|
| Precarização
do mercado de trabalho atinge todo o Estado* |
DANIEL
LIMA**
A
alardeada primeiromundista São Caetano, referência
obrigatória de oásis de qualidade de vida na selva
de pedra e de criminalidade da Região Metropolitana de
São Paulo, não é exatamente o que parece.
A sistemática perda de indústrias combinada com
a multiplicação de atividades de comércio
e principalmente de serviços no embalo da guerra fiscal
transformou o Município no suprassumo regional do assalariamento
precarizado. Traduzindo: São Caetano perde cada vez mais
o viço herdado da pujança industrial que um dia
já ostentou e deixa a Casa Grande dos salários mais
elevados em direção à senzala do rebaixamento
das carteiras profissionais.
De
posse de estudos da Secretaria de Desenvolvimento, Trabalho e
Solidariedade da Prefeitura de São Paulo, interpreto estatísticas
do Ministério do Trabalho e do Emprego, em análise
inédita a que me lanço para entender mais ainda
as razões da choradeira de representantes de São
Caetano nos encontros sociais que de vez em quando me dou ao desfrute.
Surpreendentemente para quem coloca São Caetano no pedestal
da riqueza regional, o que se tem de fato é o crescimento
geométrico dos assalariados fragilizados.
Os
estragos da fuga e do enxugamento industrial são evidentes:
82,21% da força de trabalho formal de São Caetano
ganhava, em dezembro de 2000, até três salários
mínimos. Um crescimento depreciativo de 152,25% em relação
a dezembro de 1997, que registrava 32,59%. Poucos entre os mais
expressivos municípios paulistas emparelham o jogo da precarização
com São Caetano.
Um
caso é a industrial Americana, que reúne 82,4% de
empregados até três salários mínimos,
sempre em dezembro de 2000. Como se sabe, Americana passou pela
turbulência da abertura econômica desregrada também
no setor têxtil e só recentemente vem dando mostras
de recuperação. A modernização do
parque industrial de teares cortou muitos postos de trabalho e
o setor de serviços e comércio avançou relativamente.
Como se sabe, são atividades que geram empregos de baixo
salário.
Também
a mais recentemente industrializada Hortolândia integra
o grupo de municípios comprometidos pelo assalariamento
terceiromundista, com 86,52% de trabalhadores colhendo ao final
de cada mês até três salários mínimos
de hoje -- R$ 600. O caso dessa cidade da Região Metropolitana
de Campinas é diferente tanto da esvaziada São Caetano
quanto da reconstruída Americana. Hortolândia é
um pólo químico/farmacológico mais recentemente
descoberto pelos empreendedores e já foi enquadrado num
compartimento salarial comprimido pela globalização
e pela guerra fiscal.
Embora
não tenha conseguido reunir dados de empregos formais relativos
ao mesmo período de precarização da mão-de-obra,
movo-me pelo bom-senso de referenciais de empregos formais de
períodos mais recentes para sustentar os argumentos. O
fato é que, de maneira geral, como a economia paulista
vem perdendo espaço no confronto nacional porque reagiu
mal e tardiamente à guerra fiscal e foi a vítima
preferencial da política macroeconômica do governo
federal, a debilidade salarial é compulsória.
A
realidade de que os empregadores de São Caetano pagam mais
de três salários mínimos a apenas 17,79% dos
funcionários -- quando em 1997, três anos antes,
o contingente acima de três salários mínimos
era de 67,41% -- expõe com clareza o tamanho do rombo das
políticas econômicas que este Capital Social Online
e a revista LIVRE MERCADO estão cansados de mostrar.
Se
as razões que nocauteiam o emprego com qualidade em São
Caetano parecem imbatíveis, o que dizer então da
industrial Diadema que, no mesmo período, passou de 19,18%
para 71,74% de empregados com vencimentos de até três
salários mínimos? Em termos relativos, a precarização
em Diadema cresceu 274,03%, contra os 152,25% de São Caetano.
Por
que Diadema mudou tanto? Como pode Diadema derrapar de 80,82%
de trabalhadores com rendimento superior a R$ 600 para apenas
28,26% em apenas três anos? O nome do jogo é enxugamento
de pessoal, rotatividade combinada com rebaixamento salarial e,
também, multiplicação de pequenos negócios
de empregos de subsistência. Não se pode esquecer
que Diadema é predominantemente formada por pequenas e
médias empresas metalúrgicas, químicas e
cosméticas, suscetíveis demais às travessuras
governamentais.
A
Mauá tão festejada ultimamente porque está
conseguindo atrair indústrias ao Pólo de Sertãozinho
e investimentos ao Pólo Petroquímico, principalmente,
também está no olho do furacão da debilidade
salarial crescente. O índice de 80,86% de mão-de-obra
de até três salários mínimos registrado
no ano 2000 é 250,8% maior que o de três anos antes,
quando registrou 23,05%. De novo a comparação: em
1997, 76,95% dos trabalhadores de Mauá levavam para casa
mais de três salários mínimos por mês,
contra apenas 19,14% na virada do século passado. Principalmente
as pequenas e médias autopeças nacionais estão
na raiz dessa debacle. Esses segmentos foram detonados pelo governo
FHC, que os colocou na rua da amargura da competitividade internacional
crua e nua e também às pressões das montadoras,
protegidas pelas alfândegas.
Ribeirão
Pires e Rio Grande da Serra deram saltos menos explosivos que
Mauá, São Caetano e Diadema, mas o desempenho também
é comprometedor. Em 1997 Ribeirão Pires contava
com 72,01% de trabalhadores que recebiam mais de três salários
mínimos, contra 38,96% do ano 2000. Rio Grande da Serra
saiu do patamar de apenas 29,09% de trabalhadores com vencimentos
de até três mínimos para 79,08%.
O
Município do Grande ABC que menos impacto sofreu com a
queda da massa salarial foi Santo André. O índice
de 27,56% registrado em 1997 saltou para 59,69% em 2000. Ou seja:
em 1997, 72,44% dos trabalhadores ganhavam mais de três
salários mínimos, contra 40,31% de três anos
depois. Como se explica isso se Santo André é a
cidade da região que mais sofreu as dores da evasão
industrial?
Primeiro
porque os dados que compreendem os anos de 1997 a 2000 colhem
Santo André em período de estabilização
de perdas. Segundo porque o emprego formal de melhor qualidade
de Santo André na área industrial prevalece nas
médias e grandes indústrias. O crescimento relativo
de 116,18% de assalariamento de até três mínimos
é elevado para os padrões médios do Estado,
mas está abaixo da média regional.
Completando
o ciclo, encontramos São Bernardo das montadoras e das
autopeças. O que teria acontecido? Quem acompanha este
Capital Social Online e LIVRE MERCADO se sentirá um pateta
com essa indagação. Ora bolas: se São Bernardo
caiu do segundo para o quinto posto no ranking de distribuição
do ICMS no Estado de São Paulo porque as montadoras promoveram
lipoaspiração e demissão fluvial de trabalhadores
e muitas autopeças dançaram feio com a globalização,
o resultado só poderia ser catastrófico. E é:
em 1997 São Bernardo contava com 83,54% de sua força
de trabalho recebendo mais de R$ 600 a valores de hoje -- três
salários mínimos. Já no ano 2000 esse universo
caiu para 42,75%. O emprego precarizado cresceu 247,81% no período.
A
correlação entre a persistente queda relativa e
absoluta da economia do Grande ABC no território paulista
e a contração dos contra-cheques dos trabalhadores
é insofismável. Em 1997 o Grande ABC contabilizava
10,14% de participação no índice do ICMS
do Estado, contra 8,83% do ano 2000 -- queda de 1,31 ponto percentual
ou de 13%. São Bernardo tinha 4,27% e caiu para 3,73%,
Santo André tinha 1,73% e caiu para 1,61%, Mauá
caiu de 1,26% para 1,10%, Diadema de 1,42% para 1,20%, São
Caetano de 1,42% para 0,98%, Ribeirão Pires de 0,26% para
0,16% e Rio Grande da Serra manteve-se no residual 0,04%. Como
se sabe, o ranking do ICMS é fortemente influenciado pela
geração de riqueza da indústria de transformação.
Dos
grandes e médios municípios paulistas, Sorocaba
foi o que apresentou a menor variação do avanço
do assalariamento de até três mínimos: era
34,94% em 1997 e chegou a 53,03% na virada do século. Ou
seja: alta de 51,77%. Capital econômica do quarto pólo
industrial mais poderoso do Estado, atrás da Grande São
Paulo, da Região Metropolitana de Campinas e do Vale do
Paraíba, Sorocaba saiu de 1,24% de participação
no ranking do ICMS em 1997 para 1,36% no ano 2000.
São
José dos Campos vem logo a seguir. Em 1997, 28,66% dos
trabalhadores estavam na lista dos salários mais baixos,
contra 47,47% do ano 2000. Variação de 65,63%. No
mesmo período, a Capital do Vale do Paraíba saiu
do quarto lugar para a vice-liderança do ICMS: de 2,82%
para 3,48%.
Campinas
também entra nesse bloco de resultados satisfatórios,
comparativamente aos do Grande ABC: em 1997 seu contingente de
assalariados com até três mínimos era de 25,85%,
contra 41,57% do ano 2000, ou crescimento de 60,81%. Campinas
também sofre perdas indústrias que estão
optando por seu entorno metropolitano. Tanto que em 1997 sua participação
no bolo do ICMS era de 3,02%, contra 2,85% do ano 2000.
Finalmente,
para que se tenha desenho de corpo inteiro das mudanças
que atingiram o bolso dos trabalhadores no período pesquisado,
São Paulo apresenta crescimento de 201,28% nos empregos
formais de até três salários mínimos:
eram 24,16% em 1997 e passaram para 72,79% no ano 2000. A Capital
continua atacada pelo vírus da desindustrialização
e, como se observa, apesar de todo o glamour de atividades que
o Grande ABC inveja no setor de serviços de valor agregado,
não consegue estancar a derrocada salarial explícita
nos números. Uma situação que também
o ranking do ICMS da Capital explica, já que de 26,91%
de participação em 1997 caiu para 26,07% no ano
2000.
A
associação sistêmica desses dados e de tantos
outros que permanentemente dissecamos tanto neste espaço
quanto na revista LIVRE MERCADO cristaliza o veredito sobre a
perniciosidade dos anos FHC para a economia do Grande ABC. Abordamos
tantos ângulos econômicos e sociais convergentemente
voltados à constatação de uma tragédia
coletiva que não conseguimos suportar a letargia institucional
da região. Estamos atravessando momentos delicadíssimos
enquanto algumas primas-donas que se intitulam lideranças
da sociedade especializam-se em picuinhas provincianas.
A
pauta de prioridades do Grande ABC precisa ser completamente alterada.
O que, por exemplo, os deputados estaduais apresentam como emendas
ao presidente da Assembléia Legislativa não passa
de, na maioria dos casos, esparadrapos sociais. Um olhar prospectivo
sobre os macroproblemas da região requer, antes de tudo,
capacidade coletiva de enquadramento nas lentes da objetividade.
São
tão extraordinariamente preocupantes os números
sobre a precarização do mercado de trabalho formal
na região e no Estado de São Paulo (e no Brasil
também) que não resisti: entrei em contato hoje
de manhã, de meu escritório domiciliar, com um dos
assessores técnicos da Secretaria do Desenvolvimento, Trabalho
e Solidariedade do Município de São Paulo. Queria
confirmar aqueles números que constam do estudo "Pobreza,
Violência e Investimento Econômico no Estado de São
Paulo". Desconfiava que talvez pudesse haver algum equívoco.
Qual nada! Solícito, Thiago Fonseca Ribeiro não
só confirmou o enunciado que lhe transmiti resumidamente
como complementou:
"Estamos
verificando permamentemente os dados do Caged (do Ministério
do Trabalho) e apenas os empregos formais de até três
salários mínimos apresentam resultados positivos,
de crescimento. A rotatividade e o rebaixamento de salários
são evidentes" -- disse o especialista, sem deixar
de questionar: "Como se vive com até três salários
mínimos?".
Duvido
que o ministro do Trabalho e Emprego do governo Fernando Henrique
Cardoso, Paulo Jobim, consiga responder sem cair no ufanismo.
Em recente artigo que escreveu para a Folha de S. Paulo, o ministro
deitou e rolou em triunfalismo. Disse que o Brasil tem a quinta
maior PEA (População Economicamente Ativa) do mundo.
Garantiu que os países europeus apresentam forças
de trabalho muito menores. Sustentou que a força de trabalho
ocupada nas seis maiores regiões metropolitanas do País
passou de cerca de 15,1 milhões de pessoas em 1991 para
17,2 milhões de pessoas em 2001. Disse também que
gerar postos de trabalho é fundamental e que a economia
tem conseguido proporcionar mais oportunidades para o trabalhador
brasileiro. Articulou também que o Ministério do
Trabalho tem registrado, através da Rais, que o emprego
formal cresceu de 23,7 milhões, em 1994, para aproximadamente
26,8 milhões, em 2001.
O
ministro Paulo Jobim -- e também todos os candidatos que
disputaram a Presidência da República -- nem de leve
tocou na questão da qualidade, da precarização
e da rotatividade do emprego formal. E muito menos no paiol do
universo de trabalhadores informais que dobrou entre 1991 e 2000,
segundo dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).
Contra os 2,11 milhões de empregos formais (depreciados
na maioria dos casos em termos salariais) criados entre 1991 e
2001, surgiram 2,43 milhões de postos informais, saindo
de 6,17 milhões para 8,6 milhões.
Resumo
de toda essa ópera: o Brasil precisa de desenvolvimento
econômico sustentável e de imprescindíveis
mudanças na legislação trabalhista, retirando
do Estado os custos excessivos, transferindo-os para o bolso dos
trabalhadores e para o capital de giro das empresas.
*
Matéria publicada pela newsletter Capital Social Online
em 7 de novembro de 2002
**
DANIEL LIMA é jornalista, escritor, idealizador do IEME,
diretor-executivo da revista LIVRE MERCADO e editorialista da
newsletter Capital Social Online.
|