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| Regionalismo
sem desvios triunfalistas* |
DANIEL
LIMA**
O
que há em comum entre LIVRE MERCADO e muitas das conclusões
do livro A Cidade-Região, Regionalismo e Reestruturação
no Grande ABC Paulista, do economista Jeroen Klink, professor
de Economia e de Sociedade Regional do curso de Mestrado de Administração
do Imes (Centro Universitário de São Caetano)? A
resposta é simples: por mais que esse especialista em experiências
internacionais de regionalismo procure amenizar o quadro dos sete
municípios que compõem o sexto PIB (Produto Interno
Bruto) do Brasil, há muita convergência e praticamente
nada de contraditório em relação às
históricas análises de LIVRE MERCADO. A diferença
está apenas no conteúdo mais contundente da revista.
"Em
outras palavras, a interpretação dos dados da Paep
sobre inovação e modernização tecnológicas
das empresas no Grande ABC não corresponde às expectativas
do novo regionalismo. Não encontramos indícios convenientes
de que existisse um potencial muito forte para proporcionar uma
economia regional dinâmica baseada num processo endógeno
de aprendizagem, enraizado no próprio território
da região e nas normas e convenções de coordenação
para a atividade econômica do Grande ABC. Talvez o contrário
seja verdade. A dependência da pesquisa e do desenvolvimento
elaborados na grande empresa como fonte de inovação
sugere uma certa desterritorialização do processo
de modernização tecnológico. Isso significa
que a integração vertical dessas atividades de pesquisa
e desenvolvimento no âmbito da grande indústria fordista
faria talvez com que a economia da região perdesse potencial
para deslanchar a sua transição para uma trajetória
econômica alternativa, baseada nos referidos processos endógenos
de aprendizagem" -- escreveu Jeroen Klink, que também
é secretário de Relações Internacionais
e de Captação de Recursos da Prefeitura de Santo
André.
A
análise desse holandês que se lançou a esmiuçar
a realidade do Grande ABC coincide com a posição
de LIVRE MERCADO sobre o Caderno de Pesquisas Nº 2 da Agência
Regional de Desenvolvimento Econômico, apresentado em março
do ano passado e baseado em estudos da Paep, da Fundação
Seade (Sistema Estadual de Análises de Dados), do governo
do Estado. Na edição de abril do ano passado, com
o título Muro de Tecnologia Separa Pequenas e Grandes Empresas,
LM avaliou de forma inédita dados parciais da pesquisa
anunciados com certo triunfalismo pela Agência de Desenvolvimento
Econômico. Alguns trechos da interpretação
de LIVRE MERCADO:
"Um
preocupante Muro de Tecnologia separa as indústrias do
Grande ABC. Como no caso dos habitantes cada vez mais divididos
entre excluídos e incluídos, também as empresas
industriais da região são protagonistas de situações
completamente distintas. De um lado está o contingente
restrito mas poderoso das grandes e médias empresas, principalmente
as relacionadas ao setor automotivo, investindo em tecnologia
de produtos e de processos para enfrentar a globalização.
De outro lado está o numeroso séquito de pequenas
empresas, absolutamente desconectadas das grandes transformações
por que passa o setor industrial, no qual produtividade rima com
competitividade. Esse verdadeiro Exército de Brancaleone
industrial pode estar com os dias contados. O trabalho também
confirma a dependência da economia regional da vitalidade
da indústria automotiva".
LIVRE
MERCADO reservou cinco páginas da edição
de abril de 2000 para analisar a Paep. O estudo se refere à
pesquisa das atividades industriais da região durante o
período 1994-1996. "Isso significa que o quadro apresentado
com quatro anos de defasagem certamente se agravou. Aquele foi
o período mais fértil da economia brasileira nos
anos 90, a bordo do boom consumista do Plano Real e de uma moeda
nacional valorizada e estabilizada, depois de mais de três
décadas de inflação epidêmica"
-- afirmou a reportagem.
A
principal observação de LIVRE MERCADO à apresentação
e avaliação da pesquisa se prendeu à tentativa
de membros da Agência Regional de capitalizar como aspecto
altamente positivo o fato de um terço das indústrias
da região ter realizado algum tipo de inovação
de produto ou de processos no período de 1994 a 1996. Embora
essas unidades representassem apenas 35% do número total,
o peso de sua participação econômica na região
é bastante significativo: cerca de 80% do Valor Adicionado
da indústria do Grande ABC originaram-se dessas unidades.
Ainda segundo os estudos, micro e pequenas indústrias da
região são responsáveis por apenas 14% do
Valor Adicionado total do setor industrial, enquanto que as grandes
geram 60% desse mesmo Valor Adicionado.
LIVRE
MERCADO contestou um vício do relatório: "Ao
ressaltar o um terço de indústrias que foram obrigadas
a recorrer a investimentos para enfrentar a globalização,
e só conseguiram porque de uma forma ou de outra se capitalizaram,
o estudo minimiza a grande maioria de 65% do universo produtivo
da região à margem do processo de inovação"
-- afirmou a reportagem. A dialética acadêmica que
o professor Jeroen Klink traduziu agora em forma de livro, lançado
em abril, confere selo de precisão ao posicionamento de
LIVRE MERCADO.
Produzida
pela DP& A Editora, A Cidade-Região é uma obra
de 224 páginas com várias citações
bibliográficas às análises de LIVRE MERCADO.
Jeroen Klink contextualiza o Grande ABC na dinâmica da globalização
e faz críticas também ao que chama de corte globalista
de projetos aprovados para vitaminar a economia local:
"Em
vários momentos, o incipiente regionalismo no Grande ABC
mostrou embutir semente de corte globalista. Os exemplos mais
claros são a aprovação de acordos regionais
referentes às leis de incentivos fiscais, a falta de se
chegar a um acordo para conter a competição municipal
com as alíquotas do imposto ISS e, mais particularmente,
algumas das estratégias urbanas do Cenário do Futuro
e da Carta do ABC que apontam a necessidade de se criar uma nova
centralidade na periferia da área metropolitana, baseada
no vigor de um terciário altamente competitivo e capitalizado.
Em vários momentos detectamos que a estrutura econômica
da região está ainda longe de apresentar um terciário
capitalizado e dinâmico que justifique, inclusive, ousadas
estratégias para agilizar sua dinamização
dentro de uma perspetiva de novas centralidades" -- escreve
Jeroen Klink.
LIVRE
MERCADO tem criticado a euforia com investimentos no setor de
comércio com a chegada de grandes redes de varejo. Entende,
entre outros motivos, que as administrações públicas
não prepararam arcabouço legislativo para amenizar
os efeitos negativos sobre os pequenos negócios. Também
a chegada de shopping centers foi marcada por equívocos.
Além de excesso e superposição de oferta
de lojas para uma região cuja massa de consumo se contrai
a cada ano, o que determinou o fechamento e a precarização
de vários centros de compra, o comércio tradicional
de rua foi apanhado no contrapé da falta de organização
sistêmica.
Enfim,
da mesma forma que no setor industrial o Grande ABC sofre com
a exclusão de investimentos vitais para a manutenção
de negócios, também no comércio e nos serviços
se vive de vácuos preocupantes. Jeroen Klink não
aborda a contraface do setor terciário tradicional na região,
mas envereda pela necessidade de o Grande ABC contar com rede
de suporte de serviços avançados e próximos
da base industrial. Algo que foi proclamado na edição
de abril pelo prefeito Celso Daniel, em entrevista de oito páginas
a LIVRE MERCADO.
Comedido,
Jeroen Klink só grafou uma vez a expressão guerra
fiscal. Sobre o propagandeado sistema de cluster, que teria vários
exemplares na região, todos contestados por LIVRE MERCADO
exatamente pela falta de sinergia entre pequenas, médias
e grandes indústrias e serviços ao longo da história
da economia regional, o professor do Imes evidencia com a sutileza
que lhe é peculiar que a especialidade que consagrou o
economista norte-americano Michael Porter é simplesmente
uma miragem dos mais afoitos.
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Matéria publicada na edição de maio de 2001
da revista LIVRE MERCADO.
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DANIEL LIMA é jornalista, escritor, diretor-executivo da
revista LIVRE MERCADO e analista econômico do IEME.
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