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| Corte
de gastos sustentaria 2,3 mil Sagradas Famílias*
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DANIEL
LIMA **
Os números
assustam tanto quanto a realidade de exclusão social: se
os gastos dos Legislativos dos 55 municípios mais importantes
do Estado fossem balizados por Botucatu, Município que
trata com mais responsabilidade o dinheiro do contribuinte nas
atividades parlamentares, seria possível, só com
a economia de recursos, sustentar 2,3 mil unidades do Lar Sagrada
Família. Essa é a mais nova constatação
dos estudos do IEME (Instituto de Estudos Metropolitanos).
O
Lar Sagrada Família é uma instituição
assistencial que atende 105 moradores, entre mães e filhos,
em Rio Grande da Serra, quase anônimo Município do
Grande ABC, com 38 mil habitantes. As mães geralmente são
jovens como Isabel (nome fictício), ex-prostituta de 25
anos sem nenhuma formação escolar e que chega à
13ª gestação considerada como gravidez de risco.
Isabel tem cinco filhos vivos e provocou três abortos em
média por ano.
A
religiosa irmã Ivete Maria Boesing dirige o Lar Sagrada
Família que, em 30 anos de atividades, já atendeu
a mais de 300 famílias. A entidade assistencial não
se especializou apenas em curar feridas sociais. Contribui também
para a socialização. As mulheres em desamparo que
ocupam 14 apartamentos têm em média seis crianças,
mas exercem alguma profissão. São empregadas domésticas
em casas vizinhas, atuam nas frentes de trabalho e nas oficinas
da própria entidade. A confecção de camisetas
é uma das atividades principais para dar conta dos custos
mensais.
O
Lar Sagrada Família de Rio Grande da Serra custa R$ 15
mil por mês. São R$ 180 mil por ano. No mesmo período,
em 2001, os Legislativos dos 55 municípios mais importantes
do Estado consumiram R$ 634,5 milhões. Uma fortuna que
significa R$ 25,09 por morador no ano. Botucatu consumiu apenas
R$ 8,63 por morador. Se os gastos dos Legislativos fossem referenciados
pelos valores de Botucatu, a economia atingiria R$ 416,2 milhões.
Botucatu conta com 17 vereadores, 21 funcionários, um veículo
apenas para o conjunto de vereadores e não paga hora extra
a ninguém.
A
conta para chegar às 2,3 mil unidades semelhantes ao Lar
Sagrada Família de Rio Grande da Serra é simples.
Basta dividir os R$ 416,2 milhões que seriam economizados
com a moralização dos gastos dos Legislativos pelos
R$180 mil que a Sagrada Família gastará este ano
para resgatar a dignidade de mulheres de histórico pessoal
e familiar tumultuado. O resultado a que se chega é exatamente
2,3 mil. Com esse dinheiro poderiam ser atendidos 241,5 mil excluídos
sociais nos moldes do Sagrada Família.
Os
números são tão estratosféricos, tão
avantajados em suas dimensões, que, ao se projetarem da
máquina de calcular, a impressão que se tem é
que há algo de equivocado. Ledo engano. São tão
verdadeiros quanto chocantes. Quer dizer então que se todos
os Legislativos pesquisados pelo Instituto de Estudos Metropolitanos
fossem exemplarmente copiados do modelo de Botucatu, sobraria
essa dinheirama toda para aplicação mais produtiva?
Exatamente isso.
Note-se
que nem de longe estamos a defender pura e simplesmente a aniquilação
dessas casas de leis. Nada disso. Por maiores que sejam os despautérios
cumulativos que infestam tanto os Legislativos quanto os Executivos,
a democracia não pode prescindir dos poderes constituídos.
Uma verdade tão enraizada quanto a tapeação
dos gastos que lubrificam as engrenagens de desperdício
e instalam o Legislativo como exemplo típico de algo que
precisa passar por reformas de base.
A
Lei de Responsabilidade Fiscal não é ferramenta
capaz de enxugar a máquina legislativa dos municípios.
A não ser que seja vigorosamente alterada. Os limites formulados,
que se correlacionam com as receitas do Executivo, são
um escárnio. Há Legislativos nababescos. Os gastos
de Paulínia, na Grande Campinas, por exemplo, são
extraordinariamente ofensivos aos limites da responsabilidade
social. Em 2001 foram R$ 162,12 por contribuinte -- ou seja, 18
vezes superior ao de Botucatu.
Há
quem defenda descalabros como esse sem que ao menos lhe dêem
voz de prisão por desacato ao bom senso. Outros, menos
abusados, mas igualmente insensíveis, formulam equações
que procuram promover o ranqueamento com base no número
de vereadores da atual legislatura, quando se sabe que parte dos
gastos se refere a valores cumulativos, incluindo aposentadoria.
Não
seria pura e simplesmente a redução dos quadro dos
Legislativos que eliminaria a farra do boi das despesas. Podem
reduzir o número de vereadores de boa parte dos municípios
que inadvertidamente se auto-aplicaram regras vantajosas, mas
os desníveis continuarão. A Lei de Responsabilidade
Fiscal não sacramentou apenas um erro ao dispensar a fixação
de espécie de banda estreita de despesas por habitante
atendido. Cometeu a insanidade de flexibilizar os gastos no vai-da-valsa
das receitas arrecadadas. Não é à toa que
Paulínia deita e rola.
Quando
se discutem fontes de recursos financeiros para minimizar as dores
das regiões metropolitanas formais e informais do Estado
de São Paulo e se contrapõe que a alteração
das regras do jogo é um bicho-de-sete-cabeças, a
realidade é outra. Falta ousadia aos parlamentares e decisão
do governo estadual. Ninguém quer mexer no que chamam de
vespeiro quando de fato um grupo de não mais que 10% dos
municípios paulistas -- esses escolhidos para compor as
primeiras pesquisa do Instituto de Estudos Metropolitanos -- seria
suficiente para as primeiras medidas profiláticas.
Com
os R$ 416,2 milhões da gordura dos gastos dos Legislativos
que socorreriam 241,5 mil mães e filhos em desamparo também
seria possível promover o empreendedorismo de pequeno porte,
em forma de cooperativas direcionadas às vocações
municipais. Com retaguarda técnica e assessoria nos mais
diversos campos da administração, sempre em forma
de pool, esse dinheiro se multiplicaria em novos negócios,
inclusive para o mercado de exportação. Oportunidades
não faltam. Chora-se por recursos financeiros, caros e
de acesso sempre difícil.
Não
é tão difícil quanto parece resgatar o Brasil
das areias movediças econômicas, em sintonia com
a redução da problemática social. É
preciso ousadia de quem administra, de quem legisla e também
de quem informa. Sim, de quem informa. Na medida em que a mídia
aperta o cerco contra os gastos excessivos dos Legislativos e
Executivos, mais próximos estaremos da redução
do peso tributário sobre a sociedade. Os 37,5% de impostos
em relação do Produto Interno Bruto, apurados nos
primeiros seis meses deste ano, embrutecem a expectativa de regeneração
do tecido social e econômico do País quando se sabe
que o perdularismo está enraizado no genoma nacional.
Os
deputados estaduais paulistas, tão melindrosos quando se
observa a inoperância em provocar transformações,
bem que poderiam dar exemplo de rigidez no trato do dinheiro público,
pressionando pela reforma da Lei de Responsabilidade Fiscal. É
claro que deveriam incluir em suas tratativas o corte da própria
gordura, igualmente abundante de gastos da Assembléia Legislativa.
Só
com o corte razoavelmente saudável do que se gasta em excesso
com vereadores e deputados estaduais paulistas -- para não
dizer brasileiros -- seria perfeitamente provável que o
Estado de São Paulo ganharia nova dinâmica, depois
de acompanhar passivamente sua queda relativa na qualidade de
vida nacional. Como se sabe, em 1991 os paulistas contavam com
27 dos 50 primeiros colocados do IDHM (Índice de Desenvolvimento
Humano Municipal) da ONU, contra apenas 14 no ano de 2000. Enquanto
isso, gaúchos, catarinenses e paranaenses, que não
passavam de 17 municípios entre os 50 maiores, subiram
para 32.
O
caso do Lar Sagrada Família de Rio Grande da Serra é
apenas um exemplo ostensivamente proposital para mostrar que há
pecados demais envolvendo a quase totalidade dos Legislativos.
Botucatu é também um exemplo extraordinariamente
pedagógico de que é possível utilizar um
ramal da democracia para estender os benefícios sociais
e econômicos a camadas de marginalizados.
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Matéria publicada pela newsletter Capital Social Online
em 13 de outubro de 2003
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DANIEL LIMA é jornalista, escritor, idealizador do IEME,
diretor-executivo da revista LIVRE MERCADO e editorialista da
newsletter Capital Social Online.
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