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| Onde
colocar nossas fichas para dar um jeito na região?* |
DANIEL LIMA**
Quem
tiver a mínima intenção de colaborar com
o futuro do Grande ABC não pode perder de vista pelo menos
três assuntos-âncora no mar de dificuldades que balança
o navio da economia regional: metropolização jurídica,
banco de fomento e salvaguardas para pequenos negócios
comerciais. Por mais que pareça exercício de reducionismo
temático enquadrar as perspectivas da região num
estreito gueto de prioridades, o pragmatismo precisa falar mais
alto. Faz muito bem a todos que tenham disposição
de praticar cidadania incluir várias alternativas emergenciais
para o Grande ABC recuperar parte do terreno perdido. Mas o bom
senso indica que não há tempo a perder. Ou se ataca
para valer os pontos mais vulneráveis ou o Grande ABC continua
a dançar o último tango do desenvolvimento econômico.
A iniciativa do Uni-A (ex-Senador Fláquer) de levar a debate
a proposta que o professor Paul Singer, da USP (Universidade de
São Paulo), mencionou durante encontro organizado pela
Agência de Desenvolvimento Econômico é emblemática
quebra de barreiras do isolamento entre universidade e sociedade.
Tanto quanto foi decisiva a participação de LIVRE
MERCADO no despertar do tema, quando costurou ampla e inédita
reportagem-análise a partir de uma declaração
meramente residual do economista petista. Tão residual
que nem a platéia presente ao encontro e nem a mídia
diária lhe deram maior importância.
A ênfase especial de LIVRE MERCADO ao assunto também
seria de consequências práticas limitadas se uma
instituição educacional com tradição
e massa crítica não observasse o trabalho com sensibilidade
além do terreno exclusivamente pedagógico. Aliás,
nesse ponto, que sirva de lição a ação
do Uni-A a outras instituições de ensino que persistem
em produzir encontros com temas completamente desvinculados das
efetivas exigências imediatas da região. Pior: geralmente
os estelares protagonistas desses eventos repetem em condições
bem mais adversas, pela limitação de tempo e muitas
vezes pela dificuldade de oratória, o que sistematicamente
publicam em forma de artigos em jornais e revistas.
Grande
desafio -- Para quem está conformado com o consagrado
jeitinho brasileiro de deixe-como-está-para-ver-como-fica,
a intervenção do Uni-A é um desperdício.
Para quem acredita que é possível mudar a roda da
história com medidas aparentemente utópicas, a perspectiva
é de que um banco de fomento para o Grande ABC ganha profundos
contornos de desafio. É imensa e estatisticamente impenetrável
a gama de recursos monetários produzidos pela economia
regional. Uma fresta desse portal foi aberta há alguns
anos pelo presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC,
Luiz Marinho, relacionada principalmente aos depósitos
do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço.
Ninguém se debruçou para valer sobre a massa de
dinheiro gerada, por exemplo, nas relações entre
capital e trabalho e também sobre o volume estratosférico
de valores que passam pelos guichês das prefeituras. O sindicalismo
regional teria influência decisiva no processo de convencimento
de que não há pecado nenhum do lado de cá
da Capital financeira do País. Até porque, uma das
bandeiras dos discípulos de Luiz Inácio Lula da
Silva é o despertar para a cidadania, rompendo os muros
do corporativismo.
Mais ocupados com querelas eleitorais, administradores e legisladores
públicos do Grande ABC mal se deram conta de que o banco
de fomento colocado à mesa de debates talvez seja a única
saída para financiar programas públicos e privados
de desenvolvimento sustentado. Não há como excluir
Poder Executivo e também Poder Legislativo da amarração
que fundamentaria a criação do BNDES regional. Não
é essa a questão. Até porque, mais dia menos
dia todos vão acordar para a imperiosidade do tema e se
lançarão com voracidade para obter importantes nacos
de participação.
O grande desafio para a sociedade regional é evitar que
o banco de fomento seja estatal. É preciso que seja público.
A diferença entre estatal é público não
é apenas semântica, como incautos poderiam sugerir.
É sobretudo de representatividade e competência gerencial
e administrativa. Banco estatal, como tantas atividades dominadas
pelo Estado em suas várias esferas, é convite à
corrupção, à maracutaia, à moeda político-partidária.
Só interessa a direitistas e a esquerdistas que dão
aos recursos públicos proveito próprio, embora esgrimam
discursos radicalmente diferentes. Banco público exige
cidadania, equilíbrio de forças entre representantes
do Estado, do mercado e da comunidade como recomenda a social-democracia
mais avançada. As decisões são compartilhadas
e derivam de quadro de necessidades hierarquizadas pelo bom senso
e pela maturidade da sociedade.
O banco de fomento que o Grande ABC necessita é oportunidade
de ouro para testar até que ponto o decantado grau de politização
da sociedade regional tem lastro, ou não passa mesmo de
um dos muitos mitos que ruíram desde que a globalização
chegou com a força e a velocidade dos furacões.
A massificação do debate, que deve ser pauta obrigatória
das entidades mais representativas da região, é
o toque mágico que se espera.
Metrópole
-- Tão importante quanto um banco de fomento para o Grande
ABC é a metropolização formal. Metropolização
ou submetropolitização, pouca diferença faz,
desde que a região possa tratar de questões mais
candentes com um mínimo de estabilidade institucional e,
evidentemente, não se divorcie do feixe metropolitano da
Grande São Paulo. A formalidade da Região Submetropolitana
do Grande ABC, como se desenha no Palácio dos Bandeirantes,
não é por si só garantidora de que as ações
serão empreendidas. Como se sabe, a Baixada Santista já
formalizada ainda não conseguiu traduzir em realizações
os pressupostos da legislação. E, como também
se sabe, a Região Metropolitana da Grande São Paulo,
que já completou três décadas de decreto-lei,
é a balbúrdia social que todos conhecem.
Por que a submetropolização formal vai ajudar o
Grande ABC? Em primeiro lugar porque colocará ordem na
casa. Sem retaguarda legislativa, o Grande ABC sofre pela epidemia
de siglas e pelo nanismo de organização tática
e estratégica. Consórcio de Prefeitos, Câmara
Regional e Agência de Desenvolvimento Econômico são
quebra-galhos institucionais porque se resumem a participantes
locais e também porque de alguma forma são camadas
sobrepostas de um mesmo tecido. O governo estadual tem participação
apenas na Câmara Regional. Mesmo assim de forma voluntária,
o que dá ao jogo um ritmo maneiroso. A submetropolização
legal implica em direitos e obrigações de todos
os participantes.
Outra qualidade da submetropolização formal é
que Estado e prefeituras contribuem com recursos que sustentam
estudos e projetos. Hoje os recursos da Câmara Regional
são igualmente voluntários e a contribuição
é intermitente. Nada mais desanimador quando se trata de
buscar a estabilidade do planejamento.
Outra vantagem é que, com a submetropolizacão, Consórcio,
Câmara e Agência de Desenvolvimento só não
viram museus porque o principal capital de que dispõem
são os recursos humanos, automaticamente transferidos à
nova instituição. Também deve ser contabilizada
como dividendo a garantia de participação sistemática
dos principais executivos do governo do Estado, a começar
pelo governador. A regulamentação de região
metropolitana ou de região submetropolitana que virá
por aí é um antídoto contra as derrapagens
partidárias de períodos eleitorais.
Exemplo de que a informalidade de instituições de
caráter regional é como patinar descalço
no gelo é o fato concreto de que a Câmara Regional
do Grande ABC está praticamente desativada neste ano de
eleições municipais. A grande fissura da legislação
sobre metropolização é outorgar aos representantes
da comunidade apenas voz, não voto. Nem isso, entretanto,
serve de pretexto para se opor à mudança. Basta
saber utilizar a voz para ganhar votos. É nesse ponto que
o Fórum da Cidadania poderia ter importante papel. Principalmente
se levar avante o plano de repaginar ações.
Para completar o tripé sobre o qual se busca o equilíbrio
social e econômico do Grande ABC, os pequenos negócios
são caso emergencial. Prepará-los melhor e protegê-los
da sanha da concorrência canibalizadora dos grandes investimentos
do setor comercial são medidas que não admitem novas
doses de negligência. Nenhuma autoridade pública
ousa colocar o guizo no pescoço do gato do grande empreendedor
que gera impostos de forma centralizada, de fácil arrecadação.
Ninguém atira a primeira pedra contra a casa de Irene em
que se transformou a geografia da região, cujos pontos
mais privilegiados foram tomados por supermercados, hipermercados
e homecenters. A diferença entre a vida e a morte dos pequenos
negócios está na disciplina do setor, como já
fazem os europeus. Medidas que levem em conta restrições
aos estabelecimentos e impedimento de concorrência predatória
são inadiáveis. A omissão das autoridades
públicas está acertando o alvo fácil do equilíbrio
social. O quadro de falências e concordatas explicita o
genocídio empresarial.
*Matéria
publicada na edição estadual de outubro de 2000
pela revista LIVRE MERCADO.
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DANIEL LIMA é jornalista, escritor, idealizador do IEME,
diretor-executivo da revista LIVRE MERCADO e editorialista da
newsletter Capital Social Online.
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