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| Globalização
é desafio Regional* |
ANDRÉ
MARCEL DE LIMA**
Nos
últimos tempos uma palavra de origem inglesa é cada
vez mais repetida em discussões econômicas no Brasil.
Cluster é o termo que ecoa por toda parte, em rodas de
negócios, debates sobre políticas públicas
e em revistas e livros especializados em gestão empresarial.
Mas pouca gente conhece de fato os múltiplos e complexos
significados que o termo traduzido ao pé-da-letra como
aglomerar ou agregar assume quando aplicado ao contexto das empresas,
das regiões e dos países.
Passo
importantíssimo para a compreensão do papel dos
clusters produtivos na dinâmica socioeconômica do
mundo moderno foi dado recentemente em Belo Horizonte, onde um
seminário internacional sobre o tema mobilizou centenas
de representantes do Poder Público e da iniciativa privada
em torno de especialistas renomados dentro e fora do Brasil.
A
escolha da Capital mineira para sediar o encontro mais completo
sobre clusters de que se tem notícia no País não
é ocasional: Minas Gerais ocupa pole-position nacional
em pesquisa, difusão e adaptação do conceito.
Com trabalhos da consultoria internacional Mckinsey & Company,
a Fiemg (Federação das Indústrias do Estado
de Minais Gerais) identificou 47 aglomerados industriais espalhados
pelo território mineiro que podem ser considerados embriões
de cluster.
Os
cinco aglomerados em estágio mais avançado de complementaridade
e cooperação formam a ponta-de-lança do projeto
Cresce Minas. Tanto que já começaram a receber apoio
da Fiemg e de outras instituições estaduais para
potencializar a geração de emprego e renda por meio
do incremento da competitividade. São o pólo de
biotecnologia de Belo Horizonte e Montes Claros; de tecnologia
da informação no Sul de Minas; de proteína
animal e bovinocultura no Triângulo Mineiro e na região
do Alto Paranaíba; além da concentração
de produtores de frutas no norte do Estado. "Estamos aplicando
a metodologia de coopetição que tem acelerado o
processo de desenvolvimento regional em diversas partes do mundo"
-- sintetiza o presidente da Fiemg, Stefan Gogdan Salej.
A
envergadura da iniciativa patrocinada pela Fiemg pode ser dimensionada
pela presença de dois discípulos de Michael Porter
no seminário internacional. Professor da prestigiada Harvard
Business School, Michael Porter é a maior autoridade mundial
sobre cluster como mecanismo de desenvolvimento empresarial, regional
e nacional que seduz homens de negócios, lideranças
públicas e membros do setor acadêmico em todo o mundo.
Para representar Michael Porter estiveram em Belo Horizonte o
norte-americano Kyle Peterson, diretor de marketing da consultoria
internacional On The Frontier, associada à Monitor Group
de Michael Porter, além do brasileiro Fernando Musa, sócio-diretor
da Monitor do Brasil.
Kyle
Peterson e Fernando Musa observam que clusters representam, antes
de tudo, um paradoxo: num mundo globalizado em que se acreditava
que distâncias perderiam importância em razão
do avanço dos meios de transportes e das telecomunicações,
a localização insurge-se -- mais do que nunca --
como variável importantíssima de competitividade
empresarial. Mas a razão que faz a localização
fundamental para o sucesso dos negócios é completamente
diferente da que a tornava atraente antes da consolidação
da economia de mercado internacional.
"No
passado era importante se instalar em locais onde se pudesse usufruir
de custos reduzidos de mão-de-obra e abundância de
recursos naturais, entre outras vantagens comparativas. Atualmente,
pelo contrário, as organizações visionárias
procuram se instalar em regiões onde haja ambiente de complementaridade
que favoreça o aperfeiçoamento contínuo.
Estão em busca de vantagens competitivas duradouras inerentes
à coesão da cadeia produtiva, e não de vantagens
comparativas temporais que seduzem à primeira vista mas
não garantem a sustentabilidade do negócio no longo
prazo" -- explica Fernando Musa.
Para
exemplificar, o consultor do Monitor Group cita que a Itália
tem cluster de calçados extremamente sofisticado sem dispor
de produção de couro. "Eles importam praticamente
toda a matéria-prima, da mesma forma que o Japão
é uma potência em produtos eletrônicos e automotivos
importando todo o minério de ferro, carvão, petróleo
e silício. Com know-how e capital humano, é possível
criar base forte de riqueza a despeito da ausência de recursos
naturais" -- explica o consultor.
Para
compreender as vantagens competitivas que atraem empresas para
uma região em comum é necessário, primeiramente,
recorrer à definição do que é cluster.
De acordo com Michael Porter, clusters são concentrações
geográficas de empresas e instituições de
determinado segmento de mercado. Clusters geralmente incluem fornecedores
de componentes, equipamentos e serviços, além de
instituições governamentais ou privadas como universidades,
agências provedoras de treinamento especializado, educação,
informação, pesquisa e suporte técnico. Ainda
de acordo com Michael Porter, os clusters mais conhecidos do mundo
são o de entretenimento de Hollywood e o de microeletrônica
do Vale do Silício, na Califórnia, Estados Unidos,
mas concentrações empresariais forjam mapas produtivos
pelo mundo desenvolvido afora.
Os
clusters mais conhecidos dos Estados Unidos são de defesa
aeroespacial, entretenimento e biotecnologia em Los Angeles; aeronaves
leves em Wichita; desenvolvimento de imóveis em Dallas
e Houston; produtos químicos no Texas e na Louisiana; alimentação
em Baton Rouge e New Orleans; gerenciamento hospitalar em Nashville
e Louisville; tecnologia de saúde e computadores no Sul
da Flórida; tapetes em Dalton e Georgia; mobília
doméstica, fibras sintéticas e meias na Carolina
do Norte; produtos farmacêuticos em Pennsylvania e New Jersey;
serviços financeiros, de propaganda e editoriais em Nova
York; joalheria em Providence; seguros em Hatford; indústria
automotiva em Detroit; móveis para escritório em
West Michigan; equipamentos agrícolas em Wisconsin e Illinois;
além de biotecnologia, minicomputadores, fundos mútuos,
planos de saúde, capital de risco, software e telecomunicações
na região de Boston. "Os Estados Unidos não
são um país desenvolvido. São, antes disso,
um país de clusters desenvolvidos" -- destaca Fernando
Musa.
Valor
Agregado -- O norte-americano Kyle Peterson, da On The Frontier,
afirma que a interação entre empresas e entidades
estabelecidas numa mesma região afeta a competitividade
de três formas: o cluster catapulta a competitividade das
empresas sediadas na mesma área, acelera o passo da busca
por valor agregado e inovação, que faz toda diferença
num mundo onde as commodities estão cada vez mais marginalizadas
e, em terceiro plano, estimula a criação de novos
negócios sintonizados desde o nascedouro com as necessidades
do cluster. Enfim, uma verdadeira roda da fortuna que traz benefícios
socioeconômicos de forma sustentada.
Kyle
Peterson explica que as empresas que fazem parte de um cluster
têm a competitividade ao alcance da mão porque usufruem
de acesso mais facilitado a informações, tecnologias,
trabalhadores e todos os demais insumos de que necessitam para
operar com qualidade e eficiência. Pelo simples motivo de
que proximidade física, quando bem aproveitada, estimula
o compartilhamento de experiências, fundamental para a evolução
dos negócios e o aperfeiçoamento de qualquer área
do conhecimento humano. A troca permanente de experiências
entre fabricantes de produtos que se complementam serve como combustível
para melhoria constante das empresas como um todo, num círculo
virtuoso inacessível a organizações deslocadas
da própria cadeia produtiva.
"Necessidades
específicas de cada membro da cadeia produtiva são
mais facilmente demonstradas e assimiladas num cenário
de proximidade física, desde que permeado de mentalidade
pró-ativa. Consequentemente, o tempo de resposta é
mais curto e a adequação ao mercado é mais
rápida" -- afirma Kyle Peterson.
Por
mais que as telecomunicações tenham avançado
e facilitado o acesso e o intercâmbio de informações,
nada substitui nem substituirá o contato pessoal entre
empreendedores que vivem na mesma comunidade como elemento amplificador
de confiança mútua -- matéria-prima básica
do sucesso dos clusters. "Relações pessoais
e laços comunitários sedimentam a confiança
e facilitam o fluxo de informações" -- afirma
Fernando Musa.
A
vantagem prática de pertencer a um cluster se faz notar,
por exemplo, diante da necessidade de contratação
de trabalhadores especializados. Se a empresa estiver descolada
da cadeia produtiva e de organizações congêneres,
terá de gastar muitos recursos em publicidade, recrutamento
e seleção para atrair candidatos. Mas se estiver
contextualizada em um cluster, sua rede natural de conhecimentos
e relacionamentos servirá de canal para acessar o profissional
ideal, que provavelmente vive na mesma região. Parece pouco,
mas basta multiplicar essa facilidade por milhares de necessidades
em relação aos mais diversos suprimentos que compõem
a rotina de qualquer empresa para compreender a relevância
do conceito esmiuçado pelos discípulos de Michael
Porter.
"Clusters
atraem profissionais talentosos pelo fato de representarem oportunidade
e menos riscos de recolocação profissional"
-- explica Kyle Peterson. "Abastecer-se de fornecedores locais
em vez de recorrer a fornecedores distantes reduz custos com transporte
e estoques" -- observa Fernando Musa.
Outra
vantagem fácil de identificar está na área
de marketing. Clusters normalmente elevam a reputação
de uma região em segmento específico. A fama italiana
em desenho e moda, por exemplo, beneficia empresas especializadas
em artigos de couro, calçados e acessórios que,
por sua vez, são responsáveis pelo bom conceito
do país nessas áreas. Da mesma forma, a reputação
das malhas de Brusque, em Santa Catarina, ou dos calçados
de Franca, no Interior Paulista, favorece a imagem das empresas
desses segmentos. "Além disso, os integrantes de um
cluster normalmente se beneficiam de vários mecanismos
conjuntos de vendas, como feiras setoriais, por exemplo"
-- destaca Peterson.
Fernando
Musa lembra que cluster representa um meio alternativo de organização
da cadeia de valor que não esbarra nem na verticalização
onerosa e pouco eficiente das empresas que produzem internamente
tudo ou quase tudo do que necessitam nem, tampouco, na falta de
comprometimento que muitas vezes esgarça as relações
com terceirizadas distantes de seu ambiente produtivo. Uma espécie
de Terceira Via da organização fabril que, a exemplo
da congênere sócio-política inglesa, absorve
equilibradamente o que os dois modelos anteriores têm de
melhor.
Capitais
intangíveis -- O ex-ministro da Fazenda e do Planejamento
de Minas Gerais, além de professor emérito da Universidade
Federal do Estado, Paulo Roberto Haddad, entusiasta dos clusters,
também esteve no seminário internacional de Belo
Horizonte. Haddad observa que milhares de empresas brasileiras
que compartilham das mesmas localidades poderiam resolver uma
série de problemas comuns se fizessem com que a localização
deixasse de ser mero acidente geográfico para adotar conceitos
de cluster.
"O
Brasil tem de 300 a 350 arranjos produtivos regionais formados
por pequenas e médias empresas de bens de consumo não
duráveis que simplesmente não se comunicam ou se
comunicam muito pouco" -- relata o especialista, sócio-proprietário
da Phorum Consultoria e Pesquisa. "O resultado da falta de
sinergia é a inoperância para resolver problemas
que não dependem de atitudes isoladas e tampouco de políticas
públicas ou intervenções governamentais.
A falha básica das empresas brasileiras está na
falta de trabalho coordenado para ganhar competitividade global"
-- observa.
Entre
os problemas que não se encontram nos interiores dos portões
da fábrica nem nas repartições públicas,
e que só podem ser resolvidos pela cooperação
que é a essência dos clusters, Paulo Haddad destaca
a necessidade de organização de consórcios
para exportação, qualificação conjunta
da mão-de-obra, integração para troca de
informações sobre o mercado e criação
de marcas regionais.
A
constatação de que se está desperdiçando
competitividade pelo ralo do isolamento impõe pergunta
obrigatória: por que empresas próximas tanto física
como setorialmente não se relacionam como deveriam, deixando
escapar por entre os dedos oportunidades douradas de ganhos de
escala e sinergia? A resposta de Paulo Roberto Haddad é
desconcertante para quem está acostumado a olhar o Brasil
pelas lentes multicoloridas do politicamente correto. O professor
explica que concentrações randômicas só
não se convertem em clusters de fato por falta de endogenia,
isto é, esforço endógeno, nascido das entranhas
da sociedade civil organizada para transformar a situação.
"É
preciso ter capacidade de mobilização e solidarização
política e social para buscar respostas aos desafios impostos
pela competitividade internacional. E a pré-condição
para superar um quadro de arranjo produtivo local de baixa competitividade
global é encontrar uma situação de inconformismo
nos atores sociais, políticos e econômicos. É
fundamental que a comunidade local esteja insatisfeita, ou pelo
avolumamento de problemas socioeconômicos ou porque recursos
latentes para gerar emprego e renda são subutilizados"
-- ensina o especialista.
Capital
intangível -- Paulo Haddad explica que as principais condições
de desenvolvimento de um cluster estão no que chama de
capitais intangíveis. "Uma cidade ou região
pode ter recursos importantes como infra-estrutura física
e sistema universitário, mas se esses recursos estiverem
compartimentados, não constituem bases para implementação
de cluster produtivo" -- diz. Haddad divide os capitais intangíveis
em quatro tipos, todos derivados do mais abrangente Capital Social:
_
Capital Institucional: definido pelo nível de esclarecimento
e das relações entre organizações
públicas e privadas de determinada região;
_ Capital Humano: relativo ao estoque de conhecimentos e habilidades
dos indivíduos que residem na região, além
da capacidade que têm de exercitar esse know-how;
_ Capital Cívico: medido pela tradução de
práticas de políticas democráticas, de confiança
nas instituições, de preocupação pessoal
com assuntos públicos, de associatividade entre as esferas
públicas e privadas;
_ Capital Sinergético: consiste na capacidade real ou latente
de toda a comunidade para articular democraticamente as diversas
formas disponíveis de capital intangível.
Numa
espécie de alerta à cegueira provocada por arrogância
econômica, política ou institucional, o especialista
lembra que as sociedades que foram prósperas no passado
mas entraram em processo de decadência encontram mais dificuldade
para se organizar em clusters e completar o processo de desenvolvimento
endógeno. E exemplifica: "A região sul do Rio
Grande do Sul era extremamente próspera no começo
do século XX. Entretanto, nos últimos 50 anos vem
perdendo população relativa, PIB relativo, posição
no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e produção
industrial relativa. Como o processo é lento e convive
com suposta riqueza na forma de infra-estrutura e uma elite poderosa,
o processo de reconhecimento e reversão dos problemas torna-se
mais complexo" -- explica.
A
importância dos fatores culturais no desenvolvimento econômico
é destacada com comparações internacionais
contundentes. "Quando se considera o exemplo da Alemanha
abatida pela guerra, percebe-se que infra-estrutura física,
máquinas e equipamentos foram destruídos, mas não
os capitais intangíveis que proporcionaram a reconstrução
do País com ajuda material dos Estados Unidos por meio
do Plano Marshall. Celso Furtado dizia: ponha mais dólares
no Nordeste que necessariamente não vai haver desenvolvimento.
Ou em qualquer outra região do País onde os capitais
intangíveis sejam insuficientes" -- afirma, citando
um dos mais conceituados economistas brasileiros.
Paulo
Haddad observa que toda virada de jogo regional baseada nos capitais
intangíveis obedece a cronograma bem definido: o primeiro
passo é o reconhecimento da necessidade de melhorar o quadro
econômico e de competitividade empresarial com base nos
clusters. Em seguida vem a fase de diagnóstico, que geralmente
se dá por meio de fóruns de debates nos quais prevalecem
informações técnicas baseadas em fontes independentes,
como empresas de consultoria. Depois deve-se construir agenda
de mudanças com alto grau de mobilização
social e amplo respaldo de lideranças locais. E, finalmente,
um plano de mudanças, com consistência técnica
e comprometimento para ser implementado.
O
especialista lembra que o mais amplo, vigoroso e sistemático
processo de desenvolvimento endógeno ocorrido no Brasil
em anos recentes foi levado a cabo em Minas Gerais no período
de 1968 a 1975. "Havia uma profunda sensação
de inconformismo das elites políticas, econômicas
e empresariais. Na década de 60, 17% da população
saiu de Minas Gerais rumo a outros Estados por falta de oportunidades
de trabalho e sobrevivência, um processo de migração
interna fabuloso sob qualquer ângulo de observação
internacional" -- lembra.
Com
base na urgência da situação, foi produzido
diagnóstico da economia do Estado em cinco volumes, nos
quais se identificavam problemas e potencialidades latentes. Depois
veio a agenda de mudanças. "Para a deficiência
da promoção industrial foi criado o Indi (Instituto
Nacional de Desenvolvimento Industrial). Para a deficiência
na formação de executivos foi criada a Fundação
João Pinheiro. O problema da falta de áreas industriais
foi resolvido com disponibilidade de novos espaços"
-- conta Haddad. "Diria que, pela primeira vez na história
de Minas Gerais, o poder político foi utilizado para negociar
coisas relevantes para o desenvolvimento econômico estadual"
-- dispara.
Cases
mineiros -- Além de proporcionar embasamento teórico
e científico em meio ao turbilhão de mal-entendidos
que normalmente confundem incautos quando o assunto é cluster,
o seminário internacional de Belo Horizonte apresentou
a experiência de alguns aglomerados empresariais mineiros
em fase mais adiantada de clusterização. O pró-reitor
de extensão da Efei (Escola Federal de Engenharia de Itajubá),
Renato Nunes, expôs o pólo de eletroeletrônica
no sul de Minas, que concentra cerca de 100 micros, pequenas e
médias empresas nos municípios de Santa Rita do
Sapucaí, Itajubá, Pouso Alegre, Poços de
Caldas e Caldas, além de Lorena, no Interior de São
Paulo.
Renato
Nunes explica que históricas condições educacionais
privilegiadas proporcionaram o surgimento espontâneo de
empreendimentos eletroeletrônicos na região localizada
a 400 quilômetros ao sul de Belo Horizonte. Santa Rita do
Sapucaí dispõe de ETE (Escola Técnica Eletrônica)
desde 1959 e do Inatel (Instituto Nacional de Telecomunicações),
considerado um centro de excelência, além de beneficiar-se
da vizinhança da Escola Federal de Engenharia de Itajubá.
"Guardadas as devidas proporções, assim como
a universidade de Stanford foi o pivô da formação
do Vale do Silício, os centros de estudos de Santa Rita
do Sapucaí e Itajubá serviram de plataforma para
as empresas de eletroeletrônica" -- compara Renato
Nunes.
A
concentração natural de empresas eletroeletrônicas
em torno dos centros de estudos foi acentuada e ganhou mais coesão
nos últimos dois anos com o Projeto Cresce Minas, liderado
pela Federação das Indústrias. No curto período
entre 1999 e 2001, nada menos que 25 novas empresas instalaram-se
em Santa Rita do Sapucaí graças a trabalho integrado
entre Prefeitura e Sindicato das Indústrias de Aparelhos
Eletroeletrônicos e Similares do Vale da Eletrônica.
Entre as empresas atraídas está a taiwanesa Phihong,
fornecedora mundial da Motorola.
A
melhoria da competitividade também foi perseguida com série
de ações de treinamento e prospecção
de negócios conduzida por lideranças empresariais,
institucionais e públicas do Projeto Rota Tecnológica
459, como o plano é chamado em alusão à rodovia
federal que interliga os municípios.
Até
1999 apenas duas empresas possuíam licenciamento ambiental.
Ao final de 2001 serão 22; sete empresas estão em
processo de certificação ISO, mais que o dobro das
três certificadas até 1999; de 1999 e 2001 as empresas
participaram de 11 seminários sobre temas como meio ambiente,
evolução de tecnologias e serviços na área
de telecomunicações, capital de risco e formação
de consórcios exportadores. Entre muitas outras ações
incluem-se participação em 13 feiras nacionais e
internacionais, captação de financiamentos públicos
e esforço de marketing com veiculação de
anúncios em tevês, rádios, jornais e revistas.
"Também queremos eleger deputados que formariam a
bancada da Rota 459" -- inclui Renato Nunes.
A
presidente da Fundação Biominas, Patrícia
Mascarenhas, expôs a experiência do maior pólo
de biotecnologia da América Latina, localizado na região
de Belo Horizonte e Montes Claros. O pólo é formado
por 58 empresas que empregam 4.273 funcionários e que faturaram
R$ 416,7 milhões no ano passado.
A
Fundação Biominas é exemplo do cooperativismo
que forma a espinha dorsal do conceito explorado por Michael Porter.
A instituição criada em 1990 por grupo de empresas
de biotecnologia promove constante intercâmbio de conhecimentos
e experiência por intermédio de infra-estrutura técnica
que envolve equipamentos de última geração
como central de esterilização, câmaras frias
e áreas de estocagem. "A Fundação proporciona
ambiente estimulante para troca de informações e
auxílio mútuo na área técnico-científica"
-- descreve.
A
Fundação Biominas também atua como incubadora
e oferece apoio na elaboração de planos de negócios
e estudos de viabilidade técnica e econômica, além
de dar suporte logístico e laboratorial. Atualmente 12
empresas estão incubadas na Biominas, da qual já
se emanciparam a JHS, fundada por duas professoras aposentadas
da Universidade Federal de Minas Gerais que desenvolveram osso
sintético utilizado em cirurgias de reconstituição;
Ferrara Ophthalmics, responsável por dispositivo que corrige
doenças como astigmatismo e presbiopia; além da
Katal, especializada em produção de kits de diagnóstico
em forma líquida, além de kit para câncer
de próstata. A criação da Fundação
Biominas há 11 anos foi capitaneada por duas das maiores
empresas do pólo mineiro de biotecnologia, a Valle, de
produtos veterinários, e a Biobras, fabricante de insulina.
A
exemplo da concentração de empresas eletroeletrônicas
no sul do Estado, a proliferação de negócios
em biotecnologia e a consolidação da Fundação
Biominas também estão relacionadas à atmosfera
científica. A Universidade Federal de Minas Gerais tem
mais de 160 PhDs na área de ciências biológicas
e produziu quase cinco mil publicações nos últimos
dois anos. Além da UFMG, Universidade Federal de Viçosa
e Escola Técnica de Biotecnologia, ajudam a forjar massa
crítica essencial à formação de clusters
centros de pesquisas como o Instituto Renê Rachou e a Fundação
Centro Tecnológico de Minas Gerais. Das 58 empresas de
biotecnologia na região de Belo Horizonte e Montes Claros,
18 são do setor de diagnóstico humano e 11 da área
farmacêutica.
O
pólo calçadista de Nova Serrana é outra experiência
de setorização regional ilustrada no seminário
internacional sobre clusters. Sapatos, botas, chinelos e tênis
são produtos indispensáveis ao equilíbrio
socioeconômico local. Com produção de 330
mil pares por dia, a indústria de calçados é
responsável por 15 mil empregos diretos, que representam
70% do total de vagas de trabalho do Município. A concentração
de cerca de 800 produtores de calçados em Nova Serrana
não figura entre as que se adequam com mais facilidade
no conceito de cluster porque gera produtos simplórios,
de baixo valor venal (Michael Porter afirma que produtos de alto
valor agregado baseados em inovações constantes
são parte do código genético dos verdadeiros
clusters). Apesar disso, é possível perceber características
de cluster no tocante à união de esforços
em proveito de todas as empresas.
Com
apoio de 35% das empresas da cidade, o sindicato patronal de Nova
Serrana alugou estação de CAD/CAM para facilitar
tarefas de desenho e corte dos moldes dos tênis e sapatos
-- a primeira da cidade -- e montou laboratório para testes
de qualidade de produtos acabados segundo normas da ABNT (Associação
Brasileira de Normas Técnicas).
A
inauguração em julho último do Showroom Permanente
de Calçados é outra tacada importante. O empreendimento
tem mais de três mil produtos expostos em quase 170 estandes
e é voltado ao atendimento de atacadistas de outras regiões
que antes precisavam se deslocar entre dezenas de fábricas
em busca de variedade de modelos. Com a organização
de cooperativa de compras de matérias-primas e equipamentos,
alcançam-se melhores condições de negociação
e contorna-se o gargalo da distância dos fornecedores instalados
em outros Estados. "Não faz sentido brigarmos entre
nós" -- enfatiza Jarbas Pinto Martins, vice-presidente
do Sindicato das Indústrias de Calçados de Nova
Serrana. "Somos muito pequenos para enfrentar mercados que
estão além da nossa região" -- completa.
Que
a constatação do humilde produtor de calçados
de Nova Serrana encontre abrigo nas lideranças públicas,
privadas e institucionais de cidades e regiões que foram
prósperas no passado, mas se encontram em espiral de decadência
socioeconômica exatamente pela dificuldade de reconhecer
que os tempos de vacas gordas se foram e novas providências
são simplesmente inadiáveis.
* Matéria publicada na edição
de outubro de 2001 da revista LIVRE MERCADO.
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André Marcel de Lima é jornalista especializado
em metropolização e coordenador editorial do IEME.
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