nos dados que o IEME (Instituto de Estudos Metropolitanos)
anunciou no começo de julho sobre o custo do funcionalismo
público nos 55 municípios economicamente mais importantes
do Estado de São Paulo choca pela conclusão de que
a distorção no repasse do ICMS eterniza o caos e
sustenta indefinidamente os privilégios. Os cinco municípios
que geraram maior Valor Adicionado per capita receberam R$ 922,45
de ICMS por morador em 2001, enquanto os cinco últimos
registraram apenas R$ 68,04.
A
diferença entre os afortunados e os deserdados pelo Imposto
Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços
é consequência de legislação sobre
a qual a revista LIVRE MERCADO há muito alerta e sugere
mudança. O peso de 76% na grade de distribuição
do ICMS em favor do quesito Valor Adicionado (que significa transformação
industrial) e de apenas 13% para o critério população
está na raiz do desbalanceamento no repasse e também
na evidente ineficiência na gestão de recursos humanos
das administrações beneficiadas. Os cinco municípios
mais prejudicados pelo prevalecimento do Valor Adicionado consumiram
em 2001 média de R$ 236,95 por morador para sustentar o
funcionalismo público municipal. Já as cinco cidades
mais protegidas pelo repasse de ICMS despenderam R$ 1.083,23 por
morador.
A
grade de despesas com o funcionalismo público entre os
55 municípios pesquisados pelo IEME obedece a uma lógica
praticamente simétrica: quanto mais receitas indiretas
os prefeitos recebem, mais sobem os custos para manter o funcionalismo
público. Não é por acaso, portanto, que os
principais gastadores com os servidores são os municípios
que registram maiores receitas per capita com o ICMS.
Paulínia,
de 51 mil habitantes na Região Metropolitana de Campinas,
é recordista absoluta em gasto por morador para sustentar
a folha de pagamentos do funcionalismo. Foram R$ 2.017,54 per
capita em 2001. Cubatão, na Baixada Santista, ficou em
segundo lugar com R$ 1.053,91, contra R$ 880,69 de São
Sebastião e R$ 821,63 de São Caetano, que vêm
a seguir.
O
comparativo entre os cinco primeiros e os cinco últimos
do ranking do Valor Adicionado per capita e o repasse do ICMS
em 2001 são um convite à estupefação
e a certeza de que os problemas caóticos dos grandes municípios
paulistas só poderão ser amenizados com a reforma
da legislação que repassa aos cofres públicos
municipais o principal tributo orçamentário.
São
Vicente, Praia Grande, Itaquaquecetuba, Guarujá e Embu
formam o pelotão dos municípios que menos Valor
Adicionado geraram entre os 55 estudados pelo IEME em 2001. Juntos,
contam com 1,37 milhão de habitantes e receberam de ICMS
dos cofres do governo do Estado R$ 93,8 milhões, ou a média
de R$ 68,04 por morador.
Cubatão,
Jaguariúna, Louveira, Paulínia e São Sebastião
formam a turma dos mais privilegiados, que mais produzem Valor
Adicionado por habitante. Juntos, reúnem população
de apenas 271.173 pessoas, ou algo semelhante a Itaquaquecetuba,
do bloco dos infortunados. O governo do Estado, por força
da legislação, repassou aos cofres desses cinco
municípios R$ 250,145 milhões, ou R$ 922,45 por
morador -- 12,58 vezes mais que a média per capita da primeira
turma.
A
esqualidez de distribuição do ICMS para o grupo
dos discriminados está na lógica de gestões
administradas mais cautelosas de despesas com o funcionalismo
público. Em conjunto, São Vicente, Praia Grande,
Itaquaquecetuba, Guarujá e Embu consumiram R$ 341,4 milhões
com os servidores, ou média de R$ 247,48 por habitante.
Menos, portanto, que a média dos 55 municípios estudados
pelo IEME, de R$ 339,52.
O
reverso da medalha é automático entre os cinco municípios
mais abençoados pela dádiva da legislação
do ICMS. Juntos, Cubatão, Jaguariúna, Louveira,
Paulínia e São Sebastião gastaram com os
servidores municipais R$ 293,7 milhões. Em números
absolutos, menos que os cinco discriminados, mas quando a contabilidade
vai para o terreno per capita, a fissura legislativa aparece com
toda a força porque a divisão do gasto conjunto
do quinteto pelo número de habitantes (271.173) identifica
outra vez o tamanho do disparate: cada funcionário custou
R$ 1.083,23 a cada morador.
A
desfaçatez legislativa pode ser resumida na simples comparação
que envolve a campeã absoluta de receita per capita do
ICMS, caso de Paulínia, e o bloco dos cinco municípios
que menos recebem. Em conjunto, São Vicente, Praia Grande,
Itaquaquecetuba, Guarujá e Embu receberam do governo do
Estado em 2001 apenas 55,28% dos recursos canalizados para Paulínia.
Contra os R$ 169,8 milhões recebidos pelo Município
da Grande Campinas, aquele quinteto amealhou apenas R$ 93,8 milhões.
O acinte se transforma em insanidade legislativa porque enquanto
Paulínia conta com apenas 51 mil habitantes, aquele conjunto
de municípios chega a 1,37 milhão.
Há
profusões de exemplos entre municípios que consolidam
os contrastes lubrificados pela definição do peso
prevalecente do Valor Adicionado na composição do
ICMS e o grau de liberalidade ou contração no uso
dos recursos municipais para pagamento do funcionalismo.
Um
exemplo emblemático porque confronta dois municípios
que contam com o mesmo número de habitantes reúne
Cubatão e Botucatu. Beneficiadíssima pelas facilidades
de repasse do Valor Adicionado que indexa o ICMS, Cubatão
contou com arrecadação geral (impostos municipais,
estaduais e federais) de R$ 218,78 milhões em 2001. Como
gastou R$ 114,1 milhões com o funcionalismo, sobraram exatamente
R$ 103,9 milhões para outras rubricas. Já Botucatu,
sem as vantagens de ter um pólo químico, petroquímico
e siderúrgico que desequilibra o repasse do ICMS, arrecadou
com todos os impostos R$ 70,3 milhões. Ou seja: apenas
32% da receita arrecadada de Cubatão. Como consumiu R$
32,6 milhões com os servidores municipais, sobraram R$
37,7 milhões.
O
custo do funcionalismo público de Cubatão é
de R$ 1.053,91 por morador, contra apenas R$ 301,89 de Botucatu.
Essa média per capita é resultado de conta simples:
divide-se o gasto com os salários e benefícios trabalhistas
do conjunto do funcionalismo pelo número de moradores de
cada cidade. Com 108,3 mil habitantes cada, Cubatão e Botucatu
são expostos como exemplo apenas para não dificultar
o entendimento, mas o raciocínio vale para comparações
entre os 55 municípios mais importantes do Estado. Afinal,
a metodologia utilizada pelo IEME contempla valores per capita.
Dessa forma, tanto faz ter os 51 mil habitantes de Paulínia
como os 10,4 milhões da Capital paulista. Aliás,
a Capital é extraordinariamente pedagógica na questão:
detentora de quase 30% de todo o Valor Adicionado gerado no Estado,
cai para 34º lugar na relação per capita entre
os 55 municípios analisados.
A
funda diferença entre a aplicação de recursos
públicos para o pagamento do funcionalismo em Cubatão
e em Botucatu não consegue encontrar guarida nem mesmo
na disputa pela qualidade de vida fortemente superior no Município
do Interior. Morar em Botucatu é para 10 entre 10 consultados
melhor do que morar em Cubatão. Mesmo que tente se livrar
em grande parte do ônus do meio ambiente maltratado, já
que as empresas investiram pesadamente nos últimos 20 anos,
a fama de reunir o que de pior existe em matéria de respeito
à natureza praticamente estigmatizou Cubatão como
área hostil.
Mas,
ambientalismo excluído, sobram os fatos. Pelo Mapa de Inclusão
e Exclusão Social construído no ano passado por
especialistas de várias universidades paulistas comandados
por Marcio Pochmman e Ricardo Amorim, Botucatu atingiu índice
geral de 0,640 ponto contra 0,548 de Cubatão. A vantagem
está no fato de que Botucatu se aproxima mais que Cubatão
do índice referência 1,000. Resultado de sete indicadores,
entre os quais pobreza, alfabetização, escolaridade
e violência, a medida do tamanho da vantagem de qualidade
de vida de Botucatu é 14,37% superior a Cubatão.
Como, então, justificar que a folha de pagamentos de Cubatão
seja, por morador, 349% mais elevada que a de Botucatu?
Por
isso, não há consistência em qualquer tese
acadêmica que estabeleça como pressuposto de eficiência
de gestão financeira de um Município o maior saldo
de recursos financeiros após a dedução do
custo do funcionalismo. Quem formulou essa equação
foi o professor universitário e consultor Antonio Joaquim
Andrietta em artigo publicado no site CliqueABC na tentativa de
desqualificar os estudos do IEME.
Pela
contabilidade de Andrietta, velho propagador de teses insustentáveis,
entre as quais a negação da evasão industrial
no Grande ABC, Cubatão conta com administração
pública mais eficiente que Botucatu. Tudo porque, embora
gaste por morador quase cinco vezes mais que Botucatu para sustentar
o funcionalismo público, sobram-lhe mais recursos para
outras atividades.
Os
dados comparativos que Joaquim Andrietta utilizou para tentar
transformar ineficiência em eficiência financeira
na gestão de recursos humanos públicos são
mais acintosos que o expresso entre Cubatão e Botucatu.
Ele compara Paulínia e Carapicuíba para afirmar
que a cidade da Grande Campinas cuida melhor dos recursos que
arrecada do que o Município da Grande São Paulo.
Andrietta
menciona a relação entre despesa com pessoal e arrecadação
per capita para argumentar que os 37% de Carapicuíba e
os 39% de Paulínia são praticamente iguais. Apressado,
o professor e consultor dispensou uma análise mais apurada
do ranking de eficiência financeira do funcionalismo público
que também contempla variáveis como o menor valor
per capita despendido em relação à receita
per capita e o menor custo per capita comparado com a média
dos 55 municípios.
Enquanto
cada morador de Paulínia gastou com o funcionalismo R$
2.017,54, Carapicuíba, com 344 mil habitantes, despendeu
R$ 86,91. Como acreditar que Paulínia seja mais eficiente?
Para Joaquim Andrietta, a contabilidade é outra: como Paulínia
tem receitas gerais per capita muito maiores que Carapicuíba
(R$ 5.180 contra R$ 233), principalmente por causa do repasse
do ICMS, sua eficiência financeira estaria garantida porque,
por mais que esbanje com o funcionalismo público, sempre
lhe sobrará mais dinheiro do que para Carapicuíba.
Em
valores absolutos, Paulínia gastou com o conjunto do funcionalismo
público em 2001 nada menos que R$ 103,5 milhões,
contra apenas 29,9 milhões de Carapicuíba. Levando-se
em conta a distância populacional -- 51 mil moradores contra
344 mil -- salta aos olhos a semântica de eficiência
do professor e consultor. Sozinha e com 51 mil habitantes, Paulínia
gastou mais com o funcionalismo do que a soma de Louveira (R$
11,2 milhões), Jaguariúna (R$ 13,6 milhões),
Cajamar (R$ 26,3 milhões) e São Sebastião
(R$ 51,1 milhões), que totalizam 162 mil habitantes. Ou
234% mais que Indaiatuba, com 147 mil habitantes. Exemplos não
faltam para correlacionar os gastos excessivos de Paulínia.
Professor
do Imes (Centro Universitário Municipal), uma autarquia
da Prefeitura de São Caetano e, portanto, funcionário
da administração do prefeito Luiz Tortorello, Antonio
Joaquim Andrietta igualmente defende a estranha e desmontável
equação de que São Caetano também
é mais eficiente financeiramente na gestão de recursos
humanos do que Santo André.
O
volume gasto pela Prefeitura de Santo André em 2001 com
o funcionalismo atingiu R$ 224 milhões para uma população
de 649 mil habitantes, o que dá média por morador
de R$ 344,16. Na mesma temporada, a Prefeitura de São Caetano
consumiu R$ 115,1 milhões com o funcionalismo, ou média
de R$ 821,63 por habitante. Para Joaquim Andrietta, mesmo pagando
238% mais para o funcionalismo público em relação
à média por morador de Santo André, São
Caetano é mais eficiente. O raciocínio é
o mesmo das contas anteriores: por ter mais receita, sobrou mais
dinheiro em São Caetano -- a média de receita geral
per capita de São Caetano é de R$ 2.129,76, contra
R$ 606,95 de Santo André.
Não
bastasse o despropósito da argumentação no
campo financeiro, agrava a avaliação do consultor
o fato de que o gerenciamento do dinheiro público deveria
ser guiado pelo princípio da produtividade, como na livre
iniciativa mais qualificada. A sustentação da tese
de que é mais eficiente quem gasta mais porque tem mais
para gastar é um atentado ao bom senso -- especialmente
num País em que a carga tributária trafega pela
elite do Primeiro Mundo sem oferecer contrapartida de serviços
públicos à altura.
A
diferença entre morar em São Caetano e em Santo
André não justifica a diferença do tamanho
dos custos per capita do funcionalismo público. O mercado
imobiliário, representativo medidor entre cidades vizinhas,
é historicamente 20% mais valorizado em São Caetano
em relação a Santo André quando se colocam
como referências imóveis do mesmo padrão.
No Índice de Inclusão e Exclusão Social,
ao 0,864 alcançado por São Caetano de apenas 15
quilômetros quadrados de área se antepõe 0,637
de Santo André de quase 200 quilômetros quadrados.
Uma diferença de 26,2%. Nos dois casos, nada semelhante
aos 238% que separam o custo do funcionalismo público por
habitante. Tivesse a população de Santo André
e consumisse o valor per capita registrado em 2001, São
Caetano despenderia R$ 533,7 milhões só com o funcionalismo.
Como se sabe, Santo André gastou R$ 224 milhões.
*
Matéria publicada na edição de agosto de
1993 na revista LIVRE MERCADO.
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DANIEL LIMA é jornalista, escritor, idealizador do IEME,
diretor-executivo da revista LIVRE MERCADO e editorialista da
newsletter Capital Social Online.
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