|
| Metropolização,
um fracasso sem data de validade* |
André
Marcel de Lima**
Daniel Lima**
Malu Marcoccia**
Vera Guazzelli**
Metropolização
é fantasia que faz parte do Carnaval de ilusões
do recorte institucional formal e informal do Brasil. Parida pelo
Regime Militar e alterada na Constituição de 1988,
a formação de regiões metropolitanas ficou
presa à burocracia do papelório oficial que infesta
gabinetes de governadores. O jogo do faz-de-conta típico
do Estado brasileiro cria carruagens miraculosas que se tornam
abóboras de patéticas desilusões e torna
as regiões metropolitanas brasileiras experiências
indestrutíveis de anarquia urbana. Os indicadores de qualidade
de vida estão aí para comprovar. Páginas
policiais, escândalos políticos e péssimos
exemplos de urbanismo massificam-se nos municípios só
aparentemente protegidos pela legislação, porque
na prática, como mostra esta Reportagem de Capa, são
mesmo é discriminados.
Foi
exatamente para discutir a questão metropolitana brasileira,
tendo como pano de fundo a informal regionalidade do Grande ABC.
que o Consórcio Intermunicipal de Prefeitos dessa região
colada à Capital paulista reuniu vários especialistas
em meados deste mês em São Caetano. Organizado com
antecedência, o encontro materializou a depauperação
institucional do próprio assunto-tema. Dos sete prefeitos
do Grande ABC, três nem deram as caras. Vereadores, deputados
estaduais, deputados federais, representantes da sociedade civil,
sindicalistas, acadêmicos e lideranças empresariais
da região também se ausentaram em massa.
Tudo
isso não poderia ser mais emblemático da situação
em que se encontra a regionalidade local. Se nem um evento que
comemorava o 10º aniversário do Consórcio de
Prefeitos conseguiu sensibilizar o público mais diretamente
interessado, o que esperar do futuro dessa espécie de órgão
gestor do que pretendia ser um Grande ABC metropolizado informalmente?
Tradicionalmente
voltada para questões regionais, por considerar a temática
decisiva para a competitividade nacional, a Editora Livre Mercado
acompanhou os dois dias do seminário realizado no Imes,
autarquia municipal de Ensino Superior de São Caetano que
oferece curso inédito nos bancos escolares voltado exatamente
à regionalidade.
Nem
todos os debatedores que participaram do encontro no Grande ABC
aparecem nesta Reportagem de Capa. A explicação
é simples: alguns perderam-se em meio aos debates porque
estavam absolutamente despreparados para o temário, enquanto
outros acabaram por cancelar presença. A essência
do seminário foi minuciosamente acompanhada e a conclusão
é bastante desagradável: as regiões representadas,
exceto a Baixada Santista, são um descarado painel de desencanto.
No fundo, no fundo, os depoimentos de especialistas ofereceram
camadas sobrepostas de improdutividades do Estado brasileiro em
suas três dimensões -- União, Estados e municípios.
Não
é difícil entender por que as regiões metropolitanas
expostas no seminário e as demais que constam do mapa geoeconômico
nacional transformaram-se em enxadrísticos referenciais
de vaidades, ciúmes e intrigas políticas. O que
esperar de um encontro no qual o próprio prefeito da cidade-sede
da festa de comemoração do aniversário do
chamado Consórcio Intermunicipal, Luiz Tortorello, não
constou de qualquer um dos painéis. O prefeito de São
Caetano é o dirigente municipal que mais resiste à
integração do Grande ABC por acreditar que perderia
precioso tempo em discussões demais e resoluções
de menos.
Paradoxo
-- O professor-doutor Fernando Abrucio, da PUC São Paulo
e da Fundação Getúlio Vargas, sublinha um
paradoxo que coloca em xeque a sustentabilidade socioeconômica
das regiões metropolitanas brasileiras. É sabido
que as regiões metropolitanas necessitam de tratamento
especial em relação a repasse de recursos financeiros
e atenção governamental na condição
de grandes núcleos populacionais e urbanos. Mas, na contra-mão,
são proporcionalmente menos assistidas tanto em termos
econômicos quanto políticos em razão da forma
de distribuição de tributos e de peculiaridades
do sistema eleitoral brasileiro. Em outras palavras: essas regiões
mais complexas e problemáticas, e que demandam mais cuidados
por terem sofrido processo desajustador de urbanização
acelerada, são justamente as que menos usufruem de suporte
governamental e reforço econômico.
Amparado
em pesquisas acadêmicas, Fernando Abrucio nota que há
claro viés antimetropolitano no sistema governamental de
distribuição de recursos financeiros. Cita como
exemplo o critério de redistribuição de ICMS
(Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços)
para os municípios paulistas, pelo qual o peso da variável
produção industrial é muito mais significativo
que o da variável população. Trata-se de
critério flagrantemente desfavorável às regiões
metropolitanas, que mais perderam produção industrial
relativa nos últimos anos (por conta da desconcentração
motivada em grande medida pela guerra fiscal) e nas quais remanescem
grandes contingentes populacionais cada vez mais dependentes de
serviços públicos.
"A
maior parte dos recursos financeiros não vai para as regiões
que concentram parcelas maiores da população. E
normalmente onde vive a maior parte da população
é onde existe a maior parte de problemas, que obviamente
demandam mais recursos públicos" -- destaca. "A
questão tributária tem que ser repensada gigantescamente
no Brasil, e não apenas em relação a como
fazer o ajuste fiscal, o que vem sendo muito discutido nos últimos
anos. O critério de representatividade dos impostos, de
qualidade tributária, também merece atenção,
mas ninguém discute" -- aponta o especialista.
A
pregação do professor Fernando Abrucio está
sintonizada com posição assumida há tempos
por LIVRE MERCADO, que conferiu à necessidade de alterações
no critério de redistribuição de ICMS tema
de Reportagem de Capa na edição estadual de outubro
de 2000. Especializada em regionalidade econômica, LM entende
que tanto as áreas metropolitanas reconhecidas como as
não-oficializadas que têm as mesmas características
perdem muito com a lógica de redistribuição
em vigor. Não faz sentido que uma cidade de 50 mil habitantes
como Paulínia, no Interior paulista, seja contemplada com
naco enorme de ICMS per capita por ter tido a sorte de sediar
um pólo petroquímico, enquanto municípios
mais populosos e com graves problemas socioeconômicos recebam
ninharia por habitante. "A redistribuição de
ICMS responde ao princípio de origem, e isso é um
equívoco tributário banal" -- destaca Fernando
Abrucio.
Além
de desfavorecidas pelo critério de distribuição
de recursos públicos, regiões metropolitanas são
desassistidas por governadores dos respectivos Estados porque
os políticos, geneticamente interessados em dividendos
eleitorais, estão cada vez mais dispostos a semear eleitores
em localidades mais afastadas do Interior. E por uma questão
lógica aos olhos de quem depende de votos: no Interior
dos Estados é mais fácil se diferenciar porque há
menos competição política do que nas metrópoles,
congestionadas sob o ponto de vista político-partidário.
"Em
São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do
Sul, o político que souber trabalhar o Interior garante
vitória nas eleições estaduais, simplesmente
porque as regiões metropolitanas dos grandes Estados são
muito mais disputadas e não asseguram margem expressiva
de destaque" -- observa Fernando Abrucio. Ele comenta que
só na Região Metropolitana de São Paulo pelo
menos três vértices exercem força política
muito forte: a direita representada pelo malufismo, o PSDB e o
PT. "Raríssimamente alguém consegue ter mais
do que 30% dos votos nas regiões metropolitanas. Agora,
no Interior dá para ganhar a eleição"
-- destaca. "Os ex-governadores Quércia e Fleury souberam
trabalhar o Interior muito bem, e Mário Covas só
chegou ao segundo turno na segunda eleição pela
mesma razão" -- recorda.
Fernando
Abrucio afirma que falta mobilização política
aos cidadãos metropolitanos, que nada ou muito pouco fazem
para mudar a situação. "Se as regiões
metropolitanas brasileiras somam mais de 50% da população,
por que não são beneficiadas? Porque são
mal organizadas. Enquanto as metrópoles não acordarem
para a força que têm, será difícil
mudar a situação" -- comenta.
A
transformação dos sete municípios do Grande
ABC em região metropolitana à parte da Grande São
Paulo é considerada um equívoco por Fernando Abrucio.
Ele sustenta que eventual descolamento da Região Metropolitana
de São Paulo é contra-indicado porque as regiões
metropolitanas da Baixada Santista e de Campinas poderiam aproveitar
o divisionismo para atrair empresas do Grande ABC, o que intensificaria
ainda mais as deserções industriais na região-berço
da indústria automotiva brasileira nos anos 50 e 60. "Ficar
dividindo o ABC em relação a São Paulo é
arranjar briga com São Paulo" -- alerta. "Campinas
pode se aproveitar dizendo às empresas: viu só como
eles estão se dividindo..." -- completa. Abrucio afirma
que seria mais recomendável fortalecer a Grande São
Paulo e cuidar das especificidades municipais e regionais do universo
de 39 municípios do que criar uma região metropolitana
dentro da outra. "Dividir é contraproducente porque
vai contra a lógica da cooperação" --
entende.
O
ponto de vista do professor é coerente para quem vive e
trabalha na Capital paulista, mas choca a sensibilidade de quem
mora e tira o sustento do Grande ABC, região que sofre
com debandada industrial na mesma medida em que carece de identidade
regional. O fato é que o Grande ABC sempre foi arremedo
da Capital e nunca se beneficiou por integrar no papel a maior
região metropolitana do País. Como ninguém
perde o que nunca possuiu, até porque as regiões
metropolitanas forjadas no governo militar não passam de
ficção, o Grande ABC só teria a ganhar se
trilhasse o caminho desbravado por Baixada Santista e Grande Campinas.
Esta é a defesa histórica de LIVRE MERCADO, que
entende a constituição da Região Metropolitana
do Grande ABC não propriamente como uma divisão
irreparável aos demais municípios da Grande São
Paulo, mas, entre outras razões, como forma de organizar
os sete municípios em sintonia com as variáveis
da RMSP, não os excluindo do processo.
Desbalanceamento
-- Não é preciso ser especialista em geografia econômica
para reconhecer que as metrópoles e os grandes centros
urbanos brasileiros apresentam enormes problemas de desbalanceamento
socioeconômico resultantes de infeliz conjugação
de dois fatores: surto urbanizatório no passado e perdas
econômicas em anos mais recentes. Mas a espiral de desgaste
da qualidade de vida e da anorexia financeira pode ser revertida
desde que a sociedade se mobilize. É o que pensa o holandês
Jeroen Klink, professor de curso de mestrado no Imes de São
Caetano e secretário de Relações Internacionais
da Prefeitura de Santo André.
Jeroen
Klink enfatiza a importância da existência do que
chama de capital relacional entre atores públicos, privados
e institucionais para a reconversão socioeconômica
de cidades-regiões e metrópoles. Especialista em
regionalidade, ele explica que capital relacional é uma
modalidade de capital intangível representado pela predisposição
à cooperação mútua entre Poder Público,
empresas, sindicatos e universidades. Para quem jamais ouviu a
expressão, na verdade se trata do mais conhecido Capital
Social.
"Não
se deve acreditar no discurso de que as cidades-região
têm pouca governabilidade face à pujança das
forças macroeconômicas, tais como câmbio, taxa
de juros e políticas fiscais e monetárias, e face
à reestruturação microeconômica das
grandes cadeias produtivas ditada pela globalização"
-- alerta Jeroen Klink com seu leve sotaque holandês. "Muito
pode ser feito por intermédio de mobilização
dos atores socioeconômicos em torno de ideais comuns"
-- acredita.
Jeroen
Klink embasa a crença pessoal no regionalismo em observações
internacionais. Ele chama atenção para o fato de
que a gestão das cidades-região vem mudando em escala
mundial. As cidades estão deixando de ser meras executoras
de tarefas estanques, determinadas sob a ótica estrita
do Poder Público tradicional, para assumir papel adicional
de articuladoras e orquestradoras dos instrumentos socioeconômicos,
como sindicatos, universidades e empresas. "Novos temas surgem
na pauta da agenda local ligados sobretudo ao desenvolvimento
econômico sustentado" -- observa. "Essa tendência
é visível desde a década de 70 nas cidades
norte-americanas e européias, e no Brasil a partir dos
anos 90" -- explica.
Klink
nota que uma das ferramentas que o Poder Público pode empunhar
na condição de articulador e com olhos no desenvolvimento
auto-sustentado é a adoção de distritos industriais
marshalianos. O termo deriva de Alfred Marshall, economista notabilizado
pela tese sobre as vantagens das aglomerações produtivas
no final do século XIX. O conceito de aglomerações
produtivas foi aperfeiçoado mais recentemente e ganhou
nova nomenclatura. Passou a ser conhecido como cluster e está
relacionado com o norte-americano Michael Porter, o maior especialista
na matéria. Independentemente do nome, o importante é
saber quais relações de coopetição
(cooperação para competição) entre
empresas de segmentos convergentes instaladas na mesma área
geográfica trazem ganhos mútuos e duradouros de
competitividade e alavancam a saúde socioeconômica
da região onde estão instaladas.
"O
principal papel da política pública no panorama
moderno seria colocar em marcha as forças de desenvolvimento
endógeno. Uma das formas é estimular a troca de
informações entre produtores e fornecedores locais,
bem como o relacionamento entre centros universitários
e empresas para catapultar a geração de inovações"
-- observa.
O
professor Jaime Rodrigues, da Metroplan (Fundação
Estadual de Planejamento Metropolitano e Regional) do Rio Grande
do Sul, expôs a experiência da aglomeração
urbana do nordeste do Estado, que reúne 10 municípios
responsáveis por 17% do PIB (Produto Interno Bruto) industrial
gaúcho. "Trata-se de aglomeração com
vida independente da Região Metropolitana de Porto Alegre
e forjada ao longo da história pelo impulso empreendedor
e recursos financeiros dos próprios habitantes, majoritariamente
descendentes de italianos" -- explica Jaime Rodrigues. Na
região estão a maior indústria de vinho do
País, as maiores fabricantes brasileiras de carrocerias
para caminhões e ônibus -- como a Marcopolo --, além
de indústrias metalmecânicas, de roupas e movelaria.
Tudo
azul no pujante aglomerado do nordeste do Rio Grande do Sul? Errado.
A participação no PIB industrial é significativa,
mas o problema é que já foi muito maior antes de
ser diretamente afetada pela globalização econômica.
"A participação relativa no PIB industrial
tem caído continuamente nos últimos anos" --
afirma Jaime Rodrigues. "As dificuldades brasileiras refletem
de forma muito poderosa na região e a situação
não é das melhores" -- acrescenta. Os desafios
não se restringem ao carro-chefe industrial. "Até
pouco tempo atrás não havia supermercados que não
fossem locais. Com a chegada em massa de redes estrangeiras, quem
não consegue competir simplesmente desaparece" --
lamenta o professor da Metroplan.
Assim
como no Grande ABC e em regiões duramente afetadas pelo
enfraquecimento industrial, no aglomerado do nordeste do Rio Grande
do Sul perdas econômicas revelam-se na forma de altos índices
de desemprego, aumento da população favelada e loteamentos
irregulares, bem como no aumento da criminalidade.
Lideranças
públicas do aglomerado sulista criaram um conselho regional
de desenvolvimento que obteve apoio formal do governo do Estado
de forma muito semelhante como os sete prefeitos do Grande ABC
formaram o Consórcio Intermunicipal para ampliar o poder
regional de sensibilização e negociação
junto ao governo paulista. Tanto no caso da aglomeração
dos 10 municípios do Rio Grande do Sul como no das sete
cidades do Grande ABC, os resultados foram inferiores ao minimamente
necessário. "Estamos tentando formar uma política
regionalizada com o governo atual. Mas ainda temos muito a caminhar.
Há dificuldade enorme na articulação de políticas
públicas que envolvem várias cidades" -- comenta
Jaime Rodrigues.
Grande
ABC -- O jornalista Daniel Lima, diretor-executivo de LIVRE MERCADO,
fez duras críticas à realidade institucional do
chamado Grande ABC, sete municípios que somam 2,3 milhões
de habitantes, perto de 9% do PIB (Produto Interno Bruto) do Estado
e 2,8% do PIB nacional. Utilizando-se de referências internacionais
e contrapondo-as à situação da região,
que vive uma junção de desemprego elevado, evasão
industrial contínua, enxugamento seletivo da indústria
automotiva e invasão do setor comercial por grandes conglomerados,
Daniel Lima afirmou que o Grande ABC vive situação
socioeconômica dramática, captada em vários
indicadores estatísticos oficiais: "E tudo isso combinado
nos dois ou três últimos anos com espécie
de orfandade social e desintegração regional"
-- apontou.
O
Grande ABC apresentou nos últimos 10 anos comemorados pelo
Consórcio Intermunicipal de Prefeitos espécie de
ascensão e queda institucionais. Em 1991, quando foi criado
o Consórcio de Prefeitos, substituía-se o municipalismo
autárquico por um embrião de integração
regional no vácuo da falência da Região Metropolitana
de São Paulo. Com a chegada de novos prefeitos em 1992,
houve recuo nas relações, que só foram resgatadas
a partir de 1996, quando vários dos prefeitos eleitos em
1988 voltaram aos paços municipais, casos de Celso Daniel
(Santo André), Maurício Soares (São Bernardo)
e Luiz Tortorello (São Caetano).
Nesse
ínterim, em 1994 surgiu o Fórum da Cidadania, movimento
que reuniu lideranças de diferentes entidades sociais,
econômicas e sindicais. O Fórum da Cidadania provocou
a retomada do Consórcio de Prefeitos e fez surgir a Câmara
Regional, instância que o então secretário
de Planejamento Econômico do Estado, Emerson Kapaz, pretendia
reproduzir em vários pólos econômicos paulistas.
O plano ficou apenas na intenção de quem mais tarde
acabou eleito deputado federal.
Depois
de viver até 1998 muita mobilização e produzir
planos ambiciosos sem as ações correspondentes,
a integração do Grande ABC, segundo Daniel Lima,
entrou em depressão. Numa avaliação dura,
o jornalista afirmou que o Fórum da Cidadania já
morreu, depois de perder-se entre o consenso insensato e o democratismo
confundido com democracia. Quanto ao futuro da Câmara Regional
e do Consórcio de Prefeitos, acredita o jornalista que
é possível recuperá-los, até porque
têm corpos técnicos das prefeituras que não
podem ser desprezados.
Da
mesma forma está a Agência de Desenvolvimento Econômico,
braço estatístico e operacional da Câmara
e do Consórcio que sofre com falta de recursos para contratação
de funcionários administrativos, quanto mais de técnicos
específicos. Para as três instâncias, Daniel
Lima defende a profissionalização gerencial como
medida inadiável. "Voluntarismo é importante
para as Madres Terezas" -- disse, referindo-se a mulheres
que dirigem entidades assistenciais no Grande ABC e que recentemente
foram homenageadas no Prêmio Desempenho, da Editora Livre
Mercado.
Daniel
Lima lançou mão de ensinamentos de quatro especialistas
internacionais para potencializar as restrições,
críticas e perspectivas para a sociedade do Grande ABC.
Recorreu ao italiano Domenico Di Masi, pregador da ociosidade
produtiva, aos norte-americanos Peter Ducker, farejador de tendências
do mundo capitalista, e Michael Porter, profeta da competitividade
regional, e também ao inglês Anthony Guiddens, guru
da Terceira Via, junção de governo, sociedade e
mercado, para dizer que o Grande ABC não está conseguindo,
minimamente, reunir esses atributos.
O
prefeito Celso Daniel, de Santo André, um dos criadores
do Consórcio Intermunicipal de Prefeitos do Grande ABC
e entre os principais incentivadores da Câmara Regional,
além de diretor-titular da Agência de Desenvolvimento
Econômico, preferiu amenizar o discurso sobre a denunciada
debacle da institucionalidade regional. O dirigente passou mais
tempo preocupado em traçar didaticamente o histórico
social e econômico do Grande ABC, sem aprofundar-se nos
aspectos institucionais mais recentes.
Em
nenhum instante Celso Daniel deixou escapar críticas aos
demais prefeitos da região, quatro dos quais do Partido
dos Trabalhadores, do qual faz parte. Optou por criticar a mídia,
tanto regional quanto da Grande São Paulo. A primeira,
embora não apontasse os veículos nominalmente, pelo
que chamou de "descarrilamento" na cobertura dos acontecimentos
locais, sugerindo uma sintonia mais próxima das lideranças
políticas. E a segunda por especializar-se em procurar
apenas destacar os casos supostamente negativos envolvendo a região,
sobretudo na esfera policial.
O
prefeito de Santo André deixou para o final de sua apresentação
algumas propostas para alterar o quadro institucional do Grande
ABC. Especificamente disse que é preciso tornar compulsória
a arrecadação de receitas que possam garantir a
contratação de quadros administrativos e técnicos.
Entretanto, em nenhum momento fez ressalvas ao fato de a Agência
de Desenvolvimento que dirige viver em constante dificuldade por
causa da inadimplência dos associados. A ONG é mantida
com recursos das prefeituras do Grande ABC, instituições
representativas das classes empresarial e sindical e também
por empresas privadas.
O
secretário de Desenvolvimento Econômico de São
Bernardo, José Humberto Celestino Macedo, que substituiu
o prefeito Maurício Soares, garantiu que levaria para a
prática a sugestão do jornalista Daniel Lima: irá
procurar a Bamberg e a Herzog, consultorias paulistanas especializadas
em transações imobiliárias relacionadas à
localização ou relocalização de empresas
dos setores industrial, comercial e de serviços. O secretário
municipal ocupa o cargo há apenas um ano e disse que pretende
saber por que fábricas que estão no Município
foram ou pretendem ir para o Interior do Estado em busca de maior
competitividade, como denunciou LIVRE MERCADO nas edições
Grande ABC e Estadual de outubro.
Baixada
avança -- A sutil diferença entre os conceitos de
metropolização e regionalidade fornece subsídios
preciosos para a análise das experiências metropolitanas
no Estado de São Paulo. Enquanto a Grande São Paulo
coleciona mais disparidades socioeconômicas do que exemplos
concretos de ações integradas, regiões metropolitanas
recentes como a da Baixada Santista já exibem resultados
porque buscam métodos pragmáticos de organização.
Comparar
a Região Metropolitana de São Paulo com a Região
Metropolitana da Baixada Santista seria incorrer no erro da visão
míope que distorce a imagem real. A primeira forjou-se
sob o conceito antiquado de que bastaria uma lei e algumas políticas
de gabinete para enquadrar 39 municípios com muita proximidade,
mas pouca similaridade, sob a mesma área geográfica.
A segunda foi alçada à condição legal
de metrópole apenas em 1996, momento em que o papel da
sociedade organizada começou a tornar-se imprescindível
no processo de desenvolvimento econômico das cidades e respectivas
regiões.
Os
municípios de Santos, Guarujá, Cubatão, São
Vicente, Praia Grande, Mongaguá, Peruíbe, Itanhaém
e Bertioga foram os primeiros fora dos entornos das Capitais a
formarem uma região metropolitana. "Estamos começando
a aprender como se faz metropolização" -- afirma
o diretor-adjunto da Agem (Agência Metropolitana da Baixada
Santista), Rivaldo Otero.
A
Agem é o braço administrativo e órgão
executor do Condesb (Conselho de Desenvolvimento da Baixada Santista),
cujo custeio é rateado paritariamente -- 50% pelo Estado
e 50% pelos nove municípios. Rivaldo Otero também
preside o Fundo de Desenvolvimento Metropolitano, órgão
da gestão integrada encarregado de gerenciar os recursos
destinados à realização dos projetos na Baixada
Santista.
Desde
o ano passado ficou estabelecido que Estado e municípios
deveriam contribuir mensalmente com R$ 262 mil, rateados em partes
iguais. Às cidades ficou condicionado valor de prestação
de acordo com o volume populacional cruzados com indicadores econômicos.
Assim, Bertioga contribui com R$ 2,9 mil e Santos com R$ 45 mil.
O
equacionamento da contribuição mensal foi passo
fundamental para que a metropolização da Baixada
Santista deixasse o papel. Discussões e idéias encerram-se
em si mesmas se não houver recursos financeiros para operacionalização.
A Agem tem 11 projetos em andamento, entre os quais o Plano Metropolitano
de Desenvolvimento Integrado e o Novo Sistema Cartográfico
com dados georeferenciados. Também foi responsável
pela realização do Estudo de Impacto da Segunda
Pista da Rodovia Imigrantes no sistema viário local, já
concluído.
O
fundo metropolitano dispõe de R$ 2,6 milhões e regras
definidas. Todos os projetos aprovados devem ser contratados por
meio de licitação pública e estão
sujeitos à fiscalização do Tribunal de Contas.
Também foi encontrada fórmula para inibir a inadimplência
registrada no início do processo. As cidades que haviam
feito depósitos regulares até abril de 2000 ganharam
o direito de colocar sob a apreciação da Agem projetos
municipais de interesse regional com valor equivalente ao dobro
do contribuído ao fundo até aquela data. A medida
estimulou a regularidade dos pagamentos e o fundo ainda deverá
receber reforço de R$ 5 milhões. O valor está
previsto no Orçamento do Estado para 2002 , que está
na Assembléia Legislativa para votação.
Campinas
espera -- A Região Metropolitana da Baixada Santista, institucionalizada
em 1996, demorou cerca de quatro anos para encontrar maneiras
de começar a caminhar com as próprias pernas. Com
Campinas não deve ser diferente. O Município e outras
18 cidades do entorno tornaram-se oficialmente região metropolitana
em meados do ano passado e ainda discutem como operacionalizar
a articulação conjunta.
O
ex-prefeito de Campinas Antônio Costa Santos, assassinado
em 10 de setembro último, chegou a propor que o Conselho
de Desenvolvimento da RMC não tivesse um presidente e fosse
gerido de forma solidária. Recentemente o prefeito de Vinhedo,
Milton Serafim, foi eleito para presidir o conselho e o Estado
destinou R$ 600 mil para sua instalação. A idéia
original de que a RMC estivesse instalada nos dois primeiros meses
deste ano também esbarrou na burocracia e nas dificuldades
de vencer o individualismo.
"Despartidarizar
a discussão é o grande desafio" -- alerta Rivaldo
Otero, um dos debatedores do painel A Experiência Metropolitana
no Estado de São Paulo junto com o secretário de
governo da Prefeitura de São Paulo, Rui Falcão.
Um representante de Campinas também foi convidado, mas
não compareceu ao evento realizado em São Caetano.
As
regiões metropolitanas da Baixada Santista e de Campinas
precisam procurar caminhos próprios porque não podem
espelhar-se na Grande São Paulo. Fruto do período
militar, a divisão geográfica que aglomerou grandes
Capitais e cidades vizinhas serviu para muito pouco além
de acomodar interesses políticos. Na maioria dos casos,
o gigantismo das Capitais e de algumas cidades mais desenvolvidas
ofuscou as demais, tornando-as apenas coadjuvantes de processo
crescente de deterioração urbana e da qualidade
de vida.
"São
Paulo não pode ser uma ilha e nem ter os outros 38 municípios
subordinados à sua vontade" -- destacou o secretário
de Governo da Prefeitura de São Paulo, Rui Falcão.
A afirmação é sensata, mas equiparar a pujança
natural da cidade de São Paulo às dificuldades inerentes
da pequenina Rio Grande da Serra requer mais que retórica
politicamente correta. São dois pesos e duas medidas que
podem definir a tênue linha entre metropolização
e regionalidade.
O
Grande ABC é exemplo emblemático. Inserido na Região
Metropolitana de São Paulo e destacado no Brasil como ABC
Paulista, acabou tomado por complexo de inferioridade fomentado
pela proximidade com a Capital. Por conta disso, errou o passo
em muitas decisões públicas de relevância
e perdeu riquezas para cidades mais articuladas e regiões
politicamente fortes.
A
Assembléia Legislativa registra inúmeros projetos
que solicitam a transformação de diferentes áreas
do Estado em regiões metropolitanas. O projeto que pede
a criação da Região Metropolitana do Grande
ABC é datado de 1995. Não foi para frente porque
esbarrou em impedimentos legais e picuinhas políticas.
BH
e Grande Rio -- Em Minas Gerais e no Rio de Janeiro não
é apenas a fragmentação institucional, ou
seja, a falta de programas metropolitanos sinérgicos, que
impede a Grande Belo Horizonte e o Grande Rio de vingarem como
espaços urbanos integrados. Essas duas das maiores regiões
metropolitanas do País tombaram como tal porque as principais
pilastras -- as respectivas Capitais -- se tornaram espaços
excludentes.
Belo
Horizonte à frente, depois Betim e Contagem, formam uma
trinca de cidades-pólo que elitizaram e encareceram a infra-estrutura
econômica e social, expulsando para os demais 30 municípios
da metrópole mineira grandes hordas de populações
pobres, cita a professora Virgínia Guia, da Universidade
Federal de Minas.
A
situação é pior no Rio de Janeiro, que além
de deter cerca de 80% do PIB dos 20 municípios metropolitanos,
ignora solenemente esse verdadeiro cinturão de cidades-dormitório
ao redor. "A Prefeitura do Rio não está nem
aí para uma visão integrada metropolitana e a baixa
atividade econômica dos municípios vizinhos faz com
que reforcem a política de clientelismo junto ao governo
do Estado" -- expõe a especialista em saneamento e
também professora Ana Lúcia Britto, da Universidade
Federal do Rio de Janeiro.
A
dificuldade de os municípios se articularem politicamente
de forma independente do Estado é outro ponto em comum
entre Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Virgínia Guia cita
que o governador Itamar Franco nunca colocou na agenda qualquer
apoio à região metropolitana, enquanto ao carioca
Anthony Garotinho também não interessaria criar
articulações regionais fortes que reduzissem o poder
de autoridade máxima do Estado. "A subordinação
dos municípios ao Estado do Rio é tamanha que muitos
prefeitos mudam para o partido do governador logo após
as eleições" -- conta a professora Ana Lúcia.
Na condição de ex-Capital do Estado, Niterói
é o único Município carioca que polariza
com o Rio de Janeiro um pouco de pujança econômica
e representatividade política.
O
cenário de prefeitos metropolitanos que não se conversam,
como definem as duas estudiosas do assunto, acaba gerando ações
pontuais e isoladas, que beneficiam um ou dois municípios.
Quando há alguma movimentação coletiva, é
fruto mais de união para exercer algum lobby do que propriamente
para gestar qualquer ação de governança metropolitana.
A Baixada Fluminense, que faz parte do Grande Rio, instituiu há
algum tempo uma associação de prefeitos, mas de
objetivos e planejamentos pouco claros. "Eles se organizaram
mais para trazer projetos e recursos para seus municípios
do que para articular interesses comuns. Nem os prefeitos sabem
por quê a associação existe" -- lamenta
a professora da UFRJ Ana Lúcia Britto.
Outra
característica dos chamados municípios periféricos
do Rio é que imitam o isolamento da Capital e acabam promovendo
ações individuais sobre programas tipicamente metropolitanos
como de saúde, meio ambiente, habitação e
destinação do lixo. Recentemente foram articuladas
duas alianças mais significativas -- os comitês de
bacias de Bangu e Baixada Fluminense -- para tratar da gestão
de recursos hídricos. Mas a ausência de instância
metropolitana no Rio desde que a Fundrem foi extinta, em 1989,
resulta em total domínio do Estado. "A despoluição
da Baía da Guanabara, que pega quase todos os municípios
do Grande Rio, é totalmente desenvolvida e controlada pelo
governo estadual. Os prefeitos não participaram de nenhuma
discussão" -- conta Ana Lúcia Britto, da UFRJ.
O
vácuo da articulação institucional acaba
preenchido pela sociedade civil carioca. A professora cita como
contrapontos da comunidade o surgimento nos anos 80 do Comitê
Político para Habitação e Saneamento da Baixada
Fluminense, que reúne várias sociedades de bairro
e grupos ambientalistas. Há também o Pedema, um
fórum de associações ecológicas. "Infelizmente,
porém, a trajetória de governos do Rio é
de não se abrirem à participação popular
representada pelas entidades de classe" -- acrescenta.
Sem
povo -- A ausência da sociedade civil nas instâncias
governamentais decisórias talvez explique o motivo de o
tema região metropolitana soar abstrato para a esmagadora
maioria da população, concorda a pesquisadora e
professora da Universidade Federal de Minas Gerais, Virgínia
Guia. Sem controle social dos processos que decidem e que dão
destinação aos fundos financeiros públicos,
a população tem dificuldade de pensar regionalmente.
Prefere priorizar localmente temas concretos como saúde,
água e esgoto. "Essa visão de cunho local também
prevalece na pesquisa que fizemos entre prefeitos e vereadores,
ou seja, entre quem tem poder político nas mãos"
-- conta a estudiosa.
Por
não dispor de uma instância decisória, a população
acaba se organizando na forma de ONGs e movimentos populares específicos
para transportes coletivos, meio ambiente, habitação,
entre outros. Essa pulverização só fortalece
a burocracia estatal e explicaria o fracasso da Ambel e da Granbel,
dois dos organismos oficiais existentes para cuidar da Região
Metropolitana de Belo Horizonte. "A hierarquia política
e o centralismo burocrático tornam essas instâncias
inoperantes na implementação de políticas
públicas integracionistas" -- opina Virgínia
Guia.
Com
33 municípios e 4,350 milhões de habitantes -- metade
dos quais na Capital -- a Grande Belo Horizonte tem o que a professora
da UFMG chama de um dos modelos teóricos mais democráticos
de gestão. Na prática, porém, caiu na armadilha
das demais regiões metropolitanas, de impasses diante do
modelo autárquico e padronizado de gestão. Tudo
em torno da Ambel (Assembléia Metropolitana) criada em
Belo Horizonte a partir do novo pacto federativo da Constituição
de 1988 gira em torno do estatismo: o fundo de desenvolvimento
só tem representantes de prefeituras, Câmaras Municipais,
governo do Estado e deputados estaduais. As nove câmaras
setoriais -- órgãos consultivos e técnicos
da Ambel -- são dominadas por prefeitos e vereadores.
A
Granbel, instituída nos anos 70 para se contrapor à
estrutura então militarista da Ambel, se dispersou porque
não conseguiu fazer propostas alternativas. A Associação
dos Municípios é outra experiência integracionista
considerada incipiente pela professora Virgínia Guia. Além
disso, por estar sob controle dos pequenos municípios da
área metropolitana, a Ambel tem sido esvaziada por Belo
Horizonte, Betim e Contagem, as três cidades-pólo.
"Depois que os grandes municipalizaram o transporte coletivo,
a Ambel não se reúne sequer para votar aumento de
tarifa" -- conta a professora, que só vê saída
para uma articulação metropolitana eficiente na
volta do controle da União e dos Estados. "A ênfase
à descentralização fez os municípios
perderem o controle da ordem nas ações e da prioridade
ao bem-comum" -- acredita.
*
Matéria publicada na edição de novembro de
2001 da revista LIVRE MERCADO.
**
ANDRÉ MARCEL DE LIMA, DANIEL LIMA, MALU MARCOCCIA E VERA
GUAZZELLI são jornalistas especializados em metropolização.
|