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| Como
humanizar as estatísticas * |
ANDRÉ MARCEL DE
LIMA** O
que a reluzente ONU (Organização das Nações
Unidas), a veterana Prefeitura de Santo André e o recém-lançado
IEME (Instituto de Estudos Metropolitanos) têm em comum?
Distintas na abrangência e no leque de propósitos,
as três organizações assemelham-se na busca
de referenciais socioeconômicos transparentes e fundamentados,
que sirvam de plataforma para vôos analíticos sérios.
Pouco
depois do lançamento do IEME pelo jornalista Daniel Lima
e pelo pesquisador Marcos Pazzini, da Target Marketing e Pesquisas,
a Secretaria de Desenvolvimento e Ação Regional
de Santo André reuniu Imprensa e representantes da sociedade
para apresentar o boletim trimestral Observatório Econômico,
concebido com suporte técnico do Centro Universitário
Fundação Santo André. Na mesma linha conceitual
do IEME, que traçou a radiografia socioeconômica
dos 55 principais municípios paulistas e agora se dedica
à exumação das finanças públicas
por meio do Índice de Eficiência Municipal, a missão
do Observatório Econômico é fornecer conteúdos
de desempenho social e econômico para avaliação
da realidade do Grande ABC e de Santo André no contexto
do Estado de São Paulo.
A
preocupação em lidar com estatísticas confiáveis
baliza as duas iniciativas. O Índice de Desenvolvimento
Econômico Equilibrado do IEME é definido com base
em dados oficiais para eliminar resquícios de subjetividade.
Os idealizadores do Observatório Econômico garantem
que a publicação vai se ater exclusivamente a fontes
insuspeitas e -- o que é ainda mais importante -- a sociedade
regional terá vez e voz na elaboração de
análises publicadas com base nas informações
coletadas. "Um produto como esse não se faz dentro
de quatro paredes, mas ao lado de empresas, sindicatos e demais
representantes da sociedade organizada" -- descreve o secretário
Jeroen Klink.
A
ponderação do executivo público corresponde
à antítese da linha seguida pelo pesquisador João
Batista Pamplona quando estava à frente das atividades
estatísticas da Agência de Desenvolvimento Econômico
do Grande ABC. Sem exercitar a saudável interface com a
sociedade, Pamplona produzia alquimias numéricas que contrastavam
com a realidade caótica de uma região que perdeu
39% de Valor Adicionado nos oito anos de governo FHC, além
de 140 mil empregos industriais com carteira assinada desde 1985.
A farra de números e interpretações caolhas
foi duramente combatida por LIVRE MERCADO. A inflexibilidade do
pesquisador para o diálogo terminou com sua demissão.
Não
é por acaso que a iniciativa inovadora no universo municipal
regional e brasileiro parte da pasta coordenada por Jeroen Klink,
professor do Imes (Centro Universitário de São Caetano)
e membro do quadro de conselheiros do IEME. Herança de
competência de Celso Daniel, o holandês naturalizado
Jeroen Klink roda o mundo em busca de novos referenciais de competitividade
regional, além de participar ativamente das discussões
sobre o Grande ABC. Foi em uma dessas viagens, à Nairóbi,
no Quênia, em novembro de 2002, que conheceu de perto os
esforços das Nações Unidas para formatar
o Índice de Governança Urbana (Urban Governance
Index), de cujo ranking internacional Santo André participou
em uma experiência piloto.
As
metodologias do brasileiro Índice de Desenvolvimento Econômico
Equilibrado e do internacional Índice de Governança
Urbana são parecidas, com atribuição de pesos
ponderados a variáveis de análise. A diferença
está na precisão e na simplicidade do exemplar nacional
em comparação à complexidade do estrangeiro.
No caso do IDEE, os 55 melhores municípios paulistas são
interpretados com base em dados per capita de Potencial de Consumo,
que responde por 35% do indicador, Valor Adicionado (com peso
de 25%), Inclusão Digital (com 15%), IPVA (responsável
por 15%) e ISS com 10%. Já no UGI, na sigla em inglês,
cada uma das cinco variáveis é formada por vários
componentes que recebem pesos-ponderados proporcionais ao grau
de importância.
Na
variável Efetividade, são levados em conta componentes
como receitas públicas per capita, alocação
de recursos para serviços básicos e nível
de transferências governamentais.
Na
Equidade, os componentes são contigente de chefes de família
abaixo da linha da pobreza, acesso à água, acesso
à rede de esgoto e presença de conselhos públicos
dedicados à mulher.
Em
Participação entram vetores como compreensão
de textos, quantidade de associações civis a cada
10 mil habitantes e participação da população
em projetos públicos.
Em
Accontability, termo que pode ser traduzido como a capacidade
da gestão pública de prestar contas com transparência
a qualquer momento, analisam-se fatores como o grau de independência
do Município em relação a instâncias
governamentais superiores e a existência ou não de
publicações formais sobre contratos, orçamentos
e contas públicas.
Na
variável Segurança, o índice da ONU leva
em conta mortalidade infantil, planos ambientais, políticas
de controle criminal, inacessibilidade de áreas pela polícia,
políticas de violência doméstica e vítimas
de violência em geral.
A
quantidade de componentes e a generalidade de muitos aspectos
de análise levaram conselheiros da ONU a apontar reparos
necessários no índice. No sumário executivo
da última reunião, realizada em maio deste ano,
lê-se como sugestão de melhoria a redução
no número de indicadores, entre outras. Evitar o embaralhamento
de informações não articuladas foi a preocupação
inicial dos idealizadores do IEME, que guardaram munição
para novos indicadores em vez de concentrar tudo no índice
inicial do Desenvolvimento Econômico Equilibrado.
Em
sintonia -- Indicadores publicados na primeira edição
do Observatório Econômico reforçam posicionamentos
e análises concebidas por LIVRE MERCADO e a newsletter
Capital Social Online. A constatação de que a participação
do setor metal-mecânico regional na geração
de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias
e Serviços) caiu quase cinco pontos percentuais no curtíssimo
período entre 2001 e 2002 endossa a urgência em se
desenvolver matriz econômica alternativa.
O
segmento metal-mecânico foi responsável por 32,14%
do ICMS regional em 2001, participação que caiu
para 27,63% em 2002. O patamar ainda é quase três
vezes maior que a média do Estado, de 10,32% em 2002, mas
não recomenda comodismo porque a queda regional tem sido
vertiginosa a bordo da evasão industrial e da descentralização
dos investimentos automotivos.
Com
a retirada de empresas principalmente rumo ao Interior do Estado
e o deslocamento de plantas automotivas em regiões tão
longínquas quanto Bahia e Rio Grande do Sul, tornou-se
urgente planejar o desenvolvimento regional em novas bases. O
duplo desafio é estancar a hemorragia de recursos públicos
e garantir opções de reinserção profissional
ao exército de desempregados.
Na
mesma listagem de distribuição de ICMS, o boletim
Observatório Econômico aponta que a participação
do complexo químico foi de 39,34% em 2002, pouco menor
que os 40,14% de 2001. A relativa estabilização
do setor responsável por fatia expressiva da economia regional
é mais um argumento em favor do conceito Nosso Futuro É
de Plástico, lançado por LIVRE MERCADO.
Previsivelmente
para a região que passou por lipoaspiração
industrial na década de 90, o Observatório mostra
que o setor terciário é responsável pela
maior parte dos empregos formais no Grande ABC. Comércio
e serviços somaram 52,64% dos empregos com carteira assinada
em 2001, de acordo com a Relação Anual de Informações
Sociais (RAIS). A indústria foi responsável por
37,96%, percentual aparentemente satisfatório mas que perde
brilho diante da realidade prática do mercado de trabalho
brasileiro.
A
informalidade responsável por parcela significativa das
ocupações no País é muito mais representativa
no terciário que na indústria. Isso significa que
um levantamento que levasse em conta empregos formais e informais
retrataria participação industrial muito mais diluída
no bolo total.
Além
disso, a concentração de trabalhadores no comércio
e na indústria não é fenômeno digno
de ser comemorado. Como se sabe, o Grande ABC está longe
de um necessário terciário de alto valor agregado.
Pelo contrário, o que se viu por aqui foi verdadeira carnificina
de pequenos negócios empinados por desempregados industriais
espremidos por grandes redes comerciais magnetizadas por riqueza
acumulada em décadas de vacas gordas que não voltam
mais.
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Matéria publicada na edição de agosto de
2003 da revista LIVRE MERCADO, com circulação predominantemente
no Grande ABC.
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André Marcel de Lima é jornalista especializado
em metropolização e membro-fundador do IEME.
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