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| Metropolização
com mais dinheiro* |
ANDRÉ
MARCEL DE LIMA**
A hemorragia
arrecadatória de municípios que perdem base tributária
industrial como os do Grande ABC deixa ainda mais clara uma necessidade
tão conhecida de especialistas em federalismo fiscal quanto
negligenciada pelo governo federal: a de conferir tratamento diferenciado
às regiões metropolitanas, que ao longo dos anos
se converteram em focos de problemas urbanos, ambientais e socioeconômicos
pela combinação de overdose populacional e anorexia
de recursos e investimentos.
Um dos melhores
instrumentos de que o governo central disporia para assistir às
regiões mais problemáticas do País seria
a criação de um Fundo de Participação
das Regiões Metropolitanas, que não implicaria em
novos impostos, mas apenas no redirecionamento de recursos existentes.
O autor da proposta é o economista Marcos Mendes, consultor
do Senado Federal e membro do Instituto Fernand Braudel de Economia
Mundial.
A proposta
de Marcos Mendes não é nova. Ele sugeriu a criação
do fundo metropolitano em 1994, na condição de economista
do Banco Central, em trabalho sobre novas diretrizes para o federalismo
fiscal brasileiro. Mas a idéia está mais fresca
do que nunca. Afinal, o comprometimento de regiões e microrregiões
metropolitanas como a Grande São Paulo e o Grande ABC deve-se
muito à falta de ações e políticas
específicas como a concebida por Marcos Mendes no ano do
lançamento do Real.
O maior achado
do fundo proposto pelo economista é constituir fonte permanente
de recursos às caóticas regiões metropolitanas,
uma vez que a escassez de recursos estáveis é o
nó górdio do modelo brasileiro de metropolização
desde que foi concebido pelo regime militar na década de
60. Marcos Mendes explica que o Fundo de Participação
das Regiões Metropolitanas seria formado por fatias do
FPM (Fundo de Participação dos Municípios),
do FPE (Fundo de Participação do Estado) e do ICMS
(Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços).
"A idéia
não seria simplesmente pegar esse dinheiro e dividir entre
municípios metropolitanos de acordo com algum critério
objetivo, como tamanho da população ou índice
de pobreza. O melhor seria usar os recursos para financiar investimentos
metropolitanos. Dois ou mais municípios apresentariam um
projeto -- como corredor de transporte, usina de lixo, despoluição
de rio, remoção de habitações em áreas
de risco e políticas de inclusão social e prevenção
da violência -- e o fundo financiaria parte do projeto,
que deveria contar também com verbas dos municípios
envolvidos" -- explica o consultor do Senado. "Obviamente
seria preciso criar um conselho para gerir os recursos, como existe
para a gestão do FGTS" -- completa.
Como o repasse
do FPRM não seria automático e incondicional como
o do FPM, a aprovação do fundo traria desafio aos
governantes do Grande ABC: prefeituras que se especializaram em
oferecer programas de assistência social para amenizar os
efeitos da miséria crescente teriam que ficar experts também
em formatar projetos integrados e convincentes para atrair recursos
adicionais.
Para que
os recursos à disposição das regiões
metropolitanas cresçam sem que haja criação
de impostos, os recursos voltados a cidades e regiões não
metropolitanas têm necessariamente de diminuir: eis o obstáculo
prático para a implementação do FPRM.
Levando-se
em conta que o FPM (composto com a arrecadação do
Imposto sobre Produtos Industrializados e Imposto de Renda) é
a principal fonte de financiamento de um sem número de
pequenas cidades brasileiras e o ICMS é o principal tributo
estadual, alterar o critério de partilha equivaleria a
mexer num vespeiro de interesses. "Para aprovar o fundo,
seria necessário não só a mobilização
de parlamentares das regiões metropolitanas, sub-representadas
no Congresso, mas também o convencimento de parlamentares
de regiões interioranas, que ao contrário são
sobre-representadas no Congresso. "De qualquer forma, a aprovação
de lei complementar não exige fórum qualificado.
Basta o voto favorável de metade mais um dos presentes
à seção de votação" --
explica.
*Matéria
publicada na edição de outubro de 2002 da revista
LIVRE MERCADO.
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ANDRÉ MARCEL DE LIMA é jornalista profissional especializado
em metropolização
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