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| Executivos
reproduzem vícios dos legislativos* |
DANIEL
LIMA **
Quem imagina
que a gastança pública nos legislativos municipais
pesquisados pelo IEME (Instituto de Estudos Metropolitanos) não
contamina os dispêndios do Executivo está redondamente
enganado. Talvez essa formulação esteja incorreta,
porque a permissividade dos gestores municipais lubrifica a engrenagem
cultural do consumismo desenfreado de recursos dos contribuintes
em boa parte das casas de leis.
Depois
de provar que quem gera mais receitas industriais, patrimoniais
e de serviços por habitante também patrocina os
maiores gastos legislativos, provaremos também que no plano
Executivo essa deformidade se reflete de maneira absolutamente
cristalina. Nada pior para aqueles poucos mas patéticos
defensores de espertezas semânticas, como a tentativa de
manipular a metodologia indicadora dos evidentes desequilíbrios.
Um
comparativo entre as despesas com o funcionalismo público
dos 55 municípios mais importantes do Estado e os respectivos
desempenhos individuais na produção de Valor Adicionado
(transformação de produção industrial),
principal fator de redistribuição do ICMS, mostra
que a turma beneficiada pela esdrúxula legislação
está no pelotão da frente. Em ordem decrescente,
iniciando-se portanto pela lanterninha Paulínia, e seguindo
com Cubatão, São Sebastião, São Caetano,
Barueri, Cajamar, São José dos Campos, Louveira
e Jaguariúna, temos os nove maiores consumidores de recursos
com o funcionalismo, considerando-se como medidor a divisão
do orçamento consumido e o número de habitantes
dos respectivos municípios.
Poucos
são os municípios paulistas da lista do IEME que
conseguem combinar destaque na produção industrial
e comedimento na manutenção dos servidores público,
sempre considerando valores per capita, a melhor maneira de analisar
o quadro econômico do Poder Público. Americana, Hortolândia,
Mogi-Guaçu e Pindamonhangaba podem ser citadas como exemplos
a ser seguidos. Americana é 14ª colocada em Valor
Adicionado e 12ª nos custos com o funcionalismo municipal.
Hortolândia é 21ª em Valor Adicionado e 11ª
em despesas. Mogi-Guaçu é 15ª em Valor Adicionado
e 10º em despesas. Pindamonhangaba é 13ª em Valor
Adicionado e quarta no ranking de despesas com o funcionalismo.
Sempre
tomo os exemplos de Cubatão e de Botucatu, municípios
que contam com o mesmo número de habitantes -- 108 mil
pessoas -- para simplificar a metodologia per capita dos enunciados
do Instituto de Estudos Metropolitanos, dando-lhes em função
disso, também, dimensões mais amplas. Reparem como
o que poderia chamar de rendimento de receitas provenientes da
industrialização age diferentemente no gerenciamento
histórico dos dois municípios:
Cubatão
ocupa a segunda posição no ranking de Valor Adicionado,
a 54ª posição no ranking de despesas com o
funcionalismo público municipal e a 54ª posição
na manutenção do Legislativo.
Botucatu ocupa a 40ª colocação no ranking do
Valor Adicionado, a 25ª posição no custo do
funcionalismo municipal e a primeira posição no
ranking do Legislativo.
Ora, ora: esses desvio numéricos, e tantos outros semelhantes
que poderiam ser capturados das planilhas preparadas pelo IEME,
só não enxerga quem não quer. Por isso, deveriam
servir de referencial para os legisladores estaduais iniciar processo
revolucionário que amarraria duas pontas do mesmo novelo
de despautérios: de um lado espremeria os gastos do Executivo
e do Legislativo; de outro, fortaleceria o debate sobre a reformulação
da Lei de Responsabilidade Fiscal. Como se sabe, a LRF estabelece
limites de gastos com os servidores ancorando-os às receitas,
quando o bloqueador deveria ser o custo por habitante atendido,
tendo-se como base os atualmente mais ajuizados.
Se
obedecidos esses critérios, os 55 legislativos dos principais
municípios paulistas teriam economizado R$ 414,6 milhões
em 2001 -- em valores não deflacionados. O que dizer então
da redução dos dispêndios com o funcionalismo
público ligado ao Executivo se Carapicuíba, primeira
do ranking, servisse de exemplo? A cifra economizada seria um
estrondo. Querem ver? Multipliquem os R$ 86,91 que cada morador
de Carapicuíba paga para sustentar os servidores do Executivo
pela população das 55 cidades (25,3 milhões)
e teremos R$ 2,2 bilhões de despesas, contra R$ 8,5 bilhões
efetivamente gastos.
Se
acham que Carapicuíba é pobre demais para sustentar
infra-estrutura material e humana que uma administração
pública necessita para atender à demanda social,
então que se pegue o gasto médio por habitante de
uma Rio Claro, reconhecidamente agradável como ambiente
de moradia. Rio Claro consumiu por habitante em 2001 o valor médio
de R$ 227,37 para sustentar a máquina pública.
Multipliquem
esse valor pela população dos 55 municípios
e teremos R$ 5,8 bilhões. Agora, façam uma nova
conta: dos R$ 8,5 bilhões gastos pelos 55 municípios,
diminuam o que esses mesmos municípios consumiriam com
os servidores públicos se o indexador fosse Rio Claro (R$
5,8 bilhões): teríamos nada menos que R$ 2,7 bilhões
para compor um fundo de investimentos consorciado, que se juntariam
aos mais de R$ 400 milhões do que seria economizado com
os legislativos.
Dá
para imaginar o tamanho das transformações sociais
e econômicas possíveis de realizar com mais de R$
3 bilhões a cada ano. Poderiam ser construídos mais
de dois trechos completos da rota sul do Rodoanel. Entretanto,
há os que preferem mesmo defender a causa de Paulínia,
cuja performance é a seguinte:
Campeã
absoluta em Valor Adicionado, lanterninha absoluta em despesas
com o Legislativo e lanterninha absoluta também em despesas
com o funcionalismo do Executivo.
Se transpostas aos 55 municípios as despesas per capita
de Paulínia com os servidores municipais do Executivo,
a despesa alcançaria R$ 51,6 bilhões. Isso mesmo:
R$ 51,6 bilhões, contra os R$ 8,5 bilhões efetivamente
consumidos e os R$ 5,8 bilhões sugeridos.
Convenhamos
que é muito difícil os quadros da Assembléia
Legislativa se movimentarem em direção a essa revirada
geral de conceitos. Até porque, a própria Assembléia
Legislativa teria de passar por mudança de estrutura semelhantemente
dispendiosa, consequência de trajetória similar à
de grande parte dos legislativos municipais porque esse é
o padrão de usos e costumes num País cujo capital
social é atomizado.
Quando
vai surgir o grande reformador de conceitos de gerenciamento público,
alguém capaz de colocar em risco a própria carreira
tendo como contrapartida o bônus de perpetuar um legado
de ousadia, determinação e transformação
dos recursos dos contribuintes em obras geradoras de empregos
produtivos?
Quem terá a coragem de enfrentar a muralha de mesmices
aparentemente insuperáveis? Quem derrubará esse
Muro de Berlim que cerceia o desenvolvimento econômico?
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Matéria publicada pela newsletter Capital Social Online
em 1º de outubro de 2003
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DANIEL LIMA é jornalista, escritor, idealizador do IEME,
diretor-executivo da revista LIVRE MERCADO e editorialista da
newsletter Capital Social Online.
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