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| Logística,
eis o nome do problemão do Grande ABC* |
DANIEL
LIMA**
A
logística, que pode ser traduzida didaticamente como vetores
de acessibilidade modal ou intermodal que começam com o
suprimento e terminam com a distribuição, é
o nome do problemão do Grande ABC desde que o movimento
sindical -- e isso já faz uma porção de tempo
-- refluiu da rebeldia inconformista e, premido pelas circunstâncias,
mudou a pauta de prioridade e, em vez de estado de greve quase
permanente dos anos 80, tratou de tentar salvar empregos.
A contratação da Simonsen & Associados pela
Gráfica Bandeirantes para minucioso estudo de relocalização
unificada e enxugamento de três plantas industriais -- São
Bernardo, Guarulhos e Campinas -- é trabalho a cujos detalhes
não tive acesso. Mas uma conversa rápida com o empreendedor
Mário César de Camargo não deixa margem a
dúvidas: ambiente político e logística são
fatores de exclusão compulsória entre os municípios
listados por aquela empresa especializada em recomendações
de mudança de endereço, entre outros assuntos.
O
dirigente da Gráfica Bandeirantes, também presidente
da Abrigraf, entidade que reúne empresas do setor, até
que tentou evitar que uma realidade do passado eventualmente distorcesse
a análise da Simonsen, desconsiderando o ambiente político,
mais precisamente o sindicalismo, como obstáculo. Na realidade,
Mário Cesar de Camargo não fez concessão
regionalista a São Bernardo. Simplesmente não teve
problema algum com o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria
Gráfica ao longo de mais de 40 anos em que a Bandeirantes
ocupou o território da região.
Prova,
entre outras, de que as estripulias sindicais não eram
via de mão única. Era preciso, também, para
que o tempo fechasse entre capital e trabalho, uma incorrigível
propensão ao confronto bilateral. Até porque, quando
um não quer, dois não brigam.
Pois
se o ambiente político-sindical não era empecilho
para São Bernardo continuar com a Gráfica Bandeirantes,
por que então a empresa agora está em Guarulhos?
Logística, camarada, logística. Nos tempos em que
a inflação e a correção monetária
deitavam e rolavam neste País (tempos que podem ameaçar
retornar agora neste final de feira do mandato tucano de Fernando
Henrique Cardoso, cuja inflação atualizada, sem
correção monetária, é nitroglicerina
pura) os empresários davam uma banana às questões
de acessibilidade de insumos e muito mais à distribuição
de produtos acabados e também de serviços.
O
que se jogava pela janela da improdutividade dessa ciência,
que faz do tempo e do espaço irmãos siameses que
alimentam o just-in-time, era fartamente compensado pelo overnight.
Um Estado perdulário com títulos públicos
financiava a gandaia nacional de improdutividade bruta. Logística
era algo tão abstrato que muitos a correlacionavam com
shopping center e a grafafam com jota, de loja mesmo.
Pois
se o Grande ABC se viu livre do sindicalismo mais bravio -- e
também de empresários pouco afeitos à democracia
do chão de fábrica -- nos anos 90, sobremodo a partir
do Plano Real, encontrou na tal da logística um espantalho
aos investimentos. O fato é que a região está
encalacrada. Suas vias de acesso internas, excetuando-se uma Santo
André menos provinciana, são convite ao desperdício
de combustível, à evasão da paciência,
à destemperança da qualidade de vida, um trança-pé
na competitividade.
A
Rodovia dos Imigrantes, a Rodovia Anchieta e a Avenida dos Estados,
nossas principais artérias interregionais, vivem apinhadas
de veículos nos horários mais diversos. Como grande
parte das indústrias se espalha por áreas da circunvizinhança
dessas artérias permanentemente congestionadas e geralmente
de acesso moroso aos corredores-tronco, dá para imaginar
o tamanho da encrenca.
Pois foi exatamente no quesito logística que a Simonsen
& Associados excluiu o Grande ABC das alternativas de relocalização
da Gráfica Bandeirantes.
Sim,
porque além do emaranhado viário interno, ainda
somos contaminados com o que nos rodeia do lado Sul da Região
Metropolitana de São Paulo. Enquanto isso, do lado Oeste,
depois da construção do Rodoanel -- o eixo desenvolvimentista
que há muito se direcionou à São Paulo Expandida,
formada pelas regiões metropolitanas de Sorocaba, Campinas
e São José dos Campos -- foi levemente alterado
para municípios da Grande São Paulo com acessibilidade
às rodovias estaduais e federais. Guarulhos está
entre as contempladas, assim como Cotia, Carapicuiba, Barueri
e tantas outras.
Na
corrida de espermatozóides por investimentos, o Grande
ABC soçobra nos declives e curvas da logística.
Em princípio, para a Simonsen & Associados, os municípios
do Grande ABC estão na lista das indústrias aqui
instaladas como alternativa de permanência. Entretanto,
o que se depreende do mata-burros da acessibilidade complexa que
ganha a denominação de logística é
que a medida não passa de formalidade, tal a desvantagem
que se cristaliza com o caráter excludente. Logística
não é assunto de segunda época para o exame
de avaliação de competitividade vista sob o princípio
da localização.
Insisto
em dizer que a conversa com Mário César de Camargo
foi rápida, mas suficientemente elucidativa, porque meu
interlocutor é dessas raras competências que conseguem
articular o pensamento em absoluta sintonia com a expressão
verbal, racionalizando os enunciados de tal modo que fica marcado
o entusiasmo de ouvir alguém tão didático,
conciso e descomplicador de equações. O ex-prefeito
Celso Daniel reunia qualidade semelhante. Ouvinte atento das reuniões,
Celso Daniel só fazia intervenções no final,
repassando professoralmente todos os pontos abordados, dando-lhes
edição impressionantemente objetiva.
Mas,
voltando à questão da opção da Gráfica
Bandeirantes por Guarulhos e o peso excludente do fator logística,
Mário Cesar de Camargo explica que a consultoria especializada
fez rastreamento completo de todas as notas fiscais de clientes
e fornecedores nos 12 meses anteriores à contratação
do trabalho. A exumação da documentação
com o histórico do relacionamento comercial da Gráfica
Bandeirantes identificava aspectos como localização
geográfica, meios viários de acesso, valores monetários
e outros itens que contribuíam para a construção
de uma espécie de genoma das receitas e dos custos operacionais
da empresa.
Com
esses e outros dados reconstituídos e seguidos de análises
sistêmicas que articulavam receitas e despesas dessas operações,
a Simonsen & Associados resgatava e analisava minuciosamente
todos os pontos positivos e negativos que determinadas alternativas
de localização da planta industrial ofereciam. Outros
elementos compõem esse quase labirintesco diagrama de competitividade
locacional, sobre os quais, confesso, preferi não aprofundar
questionamentos. Afinal, como estava mesmo ansioso para conhecer
os motivos que levaram São Bernardo -- e os demais municípios
da região -- a se tornarem carta fora do baralho recomendado
pela Simonsen, fixei-me mais detidamente à tal da logística
e suas influências.
É
por essas e outras que qualquer pauta de desenvolvimento econômico
sustentável do Grande ABC não pode cometer o desatino
de desconsiderar as limitações detectadas por uma
empresa especializada e que, como as demais que se lançam
a estudos de pressupostos semelhantes, torna o fator desclassificatório
e nos remete para a Segunda Divisão do Campeonato de Competitividade.
É
por essas e outras que nossa preocupação com a elaboração
de um plano estratégico para a ocupação economicamente
responsável das bordas do trecho Sul do Rodoanel, que contemplará
tangencialmente o Grande ABC, precisa ser colocada como prioridade
zero. O trecho Sul do Rodoanel se junta à perspectiva do
Ferroanel como peças-chaves desse tabuleiro de xadrez de
conquista de novos empreendimentos e, também, de manutenção
do parque fabril da região, depois de anos a fio de sangria.
É
por essas e outras também que o plano estratégico
de São Bernardo, que pretende reorganizar o caótico
sistema viário local com investimentos maciços a
partir do empréstimo de US$ 165 milhões do BID,
ganha revestimento extra-municipal e se insere num contexto de
regionalidade que merecia tratamento além das fronteiras
da Prefeitura dirigida por William Dib e Maurício Soares.
A
sinergia econômica entre os municípios da região
transfere em grau nada desprezível eventuais resoluções
de problemas de acessibilidade de um Município para o mais
próximo e, com isso, interfere na avaliação
final dos especialistas em apontar para onde vai uma nova fábrica
ou uma fábrica mais antiga que está em nosso território
e quer se oxigenar em territórios menos desgastantes.
Ou
nos preparamos pragmaticamente para o jogo da inclusão
e da exclusão empresarial, capturando todos os movimentos
táticos e estratégicos praticados pelas consultorias
especializadas movidas à competição globalizada,
ou vamos continuar comendo poeira.
Quem
acha que logística é simples apêndice de rentabilidade
negocial, certamente vai cair da cadeira com a informação
de que o custo nacional desse componente em relação
ao PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil alcança 22%, contra
média de 12% do Primeiro Mundo. Recentemente a Gessy-Lever
anunciou formas de reduzir gastos com transporte e armazenagem
de produtos e matérias-primas exatamente por saber o tamanho
do rombo em suas finanças. Outras grandes e médias
corporações seguem a mesma trilha. É preciso
decepar custos.
No
setor automotivo, então, nem se fale. A TNT, líder
de logística mundial na Europa, multiplicou por mais de
sete vezes o faturamento anual desde que se instalou no Brasil,
há cinco anos. A maior parte vem das montadoras e das autopeças.
É gigantesco o tamanho do desafio de encurtar a distância
entre o desperdício e a racionalidade num País continental
como o Brasil.
*
Matéria publicada pela newsletter Capital Social Online
em 27 de novembro de 2002.
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DANIEL LIMA é jornalista, escritor, idealizador do IEME,
diretor-executivo da revista LIVRE MERCADO e editorialista da
newsletter Capital Social Online. |