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| Grandes
cidades, grandes problemas * |
André
Marcel de Lima**
Os
problemas dos grandes centros urbanos e das regiões metropolitanas
brasileiras nunca foram tão avaliados, debatidos e discutidos
como nos últimos tempos. Premidas por um conjunto de condicionantes
financeiras e socioeconômicas que vão do fim da correção
inflacionária e da adoção da Lei de Responsabilidade
Fiscal à explosão das mazelas sociais, lideranças
públicas recorrem à orientação de
especialistas nacionais e internacionais no afã de jogar
luzes sobre o beco sem saída em que se converteram as maiores
cidades e regiões brasileiras.
Uma
prova de que o assunto entrou na agenda das grandes preocupações
nacionais está no ritmo acelerado com que encontros são
promovidos para debater a questão: pelo menos três
eventos de porte abordaram a sinuca de bico dos grandes centros
urbanos nos últimos meses, apenas na Grande São
Paulo.
O
seminário Retratos Metropolitanos trouxe para o Grande
ABC em fins de outubro experts como Fernando Abrucio -- professor
doutor da PUC São Paulo e da Fundação Getúlio
Vargas -- e representantes de várias regiões metropolitanas
do País. As discussões foram transformadas em Reportagem
de Capa de novembro de LIVRE MERCADO.
O
seminário internacional Grandes Cidades: Desafios Gerenciais
e Financeiros reuniu no auditório da paulistana Fecap (Fundação
Escola de Comércio Álvares Penteado) o secretário
de Finanças de São Paulo, João Sayad, o ex-ministro
Maílson da Nóbrega e o consultor do Senado Marcos
Mendes, entre outros especialistas nacionais e internacionais,
no início de novembro.
E
em dezembro, o evento Grandes Metrópoles, Desafios Para
o Futuro reuniu debatedores como o economista José Alexandre
Scheinkman no auditório do Ibmec (Instituto Brasileiro
de Mercado de Capitais).
Não
é à toa que a sustentabilidade de centros urbanos
entrou para a ordem do dia. O tema afeta diretamente a vida de
boa parte dos cidadãos uma vez que as regiões mais
desenvolvidas e caóticas do País concentram vasta
parcela da população. Nas 305 cidades das 23 regiões
metropolitanas instituídas vivem 68 milhões de brasileiros,
população equivalente à da Itália
ou Espanha.
Além
dessa relação direta, o tema tornou-se obrigatório
por razões estratégicas: ao compreender os motivos
que levaram os centros urbanos a se tornar verdadeiras usinas
de mazelas sociais, dirigentes públicos e privados combatem
ervas daninhas crescidas na sombra da falta de planejamento e
evitam que os mesmos desvios comprometam a qualidade de vida das
cidades em fase de crescimento -- os grandes centros do amanhã.
A abordagem é corretiva e preventiva, portanto.
Marginalidade
e exclusão -- Centros urbanos problemáticos não
são privilégio brasileiro ou de países subdesenvolvidos.
Também em nações de Primeiro Mundo como Estados
Unidos, Inglaterra e Espanha as regiões mais antigas, industrializadas
e densamente povoadas recebem atenção especial de
governantes e das comunidades locais por comportarem marginalidade
e exclusão social em doses muito acima da média.
Mas no Brasil o grau de complexidade é muito superior,
inclusive em relação aos pares do Terceiro Mundo,
por causa das peculiaridades tupiniquins de fundo demográfico,
macroeconômico e relacionadas ao modelo nacional de distribuição
tributária. A sobreposição de fatores torna
a condição das grandes cidades e regiões
metropolitanas especialmente dramática no Brasil.
Os
grandes centros urbanos brasileiros são proporcionalmente
mais inchados porque a história recente do País
é marcada por surto migratório sem paralelo no panorama
mundial. Em 1940, três em cada 10 brasileiros viviam nas
cidades; 60 anos depois, oito em cada 10 brasileiros moram nas
cidades. Só a Capital de São Paulo saltou de um
milhão de habitantes em 1950 para quase 11 milhões
50 anos depois. O êxodo rural foi importante para o País
porque as economias mais fortes são predominantemente industriais
e de serviços avançados, não agrícolas.
"A
urbanização representa medida eficiente para checar
o estágio evolutivo de um país. Quanto mais urbanizado,
mais rico" -- explica o economista José Alexandre
Scheinkman, o brasileiro de maior expressão no meio acadêmico
internacional, professor da prestigiada universidade norte-americana
de Princeton.
Entretanto,
os efeitos colaterais da urbanização vertiginosa
são agudos porque metrópoles absorvem mão-de-obra
oriunda de outras regiões segundo lógica darwiniana:
quem atinge o Olimpo da inserção profissional usufrui
do melhor dos mundos, porque os centros urbanos oferecem muito
mais opções culturais, gastronômicas, de lazer
e entretenimento que as regiões periféricas. "A
vida pulsa mais forte nas cidades" -- considera Alexandre
Scheinkman.
Em
compensação, os excluídos do mercado de trabalho
descem ao inferno porque o custo de vida nos centros urbanos é
muito maior. Some-se a convivência na mesma área
geográfica entre incluídos e excluídos ao
sentimento de anonimato inerente às grandes cidades e tem-se
a receita do caldo de cultura da criminalidade que corrói
as bases das regiões brasileiras mais desenvolvidas.
A
inserção tardia do Brasil no mercado mundial atingiu
em cheio as regiões que tiveram processo urbano acelerado
com a chegada de multinacionais e de grandes indústrias
nacionais financiadas com recursos públicos durante a segunda
metade do século XX. De regiões metropolitanas formalmente
constituídas como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba
a conurbações urbanas de feições metropolitanas
como o Grande ABC e o aglomerado do nordeste do Rio Grande do
Sul, não há região industrializada que não
tenha acusado sérias perdas socioeconômicas com a
adequação do parque produtivo brasileiro às
melhores práticas internacionais. E é fácil
compreender os motivos.
Durante
décadas, indústrias que foram pivôs naturais
dos centros urbanos brasileiros absorveram milhões de retirantes
intra e interestaduais em processos produtivos não automatizados.
O distanciamento econômico do Brasil em relação
ao mundo foi um estímulo à acomodação
industrial que beneficiou um universo gigantesco de trabalhadores
eminentemente operacionais vindos das regiões periféricas.
Que
industrial investiria em robôs e processos inteligentes
para ganhar produtividade num ambiente marcado pela convivência
pacífica com desperdícios e custos elevados de produção,
uma vez que os consumidores eram obrigados a se contentar com
produtos made in Brasil? Além disso, as tarifas de importação
de bens de capital desestimulavam até os industriais mais
arrojados.
Quando
a globalização chegou, milhares de indústrias
fecharam e outras milhares foram obrigadas a adotar tecnologias
racionalizadoras de processos para eliminar de uma só vez
as ineficiências cristalizadas ao longo de anos. O desemprego
industrial subiu à estratosfera, desestabilizando ainda
mais o equilíbrio socioeconômico das grandes cidades.
E, pelo menos até agora no Brasil, os empregos criados
no setor terciário mostram-se insuficientes para absorver
a contento ex-operários que, quando encontram vagas, deparam-se
com salários bem menores.
Partilha
desigual -- Além do efeito-sanfona causado por concentração
abrupta seguida de corte repentino na mão-de-obra industrial
urbana, os grandes centros brasileiros são prejudicados
por modelo nacional de distribuição de recursos
claramente desfavorável às regiões mais populosas
e que enfrentam grandes demandas sociais. A observação
é de Marcos Mendes, consultor legislativo do Senado federal
e membro do Instituto Fernand Braudel.
Marcos
Mendes explica que a Constituição de 1988 selou
acordo segundo o qual municípios pequenos seriam financiados
com receitas federais, enquanto as cidades médias e grandes
baseariam a maior parte da sustentabilidade financeira em receitas
próprias, oriundas de impostos como IPTU (Imposto Predial
e Territorial Urbano) e ISS (Imposto Sobre Serviços), além
de transferências estaduais de ICMS (Imposto Sobre Circulação
de Mercadorias e Serviços).
O
nobre propósito por trás desse sistema de partilha
hobbinwoodiano seria desconcentrar a riqueza nacional de modo
que habitantes de cidades menores e mais afastadas pudessem ter
melhores condições de vida nos locais de origem.
Entretanto, o que se viu na prática, alerta Marcos Mendes,
foi o sobrefinanciamento de cidades muito pequenas e o subfinanciamento
dos grandes municípios.
O
especialista exibe tabela para mostrar que o tamanho da receita
per capita dos municípios brasileiros é inversamente
proporcional ao contingente populacional. Cidades com até
três mil habitantes têm receita anual média
equivalente a R$ 614 por habitante, enquanto em localidades com
mais de 300 mil habitantes a receita gira em torno de R$ 300 por
habitante. Além de prejudicar municípios mais populosos
com reduzida fatia do bolo para dar conta das crescentes demandas
sociais, a partilha consagrada pela Constituição
é um convite ao desperdício de recursos públicos
-- segundo Marcos Mendes.
"Municípios
com até três mil habitantes não têm
escala populacional para produzir serviços públicos.
Não pode ter escola de 5ª a 8ª série,
por exemplo, porque vai faltar aluno. Os recursos federais que
fluem para uma infinidade de municípios brasileiros acabam
virando salário de prefeitos, vereadores e do funcionalismo
público em geral" -- alerta o consultor do Senado,
que ressalta outra distorção gerada pelo sistema:
as receitas das grandes cidades oscilam de acordo com o ritmo
da atividade econômica, enquanto municípios pequenos
dispõem de recursos estáveis, repassados pela Federação
em forma de FPM (Fundo de Participação dos Municípios).
"Mais de 50% da receita total de São Paulo é
proveniente de ICMS (Imposto Sobre Circulação de
Mercadorias e Serviços) e ISS (Imposto sobre Serviços).
Esses impostos são altamente aderentes ao nível
de crescimento econômico" -- expõe o consultor.
Embora
reconheça ser muito difícil mudar o sistema sacramentado
na Constituição, Marcos Mendes não vê
solução diferente da mobilização política
de prefeitos das grandes cidades brasileiras para tentar reverter
o desequilíbrio da partilha fiscal. "Sempre se fala
que o Congresso vai resistir a mudanças em favor das grandes
cidades porque a bancada do Norte e do Nordeste é maior.
No entanto, mesmo no Norte e no Nordeste existem grandes cidades
com problemas muito parecidos com os enfrentados por São
Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e outras Capitais do Sul e
Sudeste" -- observa Marcos Mendes.
O
consultor do Senado lista outros obstáculos tributários
que atrapalham a trajetória das grandes cidades rumo à
qualidade de vida e à sustentabilidade econômico-financeira.
O segundo é a guerra fiscal municipal. Como se sabe, o
ISS é pago ao Município onde está localizada
a sede da empresa, não onde o serviço é efetivamente
prestado. Pequenos municípios no entorno de grandes cidades
aproveitam-se do princípio de origem para acenar com alíquotas
reduzidas. Resultado: as grandes cidades proporcionam infra-estrutura
para prestação de serviços, mas não
usufruem da contrapartida do imposto, desviado para os vizinhos.
"Prejudicadas
pela partilha federal, as grandes cidades não conseguem
reforçar o caixa com o ISS por conta da guerra fiscal entre
municípios. Em vez de aumentar, são obrigadas a
reduzir alíquotas para não perder empresas"
-- sintetiza Marcos Mendes.
"Felizmente o problema da guerra fiscal municipal está
a meio caminho da solução" -- confia o especialista,
referindo-se à emenda constitucional que tramita no Congresso
para estancar a sangria dos grandes municípios. A emenda
estabelece alíquota mínima de 2% de ISS e, além
disso, leva em conta o chamado princípio de destino, segundo
o qual o imposto seria cobrado no Município onde o serviço
é prestado, não mais na cidade onde está
inscrita a sede da empresa.
Outro
entrave listado por Marcos Mendes é representado pela elevação
brutal da carga tributária federal nos últimos anos.
A carga tributária federal cresceu 28% em termos reais
desde 1990. Foi ampliada de 17% para 21,5% do PIB (Produto Interno
Bruto) em 10 anos. No mesmo período a carga estadual aumentou
pouco e a municipal ficou em 1,2% do PIB. Sobrecarregado por pesado
fardo federal -- composto inclusive por impostos de constitucionalidade
duvidosa como a CPMF (Contribuição Provisória
sobre Movimentações Financeiras) que, de provisória,
não tem nada -- o brasileiro não quer nem ouvir
falar em aumento de impostos municipais. "O governo federal
saiu na frente na corrida pela arrecadação de impostos"
-- destaca Marcos Mendes. "No momento em que os governos
municipais das grandes cidades precisam arrecadar mais recursos,
não conseguem porque o contribuinte é um só"
-- esclarece.
Marcos
Mendes tem proposta polêmica para equilibrar o arranjo tributário
fortemente concentrado na esfera federal. A idéia é
permitir, por meio de legislação específica,
desconto de parte do Imposto de Renda para compensação
em forma de pagamento adicional de IPTU. "A receita municipal
se ampliaria sem sobrecarregar ainda mais o contribuinte, pois
haveria apenas uma troca de guichê" -- sugere o consultor
do Senado federal.
Além
de percalços institucionalizados, as grandes cidades brasileiras
se deparam com fase terminal de um longo processo de irresponsabilidade
fiscal. Durante décadas homens públicos não
precisaram se preocupar em equalizar a relação entre
receitas e despesas porque a inflação vertiginosa
maquiava a gastança. "Ao longo dos últimos
30 anos, o que as grandes cidades mais fizeram foi se endividar,
passando a conta para o governo federal de forma direta ou indireta"
-- comenta Marcos Mendes. "De bancos estaduais a emissão
de títulos públicos fraudados, havia uma série
de mecanismos de financiamento que deixaram os prefeitos das grandes
cidades acomodados" -- completa o consultor.
Com
a interrupção da inflação galopante
em 1994, a conta de desmandos administrativos históricos
começou a ganhar contornos mais claros. A dívida
da Capital paulista, por exemplo, gira em torno de R$ 20 bilhões,
montante que supera em duas vezes o orçamento anual de
R$ 9,5 bilhões. É por estarem afundadas em dívidas
acumuladas ao longo de vários mandatos que muitas administrações
municipais posicionam-se contrariamente à Lei de Responsabilidade
Fiscal, que pune até com pena de reclusão administradores
públicos que gastam mais do que arrecadam. Até a
petista Marta Suplicy, integrante de um partido que sempre defendeu
racionalidade nos gastos públicos, enxerga a LRF com reservas
por sentir-se engessada à frente da maior cidade da América
Latina.
Marcos
Mendes não citou, mas o sistema de redistribuição
de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias
e Serviços) é outro elemento que prejudica as grandes
cidades paulistas. Como se sabe, o ICMS é redistribuído
pelo Estado às cidades de acordo com critério que
privilegia a variável produção industrial
em detrimento da variável população. Quanto
mais industrializado é o Município, maior a cota
do ICMS à qual tem direito, independentemente do tamanho
da população. O critério é claramente
desfavorável às regiões metropolitanas e
aos grandes centros urbanos, que mais perderam produção
industrial relativa nos últimos anos por conta da desconcentração
motivada em grande medida pela guerra fiscal.
Além
disso, remanescem grandes contingentes populacionais cada vez
mais dependentes de serviços públicos. "A maior
parte dos recursos do ICMS não vai para as regiões
que concentram grande parcela da população. E normalmente
onde vive a maior parte da população é onde
existe a maior parte de problemas, que obviamente demandam mais
recursos públicos" -- afirma Fernando Abrucio, professor
da PUC e da Fundação Getúlio Vargas.
O
secretário de Finanças de São Paulo, João
Sayad, e o ex-ministro do Planejamento e da Fazenda, Maílson
da Nóbrega, protagonizam a discussão mais acirrada
sobre os motivos que levaram cidades como São Paulo a acumular
dívidas estratosféricas. Para João Sayad,
a grande vilã chama-se taxa de juro. "Juros fixados
em patamares muito mais elevados que a capacidade de crescimento
da economia do Estado e do País são a origem dos
nossos problemas financeiros" -- afirma Sayad. "A taxa
da dívida municipal de R$ 20 bilhões está
fixada em 8% reais por ano. Ou o Brasil cresce acima de 8% ou
quem emprestou espera tomar posse do patrimônio de quem
tomou emprestado" -- reclama o secretário.
Maílson
da Nóbrega diz ficar surpreso com tamanho simplismo de
raciocínio e acusa o secretário de Finanças
de confundir causa e efeito. O ex-ministro lembra que os juros
não são elevados por acaso, mas refletem o desequilíbrio
fiscal nacional derivado de um conjunto de fatores macroeconômicos
que vão da exaustão do modelo de desenvolvimento
baseado no protecionismo e da concessão generalizada de
subsídios creditícios até os desatinos fiscais
da Constituição de 1988.
"A
estrutura de despesas no Brasil é absolutamente incompatível
com a gestão fiscal saudável e o endividamento sustentável.
A percepção deste doentio regime fiscal está
na origem do alto prêmio de risco que se atribui ao Brasil.
Temos uma estrutura fiscal que nos coloca permanentemente sob
risco. A taxa de juro reflete essa realidade: agrava o problema,
mas não é a causa. É preciso atacar as causas,
e não encontrar saídas para os efeitos" --
sustenta.
Maílson
da Nóbrega comprova a fragilidade financeira do País
com números. Diz que o Brasil gasta 22% do Produto Interno
Bruto com folha de salários públicos e Previdência
Social inchada com vasta casta de aposentados privilegiados. E
que quando se somam às despesas de pessoal vinculações
à saúde, educação e aos gastos com
Legislativo e Judiciário, o Brasil tem estrutura de despesa
obrigatória que chega a quase 30% do PIB. "São
despesas sem possibilidade de redução. Todas representam
direitos adquiridos e obrigações instituídas
pela Constituição" -- explica.
Como
se observa, os problemas das grandes cidades brasileiras têm
origens demográficas, em alterações microeconômicas
ditadas pela globalização, no quadro macroeconômico
e em aspectos intrincados de distribuição de recursos
federais e estaduais. A discussão, embora acalorada, apenas
começou com o aperto promovido pela moralizadora Lei de
Responsabilidade Fiscal.
Metrópole
sem rosto -- A falta de cooperação entre municípios
que padecem dos mesmos males é mais um problema que dificulta
a gestão administrativa e financeira dos grandes centros
urbanos brasileiros. Se cidades vizinhas que compõem as
23 regiões metropolitanas brasileiras fossem unidas de
fato, e não apenas de direito compulsório estabelecido
pela Constituição, seria muito mais fácil
contratar financiamentos voltados a obras de infra-estrutura e
serviços sociais. Quem adiciona esse ingrediente no caldeirão
de complexidade dos grandes centros urbanos brasileiros é
o economista José Roberto Afonso, superintendente do BNDES
(Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) responsável
pela área de Assuntos Fiscais e Emprego.
"As
regiões metropolitanas brasileiras não existem como
entes de governo da mesma forma que as esferas municipal, estadual
e federal. Não há órgão que responda
política e administrativamente pelos aglomerados urbanos
e isso dificulta a concessão de crédito" --
explica o executivo público, referindo-se à ausência
de identidade jurídica das regiões metropolitanas
do País, a grande maioria criada durante o regime militar.
"O
BNDES tem interesse em conceder empréstimos que tenham
visão metropolitana, mas não existe a figura de
um credor metropolitano no sentido de oferecer garantias em conjunto,
e isso precisa ser debatido. Nos deparamos com a ausência
de uma pessoa jurídica, de uma instituição
que represente a metrópole" -- explica o executivo
do maior banco público de fomento do País.
José Roberto Afonso afirma que a informalidade institucional
das regiões metropolitanas brasileiras está na contramão
das tendências internacionais.
O
economista comenta que em países avançados que seguem
sistema federativo como o Brasil existem instâncias intermediárias
de governo que pleiteiam créditos em nome das cidades envolvidas.
"Há em países como os Estados Unidos figuras
de governos especiais que são instituições
reconhecidas" -- afirma.
No
Brasil imperam formatos integracionistas de cunho voluntarista,
carentes de identidade jurídica indispensável à
concessão controlada e responsável de financiamentos.
"É verdade que há inúmeras ações
intermunicipais pelo Brasil afora, mas são de caráter
voluntário. Nós temos por aqui a figura dos consórcios,
cuja atuação é setorial. Mas são vulneráveis.
Os consórcios tendem a funcionar até que haja uma
mudança mais drástica no comando político
da prefeitura que lidera o processo" -- observa.
A
fragmentação jurídico-institucional das regiões
metropolitanas brasileiras é exemplificada pelo economista
com a exposição da maior de todas, a Grande São
Paulo de 39 municípios e quase 18 milhões de habitantes.
"O BNDES tem vários financiamentos em curso na Região
Metropolitana de São Paulo, porque a cada prefeitura corresponde
um projeto distinto" -- afirma. "Na medida do possível,
o banco procura pensar projetos de maneira integrada, como o do
Veículo Leve sobre Rodas que envolve as prefeituras de
toda a região" -- ressalva.
O
fato de a maior parte das metrópoles brasileiras ter sido
formatada artificialmemnte pelo regime militar, como instrumento
para expandir mecanismos de controle sobre as áreas de
maior densidade populacional e econômica em torno das Capitais,
não deve servir de desculpa para justificar escassez de
esforços voltados para a personificação jurídica
necessária à contratação conjunta
de créditos em organismos como o BNDES. Afinal, já
se vão mais de 15 anos desde que a ditadura deu lugar à
democracia, período mais do que suficiente para consolidação
de ações integradas que transformem as regiões
mais ricas e caóticas do País em entidades verdadeiramente
autônomas, com condições de avocar não
apenas linhas conjuntas de crédito, mas sobretudo o papel
planejador e executor de ações coordenadas consagradas
pela Constituição.
*
Matéria publicada na edição de janeiro de
2002 da revista LIVRE MERCADO.
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André Marcel de Lima é jornalista especializado
em metrópoles.
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