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| Estamos
perdendo mobilidade social* |
DANIEL
LIMA**
Quem
ganha pelo menos R$ 4 mil de salário com carteira assinada
no Grande ABC? Se você respondeu sim, considere-se privilegiado.
Mas tome cuidado, porque pode ser espécie de mico-leão
dourado, isto é, corre risco de extinção.
De cada 100 trabalhadores registrados em empresas sediadas na
região, apenas 5,57 estão na lista dos assalariados
cujos contra-cheques registram, em valores brutos, pelo menos
R$ 4.001 de salário, isto é, acima de 20 salários
mínimos. De janeiro de 1995 a dezembro do ano passado,
esse universo de privilegiados encolheu assustadoramente no Grande
ABC: eram 60.977, ou 11,85% da massa de trabalhadores, e passaram
para 29.124. O que dava para encher duas vezes o Pacaembu foi
reduzido a dois estádios Bruno Daniel.
A
precarização do trabalho formal no Grande ABC e
o fim de um ciclo de mobilidade social ascendente acompanham simetricamente
a queda da riqueza industrial fortemente abatida na Era FHC. O
desaparecimento de metade dos salários de classe média
é uma das pontas do intrincadíssimo novelo de complicações
sociais e econômicas derivadas da abertura mal planejada
da economia nacional e que atingiu em cheio o parque automotivo
do Grande ABC, gênese da estrutura socioeconômica
da região.
Sem
exagero, o fato é que a classe média do Grande ABC
deixou o paraíso para ingressar no inferno. A redução
à metade dos assalariados bem-pagos é apenas uma
porta entreaberta do quadro de proletarização do
mercado de trabalho formal na região. No outro extremo
de carteiras assinadas estão os trabalhadores de até
três salários mínimos, ou de até R$
600 por mês em valores de hoje. Em 1994 eles representavam
apenas 18,13% do universo de assalariados formais da região,
com 93.305 postos de trabalho. Sete anos depois do governo FHC,
saltaram para 188.044 trabalhadores, ou 36,01% do contingente
de assalariados formais.
Queda
de salários rechonchudos e inchaço da faixa de renda
reduzida são a prova mais evidente da perda de empregos
industriais substituídos por empregos nos setores de comércio
e serviços. Também testemunham que uma região
multiplicadora de evolução social nos tempos de
economia fechada e protegida tornou-se encalacrada.
Os
últimos sete anos foram os mais dramáticos para
o Grande ABC. Entre janeiro de 1995 e dezembro de 2001 desapareceram
da contabilidade das empresas da região 83.209 empregos
industriais com carteira assinada, ou 30% dos postos de trabalho
— eram 276.612 em 1994, contra 193.403 em 2001. Em contraposição,
o terciário ganhou mais de 90 mil postos de trabalho —
eram 238 mil em 1994 e somavam 328.705 em dezembro do ano passado.
O
salário médio e os agregados de proteção
social oferecidos pela maioria das indústrias para contrabalançar
a degradação de serviços públicos
como transporte, saúde e educação nem de
longe são sustentados pelo comércio e pelos serviços.
Os empregos que se criam no Grande ABC são prevalecentemente
de até três salários mínimos. Já
os empregos que se perdem e que não são repostos
são sistematicamente acima de 20 mínimos.
Por
isso mesmo, quando se compara apenas a quantidade dos empregos
com carteira assinada no Grande ABC no último ano do governo
Itamar Franco e no penúltimo de Fernando Henrique Cardoso,
recomenda-se leitura atenta. Em 1994 o Grande ABC contava com
514.551 empregos formais, dos quais 276.612 do setor industrial,
ou seja, 53,75%. Sete anos depois, passou a contar com 522.108
empregos formais. O aumento quantitativo discreto de 1,46% é
armadilha que esconde a erosão dos empregos industriais,
que foram reduzidos a 193.403 postos de trabalho em 2001, ou a
apenas 38,11% do total.
Os
efeitos no mercado de trabalho de sete anos do governo FHC até
2001 são subprodutos da queda da riqueza industrial em
proporção jamais vivenciada pelo Grande ABC. Em
1994, último ano do presidente Itamar Franco, o Grande
ABC contava com deflacionados R$ 37,5 bilhões de Valor
Adicionado, principal indicador de geração de riqueza
na indústria de transformação. Em dezembro
do ano passado registrava apenas R$ 25 bilhões, ou seja,
uma queda de 34%.
O
ranking do Índice de Participação dos Municípios
no ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias
e Serviços), fortemente influenciado pelo Valor Adicionado,
também dava as cartas da debacle econômica: o Grande
ABC caiu de 10,37% para 8,29% no VA do Estado de São Paulo,
ou seja, sofreu rebaixamento de 20,05%.
Com
essa sincronia de problemas, seria demais esperar que o mercado
de trabalho de qualidade ficasse incólume e que o mergulho
da massa salarial não provocasse fissuras na ascensão
social. As consequências socioeconômicas são
visíveis. Reparem como o mercado imobiliário teve
os preços atingidos em cheio. Vejam como há mais
competidores de pequeno porte nas áreas de comércio
e serviços em busca de clientes. Proliferam mercearias,
bares, padarias, açougues, mercadinhos, cabeleireiros,
pizzarias, escritórios de contabilidade, motoboys, empresas
de segurança — enfim, tudo que não exija muito
capital, tudo que caiba nas indenizações trabalhistas
ou mesmo em empréstimos pessoais mais modestos.
Exemplos
não faltam para diagnóstico que dispense inclusive
teses econômicas. É latente a dificuldade de o Grande
ABC conviver com a queda econômica. A região se parece
com um classe média-média que de repente se viu
obrigado a cortar despesas para fazer frente à queda dos
vencimentos. A proletarização salarial da região
ainda não atingiu os piores níveis nacionais, mas
a diferença que separava o Grande ABC do restante do País
já não é tão larga. Em 1994 a Região
Sudeste, formada pelos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro,
Espírito Santo e Minas Gerais, registrava 36,90% dos assalariados
com vencimentos até três salários mínimos.
O índice de trabalhadores formais do Grande ABC nessa mesma
faixa de rendimentos era a metade — 18,13%. Sete anos depois,
enquanto a média de três SM do Sudeste subia para
49,73%, numa variação de 32,50%, o Grande ABC saltava
para 36,01%. A diferença de 18,77 pontos percentuais caiu
para 13,72 pontos percentuais.
A
conclusão é simples: a velocidade da precarização
salarial do Grande ABC é mais intensa do que a principal
macrorregião nacional. A média nacional de participação
dos vencimentos até três salários mínimos
no conjunto dos trabalhadores formais é de 55,61%, contra
41,87% registrados em 1994.
Como
o Grande ABC improvisou de sopetão a roupa econômica
do industrial para o comercial, a reboque do massacre da abertura
econômica, muitos cadáveres tombaram pelo caminho.
O despreparo técnico para o gerenciamento do próprio
empreendimento, a concorrência nem sempre leal das grandes
corporações, o desamparo do Poder Público
no planejamento e na ocupação dos espaços
comerciais, tudo isso e mais o quadro macroeconômico contribuíram
para a elevação do índice de mortalidade
das empresas. Cada empresa fechada significa um roteiro de desilusão,
de consequências psicossociais que ajudam a compreender
o rebaixamento da qualidade de vida na região.
Conceito
equivocado -- Por isso é anacrônico e claramente
avocativo e autobajulativo o conceito de mobilidade social propagado
por um sociólogo da fama internacional, atual presidente
do Brasil, corroborado por outro, menos conhecido e seguidor do
primeiro, o professor uspiano José de Souza Martins. Mobilidade
social não pode ser consagrada como idéia de afirmação
de um modelo econômico que, todos sabem e sentem, se converteu
em falácia.
Dizer
que o ex-retirante e ex-metalúrgico Lula da Silva, presidente
eleito do Brasil, é generalização da mobilidade
social brasileira nestes tempos de escaladas descendentes de salários
formais e de inchaço da informalidade, do desemprego, do
subemprego e do empreendedorismo autônomo de subsistência
é no mínimo um oportunismo semântico e dialético
que cala fundo apenas nos incautos. A mobilidade social no Brasil
de estagnação econômica e de fragilização
social já há duas décadas é tremenda
mistificação. Ou por acaso o Brasil não é
o 56º colocado no ranking global de carestia e 46º no
de competitividade?
Lula
da Silva é presidente do Brasil não porque seja
fruto de mobilidade social, da mesma forma que Vicentinho Paulo
da Silva virou deputado federal e Paulo Pereira da Silva presidente
da Força Sindical, entre tantos exemplos. Lula chegou à
Brasília porque é prova incontestável do
tipo de rebento social que mais aflora neste País -- a
mobilidade corporativa.
A
despeito de todas as qualidades pessoais que o colocam inclusive
a salvo de depredadores oportunistas que tentam desqualificá-lo
só porque não frequentou bancos universitários
reprodutores de conhecimentos compartimentados, esse Lula da Silva
que até os sete anos de idade não comera um pedaço
de pão sequer porque se alimentava de café preto
e de farinha de mandioca, esse Lula é um filhote bem nutrido
da mobilidade corporativa de uma Nação construída
pelo colonialismo hierarquizador. Exatamente desde que os portugueses
desembarcaram no Brasil com seus espelhinhos, seus cléricos,
seus dísticos e uma voracidade incomum em saquear as riquezas
nacionais.
Tivesse
continuado a vidinha de metalúrgico comum, como milhares
de companheiros que seguiram sua rebeldia e liderança no
final dos anos 70, Lula da Silva teria se perdido nas brumas do
passado. Como aqueles milhares de metalúrgicos que o ajudaram
a construir um movimento corporativo em contraponto ao seletivismo
social das elites, Lula não passaria de um classe média-baixa
porque é isso que se vê aos mangotes desde que o
governo Fernando Henrique Cardoso promoveu a mais insidiosa e
acelerada abertura econômica à qual uma área
nacional poderia resistir -- o Grande ABC frontalmente violentado
pela deserção industrial a reboque da chegada do
capital internacional privilegiado pelo rebaixamento de alíquotas,
protegido pela discriminação às autopeças
nacionais e despedaçado pela sobrevalorização
da moeda, entre tantas epidemias macroeconômicas que atingiram
seu organismo e afunilaram sua classe média.
Não
fosse Lula da Silva ser o que todos sabem que é -- um homem
carismático, absorvedor de conhecimentos, hábil
no aprofundar de suas picadas nos guetos corporativistas primeiro
de operários e depois de intelectuais e políticos
de carreira --, a ascensão ao Palácio do Planalto
não passaria de miragem. Mas longe está de expressar
a subida social preconizada porque as ramificações
do poder dependem intrinsecamente de habilidades pessoais muitas
vezes, ou na maioria dos casos, em contraponto ao desmanche desenvolvimentista.
Principalmente para quem é de oposição político-administrativa.
Considerar
o presidente eleito generoso fruto de mobilidade social em um
suposto País de justiça social, de cidadania, de
desenvolvimento econômico sustentável, um País
igualitário nas oportunidades, tudo isso não passa
mesmo de um jogo de expressão. Afinal, como pode reivindicar
tantos troféus sociais e econômicos um Brasil que
está em 74º lugar em matéria de abertura comercial,
segundo garante a Fundação Heritage, de Washington,
ou em 73º lugar em abertura econômica?
Como
papagaios, esses sociólogos repetem à exaustão
e ao longo dos tempos velhos conhecimentos adquiridos em academias,
esquecendo da dinamicidade dos dias, das transformações
econômicas e das remexidas sociais que alteram os rumos
dos acontecimentos. Não fosse assim, o Brasil não
estaria em 51º lugar no balanço de pagamentos e em
29º no nível de desemprego -- com a observação
de que as pesquisas não descem aos porões da informalidade
e do rebaixamento salarial que disfarçam a face horrenda
da desesperança.
Esses
e tantos outros sociólogos enfiam no mesmo saco de gatos
conceituais a essência da democracia. Acham que o Brasil
chegou ao máximo do exercício da cidadania quando,
de vez em quando, os mais de 100 milhões de eleitores enfim
os dígitos em urnas eletrônicas e votam tão
democrática quanto modernamente. Bobagem. As eleições
são apenas um fragmento -- importante, mas um fragmento
-- do imenso universo do conceito contemporâneo de democracia.
Como
lembrou recentemente o professor Cristovam Buarque, democracia
são várias fatias que se dividem harmoniosamente.
Democracia alimentar, democracia de transporte, democracia de
saúde, democracia de saneamento básico. Democracia
eleitoral é uma democracia interrompida tanto quanto mobilidade
corporativa é simplesmente uma mobilidade social seccionada
pela repartição de poder entre aqueles que catapultam
carreiras em raias diferenciadas dos pressupostos do capitalismo
humanizado com que todos sonham.
O
que há algumas décadas parecia uma constatação
pétrea de que a ascensão na escala social seria
como torrente de água contra a qual ninguém poderia
opor resistência, hoje não passa de uma folha seca
que o vento da globalização mal conduzida leva para
lugares nunca antes imaginados. Lula da Silva como tantos outros
que estão em Brasília, no Executivo, no Legislativo,
no Judiciário, como tantos que estão nas Capitais
e nos municípios a exercer mandatos públicos, a
comandar entidades de classe, a dirigir sindicatos, a exibir nas
lapelas símbolos de suas cidadelas conquistadas, todos
esses são a mais refinada expressão do corporativismo
brasileiro. São infantarias indestrutíveis em suas
jornadas sobretudo voltadas à defesa de interesses específicos,
muitas vezes disfarçados por uma verborragia de responsabilidade
social que se esgota em projetos de puro efeito marquetológico.
São
grupos organizados que fazem jus à tradição
colonial destas terras. Gente especializada em ascender na escala
social por meio do desvio do elevador ou da escada chamada corporação.
É verdade que, segundo o próprio Lula da Silva disse
há alguns anos, há muitos picaretas entre eles na
atividade pública, mas isso não vem ao caso. O que
todos têm em comum é uma facilidade imensa em reconhecer
os caminhos que podem levá-los ao poder, seja qual for
o poder, e lutam por isso com tenacidade e brilho.
Sociólogos
consagrados ou não precisam prestar atenção
à diferença entre mobilidade social e mobilidade
corporativa. Não podem confundir o grosso da sociedade
que patina, patina para tentar sobreviver -- e muitos não
têm feito outra coisa senão escorregar e escorregar
-- com essa turma densa em notoriedade.
Mobilidade
social -- mesmo assim seletiva -- é o favelado que encontra
uma alma bondosa e olhos perspicazes que traduzem aqueles dribles
e chutes milimétricos num campo de terra batida de periferia
em sinais evidentes de que há um talento a ser lapidado,
uma jornada de glória a ser consumada.
Mobilidade
social é o estudante universitário que vira doutor
de qualquer coisa e não precisa emigrar para qualquer canto
do planeta, de preferência para os Estados Unidos tão
imperialistas como dizem por aqui os formadores de opinião,
em vez de engrossar as filas de empregos nacionais que nunca chegam.
Mobilidade
social, agora descendente, é o pai de família desempregado
que arruma qualquer bico para evitar que os filhos passem fome
e que, exatamente porque há tantos outros pais de famílias
na mesma situação, não encontra saída
senão contar com o reforço da mulher, que sai à
cata de um emprego qualquer de diarista, limpando uma casa de
classe média hoje e de classe rica amanhã. Essa
mesma mulher que torce para que suas patroas não tenham
o chefe da casa ou mesmo a dona-de-casa que também trabalha
fora vitimados pelo desemprego em nome de uma abertura econômica
destemperada e de um gigantismo tributário voraz que saltou
de 28% para 36% do PIB em oito anos.
Quem
consegue identificar mobilidade social nos exércitos de
jovens desempregados, indefesos diante da bandidagem? Jovens de
todas as classes sociais. Jovens que muito cedo descobrem que
a ocupação produtiva e pedagógica que lhes
falta para exercer um ofício e fazer a roda da economia
girar acabará substituída pelo oportunismo maquiavélico
de atividades nada nobres que os tornarão presas fáceis
de gente escolada pela marginalidade.
É
exagerar na brincadeira essa conservadora expressão que
tinha lá suas raízes de verdade nos tempos em que
o PIB crescia persistentemente e valia a pena perguntar ao filho
o que queria ser quando crescesse. Tinha-se nessa época
certeza absoluta de que não se ouviria como resposta um
palavrão transtornado ou um balançar de cabeças
de quem acha que essa resposta está nos céus.
Que
País é esse que coloca 1,6 milhão de jovens
no mercado de trabalho a cada ano e não consegue desenvolver-se
para garantir pelo menos o emprego dos pais, classe média
ou não?
* Matéria publicada na edição
de dezembro de 2002 da revista LIVRE MERCADO.
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DANIEL LIMA é jornalista, escritor, idealizador do IEME,
diretor-executivo da revista LIVRE MERCADO e editorialista de
Capital Social Online. |