|
| Ranking
prova que quem arrecada mais gasta mais* |
DANIEL
LIMA**
Não
é simples coincidência que os quatro últimos
colocados no ranking de gastança legislativa entre os 55
municípios economicamente mais importantes do Estado de
São Paulo estão entre os 10 que mais geram Valor
Adicionado por habitante. Também não é mero
acaso que na lista dos 14 maiores gastadores do Legislativo, pesquisados
pelo IEME (Instituto de Estudos Metropolitanos), aparecem outros
três municípios que estão entre os 10 maiores
produtores de riqueza industrial per capita. E também não
é aleatório que seis municípios da lista
dos 14 grandes perdulários constam do ranking da guerra
fiscal no setor de serviços ou vivem largamente de escorchantes
receitas do IPTU. Resumo final: apenas um entre os 14 municípios
que mais fazem a farra legislativa não vive de algum tipo
de privilégio tributário.
Todo
esse raciocínio parece complexo, mas não é.
Tivemos que recorrer a esse enunciado para consubstanciar tecnicamente
uma verdade irrefutável: há indigesta sincronia
no menu que correlaciona de forma estúpida o dinheiro fácil
de determinado tipo de impostos e gastos elevados para a manutenção
de determinadas Câmaras de Vereadores.
Paulínia,
Cubatão, São Sebastião e São Caetano,
em ordem decrescente os maiores gastadores com os legislativos,
estão respectivamente em primeiro, segundo, sexto e oitavo
lugares entre os maiores geradores de Valor Adicionado (transformação
industrial) por habitante no Estado. O que isso significa? Que
o peso ponderado de 76% do VA na distribuição do
ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e
Serviços) assegura muito dinheiro aos cofres públicos.
Cajamar (43º), São José dos Campos (44º)
e Jacareí (45º) colocados em gastança legislativa
entre os 55 municípios, estão respectivamente em
nono, sétimo e 10º lugar no ranking de Valor Adicionado.
A conexão é inexorável. O Valor Adicionado
transformado em ICMS, decorrente do peso pesado com que foi configurado,
é um convite ao desvario do dinheiro público nos
redutos legislativos.
Jaguariúna, terceira colocada em Valor Adicionado e 23ª
no ranking do Legislativo, é exceção que
confirma a regra. Entre os10 primeiros em geração
de riqueza por habitante, aquela cidade da Grande Campinas é
a única que está razoavelmente colocada entre as
55 no ranking de despesas com a Câmara dos Vereadores. Louveira,
quarta colocada em Valor Adicionado, é a 36ª no Legislativo.
Entre
as 14 cidades mais pródigas em matar a fome pantagruélica
dos legislativos estão três da Baixada Santista (Guarujá,
42ª; Praia Grande, 46ª e Santos, 51ª) que vivem
de apertar a classe média que ali construiu patrimônio
imobiliário para recompor-se principalmente das loucuras
da Grande São Paulo. O IPTU é o maná dessas
cidades. Taboão da Serra e Cotia, na Grande São
Paulo, que ocupam as últimas colocações no
ranking dos legislativos, respectivamente em 47ª e em 48ª,
vivem da guerra fiscal em serviços -- dinheiro fácil
e geralmente predador, como se sabe. Itu completa o bloco dos
14 piores como única exceção de quem não
tem elevado Valor Adicionado per capita, não é exploradora
de IPTU nem faz guerra fiscal com o ISS. É desperdício
puro e simples.
Reparem
na confrontação do ranking de gastos do Legislativo
Municipal e do Valor Adicionado de 2002, agora sob ângulo
inverso, para a confirmação da lógica de
que a corrente de transmissão do desperdício está
mesmo na grandiosidade arrecadatória. Da lista dos 22 primeiros
municípios que menos gastam por habitante com o Legislativo,
apenas quatro (Araras em 17º lugar, Americana em 14º,
Pindamonhangaba em 13º e Taubaté em 16º) estão
entre os 20 primeiros colocados no Valor Adicionado -- ou seja,
na transformação de riqueza industrial per capita.
Nenhum dos 10 primeiros colocados em Valor Adicionado per capita
aparece na lista dos 20 primeiros colocados do ranking do Legislativo.
Jaguariúna, 23ª colocada no Legislativo e terceira
no Valor Adicionado, interrompe o ciclo.
Qualquer
articulação teórica aparentemente sofisticada
que se pretenda plantar para desviar os efeitos danosos de receitas
per capita pródigas e dispêndios legislativos acima
do razoável não passará de mistificação
de agentes interessadíssimos em confundir. O fato é
que os 55 principais municípios paulistas oferecem a olhos
mais argutos e a mentes mais abertas uma coreografia numérica
que, transposta para a tela de um computador, muito se assemelharia
ao eletrocardiograma de alguém que tenha sido surpreendido
por infarto. A imagem é forte
mas tem profundo parentesco com a própria realidade econômico-financeira
desses municípios, condenados a eternizar suas próprias
realidades.
O
que está evidente e só os estúpidos não
querem enxergar é que quanto mais facilidades os administradores
municipais têm para recolher impostos, mais são permissivos
com os legislativos. Fossem os legisladores estaduais mais atentos
à dinâmica econômica paulista e se preocupassem
de fato com alterações significativas na distribuição
do ICMS, cuja partilha obedece a critérios ultrapassados,
larga parcela da distorção de uso de recursos públicos
para a manutenção das câmaras municipais seria
amenizada. Mas como acreditar que os deputados estaduais mexerão
nesse vespeiro se grande parte deles saiu dessa incubadora de
gastos fáceis?
Num
momento em que tanto se discute a reforma tributária no
âmbito do Congresso Nacional, os deputados estaduais paulistas
deixam escapar a oportunidade de colocar fim a esse convite à
irresponsabilidade. Sim, porque não pode ser considerado
minimamente justo um Legislativo como o de Paulínia, lanterninha
no ranking, consumir como consome R$ 162,12 por habitante em 2001,
enquanto em São Paulo o valor per capita atingiu R$ 25,53
-- e olhem que a Capital paulista é a 34ª colocada
na classificação do Legislativo entre os 55 municípios.
Para
se ter idéia do quanto Paulínia desperdiça
com o Legislativo, nada mais provocativo -- mas também
elucidativo -- do que projetar o quanto significaria a despesa
da Câmara Municipal se aquele Município da Grande
Campinas tivesse a amplitude demográfica da Capital. Multiplicando
o custo per capita pelos 10,4 milhões de paulistanos, Paulínia
teria consumido R$ 1,6 bilhão em 2001. Apenas para entender
a impactante diferença, São Paulo gastou R$ 266,4
milhões com seu Legislativo em 2001. Uma dinheirama, sem
dúvida, mas nada que se compare relativamente a Paulínia,
a Cubatão, a São Sebastião, a São
Caetano e a tantos outros municípios cujos legislativos
superam a R$ 50 por morador e estão entre os medalhas de
chumbo do Instituto de Estudos Metropolitanos.
Considerando-se
que há comprovada sintonia entre o que as prefeituras mais
beneficiadas pela distribuição do ICMS, pela elevação
dos valores do IPTU e pela prática insana da guerra fiscal,
repassam aos legislativos, mais se torna premente que, além
de mudanças dos pesos relativos de repasse do ICMS, a Lei
de Responsabilidade Fiscal seja urgentemente alterada. Entre outras
mudanças, é indispensável estabelecer limites
de gastos com o Legislativo -- e também com o funcionalismo
do Executivo, que reproduz as mesmas barbeiragens distributivas
-- que não sejam balizados pela receita arrecadada. A medida
saneadora e moralizadora dos recursos dos contribuintes deveria
enquadrar as despesas com o funcionalismo público na bitola
da relação direta com a população
atendida.
Só
para que se tenha idéia do quanto representaria de economia
aos cofres públicos -- com possibilidades de aplicação
em serviços à comunidade --, uma projeção
da economia que seria gerada se os 55 municípios pesquisados
pelo IEME tivessem de enquadrar-se nos limites de Botucatu serviria
para recuperar o conceito de boa parte dos legislativos. Sim,
Botucatu consumiu por habitante apenas R$ 8,63 no exercício
de 2001. Multiplicado esse valor pelo conjunto da população
dos 55 mais importantes municípios do Estado -- 25.292.371
pessoas --, o dispêndio total atingiria R$ 218,2 milhões.
Sem limites adequados, a despesa no período alcançou
a R$ 632,8 milhões. Feitas as contas, seriam R$ 414,6 milhões
para aplicações socialmente mais justas, já
que, como se sabe, quase todo orçamento dos legislativos
se esgota no assalariamento de vereadores e assessores.
Já
imaginaram o que seria possível fazer com R$ 414,6 milhões?
Uma idéia nada extravagante -- muito pelo contrário
- já defendida por este jornalista: a composição
de um fundo de investimentos gerido de forma consorciada pelas
prefeituras das regiões metropolitanas paulistas -- formais
e informais - para obras de cunho intermunicipal.
Quem
se habilita a colocar o guizo no pescoço dos gastadores?
*
Matéria publicada pela newsletter Capital Social Online
em 7 de novembro de 2002.
** DANIEL LIMA é jornalista, escritor, idealizador do IEME,
diretor-executivo da revista LIVRE MERCADO e editorialista da
newsletter Capital Social Online.
|